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Artigo: A Mangueira, o maestro soberano e seu parceiro genial Na homenagem à escola que o transformou em enredo, o reencontro entre Tom Jobim e o morro e um pedaço da história - nem sempre alegre - da musica popular brasileira Bruno Fillipo Juntos, Tom Jobim e Chico Buarque legaram à história da nossa música obras-primas como “Sabiá” – cuja contrafeita vitória sobre “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, no Festival Internacional da Canção, está no memorial da geração de 68 – “Retrato em Branco e Preto”, “Anos dourados”, “Pois É”, “A Violeira”, entre outras. A última parceria foi uma retribuição à Mangueira, que resolveu homenagear Tom Jobim no carnaval de 92.
Ao contrário do samba-enredo e do desfile da escola, que não estiveram à altura de Tom Jobim, “Piano na Mangueira” ombreia-se às demais composições da dupla. É um samba curto, com letra aparentemente simples, mas repleta de sutilezas: A minha música não é de levantar No início e entre as duas partes da música, a melodia sobe. Nesses trechos, Chico encaixou a palavra Mangueira – o que leva o cantor, para acompanhar a nota, a esticar a segunda sílaba, pronunciando “Mangueeeeeeeira”. Mangueira é o morro, quer que ele suba, está à sua espera. Ele, o maestro Tom, está cá embaixo, na plataforma da Estação Primeira, atendendo ao chamado que viera lá do alto, para se apresentar à nova parceira, por isso já mandara subir o piano. (Chico utilizara esse recurso em Beatriz, parceria com Edu Lobo, ao pôr a palavra chão na nota mais grave e céu na nota mais aguda) A distância que separa Tom – e, por tabela, Chico – do morro da Mangueira não é só geográfica: é cultural, social, econômica. Mas nada que o impeça de tê-lo como parceiro. “Piano na Mangueira” é, em realidade, o reencontro de Tom com o morro, ainda que esse reencontro seja somente simbólico; porque o primeiro encontro, quando Tom Jobim ainda não era Tom Jobim, mas um jovem compositor que ensaiava sua entrada na música, foi real. No inicio da década de 50, Tom subia a Favela do Cantagalo, na Lagoa, para encontrar-se com o humilde compositor Alcides Fernandes, autor de sambas de carnaval. Alcides era marido da faxineira da mãe de Tereza, esposa de Tom. Com ele, Tom compôs as primeiras músicas. (Entre elas a belíssima “Solidão”, gravada por Nora Ney) Graças a ele, Tom pôde trocar a vida errante de músico de boates por um emprego fixo na editora musical Euterpe, onde passava para a pauta as composições de sambistas que não sabiam escrever música. (Será possível um encontro desses no Rio de Janeiro de hoje?) “Piano na Mangueira” tem um quê de melancolia ao mostrar poeticamente, sem a linguagem dos panfletos, que a música popular brasileira, em vez de congregar, segrega. A minha música não é de levantar poeira, um dos trechos mais fortes da letra, é a metáfora que faz uma confissão: sua obra, consumida e admirada pelas camadas médias e altas da sociedade, não caiu no gosto popular. Não serve para animar as rodas de samba, é sofisticado demais para tocar nas rádios populares. É “samba de branco”, concebido nas boates e nos apartamentos da Zona Sul, com forte influência do jazz. Mostra como queremos ser iguais aos americanos, como dependemos dos ianques culturalmente. Não foi tudo isso que seus críticos sempre disseram? A música de Chico tem, talvez, alguns momentos mais populares – mas também não é levantar poeira. Como, então, mandar subir o piano, se sua música não chega tão longe? Chico e Tom querem encurtar a distância, mostrar que a arte não tem fronteiras culturais, sociais e econômicas; que os cânones estéticos da música não podem ser reduzidos a análises economicistas e maniqueístas. Daí os versos dizerem que, mesmo não levantando poeira, a música deles pode entrar no barracão, onde a cabrocha – personificação da mulher brasileira humilde e sensual – prepara-se para viver as agruras da vida, depois da Quarta-Feira de Cinzas. “Piano na Mangueira” é como a Quarta-Feira de Cinzas das cabrochas: triste, mas cheio de esperança. Ainda que, entre a esperança e sua concretização, haja um morro por escalar.
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