01/12/2007 16:00:00

Artigo: A importância do Pagode do Trem

Luis Carlos Magalhães
(Especial para O Dia na Folia)

Pode até não ser a maior festa da cidade, e não é mesmo; está longe disto. Nem chega a ser uma festa da Penha de outrora, também não. Acredito, no entanto, que esta seja a festa mais original entre todas da cidade. Singular desde sua origem.

Tudo começa na década de 20; era muito precário o mundo do samba de então.

Paulo da Portela (sempre ele...) em plena juventude trazia da região central da cidade (onde nasceu!) os ares de uma outra cultura. Se fez líder em Oswaldo Cruz e traçou a união dessas duas culturas.

Em Oswaldo Cruz morava com sua mãe no local denominado Barra Preta, quase em frente à Rua hoje denominada Compositor Manacéia, uma depois da Rua Clara Nunes, onde hoje fica nossa sede.

Lustrador de móveis, Paulo trabalhava na Lapa. Ao anoitecer pegava o trem das 18:04h. E “subia”. Eram tempos difíceis para o samba e para os sambistas. O grupamento que um dia seria a Portela não tinha sede. Na casa de Barra Preta só dava mesmo para guardar os instrumentos. Nada mais.

Depois foi alugada uma sede junto de onde hoje é a nossa Portelinha; ali ficava a famosa Jaqueira que um dia o portelense Zé Keti cantou tão bonito. Bem ali onde, em frente, está o busto de Paulo. Ali onde domingo vamos plantar uma nova jaqueira.

A Portela que nasceu à sombra de uma Mangueira, no quintal de Seu Napoleão Nascimento, e que está lá (a mangueira) até hoje, plantará uma outra jaqueira, só para a gente lembrar daquela. Sem uma sede, os sambistas de Oswaldo Cruz iam ao encontro de Paulo na Estação da Central. Quem trabalhava no centro, ia pra lá. Os outros iam de trem do subúrbio em direção a Central.

Da Central até Oswaldo Cruz aquele vagão se transformava na sede provisória da Portela; Os sambas eram cantados, escolhidos. Tudo era acertado ali. Décadas depois, Marquinhos de O. Cruz e o movimento “Acorda Oswaldo Cruz” reinventaram o trem: nascia o pagode do trem, o trem do samba.

No primeiro ano era só um banco com quatro ou cinco sambistas; no segundo, vários bancos já estavam ocupados. Depois, um vagão inteiro; No ano seguinte todo um trem. Ano passado foram cinco trens lotados... 28 vagões repletos de sambistas vindos de todos os terreiros da cidade. Gente de todas as escolas, tal como Paulo sonhou um dia.

Até chegar lá em Oswaldo Cruz é muito samba em cada vagão. E quando chegar lá, o samba vai até de manhã, cada trem se transforma em dezenas e dezenas de rodas de samba. É uma história da nossa gente. Uma história do samba... Mais uma história da Portela.

Uma história que temos o imenso orgulho de contar.

E estamos fazendo isto há 11 anos.

* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval

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