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Artigo: Bola Preta, o Cordão que nunca foi Cordão Colunista relembra a trajetória gloriosa do bloco e analisa os erros que culminaram com o despejo de sua sede * Por Luis Carlos Magalhães Citado por Eneida em seu saborosíssimo livro 'História do Carnaval Carioca', Renato de Almeida se refere aos cordões como '...grupos de mascarados, velhos, diabos, reis, rainhas, sargentos, baianas, índios, morcegos, mortes, etc. Vinham conduzidos por um mestre a cujo apito de comando obedeciam todos. O conjunto instrumental era de percussão: adufos, cuícas, reco-reco, etc. Os 'velhos', fazendo os seus passos que se chamavam letras, cantavam marchas lentas e ritmadas, do tipo do 'ó raio, ó sol, suspende a lua' enquanto os palhaços cantavam chulas em ritmo acelerado como 'Quere, Quere, Quere, ó Gangá'. E assim atravessavam as ruas nos dias e noites de carnaval'. Ainda Eneida, citando desta vez Agenor Lopes, quando no I Congresso Brasileiro de Folclore, ensinava que o cordão '...nada mais é do que uma sátira mordaz de nossa gente, surgida do anonimato coletivo, um desabafo, uma espécie de desafogo da alma popular contra aquela série de vexames a que foi submetida a população da 'mui heróica e leal cidade de Sam Sebastiam do Rio de Janeiro' após a chegada dos burocratas do Vice-Rei, da máquina estatal lusitana então montada no país, dos fidalgos ridículos e devassos, enfim, da nova organização social transplantada para nossa terra e agravada subitamente com a chegada de D. João VI e sua numerosa Corte, fugidos às iras do todo-poderoso Napoleão Bonaparte'. Sabemos que o Bola Preta não tem e nunca teve essas características, mas nem por isso nossos irmãos serão desmerecidos. Isto mesmo, irmãos! No Bola, não existem sócios. Todos os seus componentes são assim designados por força de seus estatutos sociais desde 1926. E é Jota Efegê, em seu não menos saboroso 'Figuras e Coisas do Carnaval Carioca', que nos apresenta a figura de Alvaro Gomes de Oliveira, o Kveirinha, o homem que fundou o Bola Preta. Naquele tempo, conta o mestre, lá por 1918, o carnaval começava a ferver nos domingos de outubro, na festa da Penha. Foi nesta época que ele resolveu desafiar o famoso delegado Aurelino Leal que naqueles dias achou de punir grupos e cordões que, segundo ele, pertubassem a ordem pública. Foi então que no Bar Nacional, na mitológica Galeria Cruzeiro, com seus componentes, os irmãos Oliveira Rocho, Chico Brício, Arquimedes Guimarães e outros, foi fundado o Cordão da Bola Preta. Integrante do Clube dos Democráticos, Alvaro Gomes de Oliveira, como todos os membros destacados das entidades carnavalescas, recebera o título aristocrático de Lord antecedendo seu apelido de Trinca Espinha. Em 1918, nosso Lord Trinca Espinha, ao contrair a Gripe Espanhola, conseguiu a ela sobreviver não sem perder boa parte dos já escassos quilos de seu corpo esquálido. Daí para seu apelido Kveirinha foi um pulo. Feito o desafio ao Delegado, o próximo passo foi alugar a sede do Clube dos Políticos, na rua do Passeio, e programar para o histórico dia 31 de dezembro de 1918 o 'maxixético e rebolativo baile' de inauguração do Cordão. Nascia o Bola Preta. E seus bailes tornaram-se famosos na cidade por começarem na tarde de sábado e terminarem na segunda-feira de manhã. Ainda segundo Eneida, até o ano de 1939 o Bola viveu grandes dificuldades. Assumindo o comando, Chico Brício alugou um salão em cima da fábrica de chocolate da Av. 13 de Maio, onde um banqueiro precisava de espaço para instalar o jogo, à época permitido pelo Governo. A partir daí o Bola floresceu. Em 1942, o prédio foi destruído; outra sede foi ocupada até 1950 quando o atual andar da 13 de maio foi adquirido por 3.400 contos. Segundo Hiran Araújo em seu 'Carnaval, seis milênios de história', a compra se deu em 31 de dezembro de 1949 na gestão do presidente Volney Braune. Eneida recorda também que Chico Brício contou que o nome do cordão nasceu em homenagem a uma Pierrete vestida de branco com bola preta que surgira na Glória brincando ao lado de Kveirinha que passou o carnaval todo a procurá-la, perguntando a todos pela moça de branco com bola preta. E deu no que deu... Essa é a história que agora teima em terminar. Outra história é aquela de cada um de nós, em cada carnaval, em relação ao Bola Preta. Nunca fui frequentador da sede e de seus bailes. No entanto, nunca deixei de brincar, pular e cantar atrás daquele caminhão, ao som daquela banda. Aqueles sábados foram, e são, os melhores momentos dos melhores carnavais da minha vida. Sem qualquer resquício de lirismo ou pieguice, tenho a certeza de que se o Bola morrer, morre ali um pedaço de mim mesmo. Todos nós sabíamos. Nada fizemos... Estamos vivendo e fazendo história, história do carnaval brasileiro. A Praça Onze se foi um dia; o Bola está indo agora. Todos nós sabíamos. Nada fizemos...ficamos esperando alguém para nos salvar como os portugueses fazem até hoje. Para ficar no clima do samba da Mocidade, somos todos sebastianistas. Sebastianistas do Carnaval. Ficamos esperando que um rei (não o Sebastião, nem o Momo) saísse das areias de Alcácer-Quibir e salvasse o Bola Preta. Nossa Alcácer-Quibir é a Cinelândia... Agora é cair na real. É dar os anéis para salvar os dedos. Na mesma medida em que seu Cordão rejuvenescia e explodia a cada sábado de carnaval, o Bola vinha definhando e se abatendo ao longo dos últimos anos sob o peso de um condomínio de valor insuportável para a modesta receita vinda de seus 360 sócios-proprietários, quase todos aposentados, que mal pagam suas taxas de manutenção. Seus poucos sócios contribuintes muito pouco acrescentavam para a solução. Um novo, duro e real caminhado, será trilhado. Hoje, é fortalacer seu Cordão de Carnaval, colocá-lo na rua já, hoje e sempre. Esse é Amanhã é valer-se de seu patrimônio cultural, sua marca, seu hino e associar-se a um projeto absolutamente profissional de exploração de marca e repensar sua localização, seus projetos e seu futuro. No mais, folião, é aquela velha pergunta de sempre...Se o Bola fosse de Salvador ou de Recife...blá...blá...blá...blá... ************************************ • E-mail para contato (não para comentários) lcciata@hotmail.com
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