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Artigo: Bruno Filippo homenageia Cartola no dia em que o compositor faria 100 anos
Bruno Filippo
“Não me interesso em fazer uma coisa que o povo saia cantando, mas que ele sinta minha obra, isso é o que me interessa mesmo. Faço samba, música para você guardar dentro de si eternamente no seu coração, e não apenas na sua coleção de discos”, disse Cartola, com sinceridade cortante, em entrevista dois anos antes de sua morte. “As rosas não falam” e “O mundo é um moinho” são dois sambas dolentes, sambas-canções que tocam fundo n’alma porque foram feitas para serem sentidas, para serem guardadas dentro do coração de quem as assimila.Em ambas, Cartola externa o que seria a principal temática de suas músicas: a visão desiludida do amor, o amor como fonte de sofrimento, tristeza, amargura, decepções. A metáfora do moinho, quetritura e reduz a pó os sonhos tão mesquinhos da jovem que quer sair de casa para viver as coisas do amor, justamente os sonhos de felicidade, independência e realização afetivas, só não é mais aterradora do que estes versos que encerram a música: “Preste atenção querida/De cada amor tu herdarás só o cinismo/Quando notares está à beira do abismo/Abismo que cavaste com teus pés.” Presente em parte de sua obra, a metáfora da flor é inversa à que a cinqüentenária bossa-nova consagrou. A tríade amor, sorriso e flor não encontram eco em Cartola. Ao contrário dos bossa-novistas, para os quais a flor é a vida, o desabrochar, os seus encantos, a beleza de apreciá-la, Cartola via a flor pela sua própria capacidade de anular o néctar da felicidade que exala: são os espinhos, o outono, o murchar. Parceria de Cartola com Carlos Cachaça e Zé da Zilda, “Não quero mais amar a ninguém” – composta inicialmente na década de 30 – explica o que aconteceu aoprimeiro amor do “eu lírico” da canção:“Morreu como a flor/Ainda em botão/Deixando espinhos/Que dilaceram meu coração”. No CD “Viva Cartola”, lançado este ano pelo selo Biscoito Fino em homenagem ao centenário do mestre, há uma composição dele e de Francis Hime. A letra de “Sem saudades” diz: “Ouvindo o gorjear da passarada/Eu não senti mais nada/Que lindo dia passei/Não penso mais em amores/Ainda pouco jurei/Passo o dia entre as flores/O espinho ponteagudo (sic)/Pela rosa faz tudo/Defende-a do malfeitor/ Isto é que é ter amor/E os nossos cada vez mais diferentes/Em vez de nos defender/Sangra o coração da gente”. Em “O inverno do meu tempo”, parceria com Roberto Nascimento, podemos ouvir: “Entre flores e espinhos demais/Já não sinto saudades/Saudades de nada que fiz/No inverno do meu tempo, da vida/Oh Deus, eu me sinto feliz”. “Camarim”, outra parceria com Hermínio Bello de Carvalho – estão juntos também em “Alvorada” -, gravada por Elizeth Cardoso e Rafael Rabello no antológico LP “Todo o sentimento”, canta em sua estrofe inicial: “No camarim as rosas vão murchando/E o contra-regra dá o último sinal/As luzes da platéia vão se amortecendo/E a orquestra ataca o acorde inicial”. A temática, dessa vez, não é a do amor, mas a dos sentimentos do artista prestes a encarar o público; e a seqüência dos versos liga a morte lenta das rosas no camarim ao acorde inicial da orquestra. À semelhança do que fizera Chico Buarque em “Bastidores”, cuja interpretação de Cauby Peixoto dificilmente será igualada, o artista, ao travestir-se como tal, tem de se deixar morrer um pouco como pessoa. A principal canção que abarca essa temática da dor e da flor é, sem dúvida,“As rosas não falam”.De início, dá a falsa impressão de transmitir esperança, devido aos primeiros versos; mas os que se seguem revelam sua verdadeira intenção: “Volto ao jardim/Com a certeza que devo chorar/Pois bem sei que não queres voltar/Para mim.” Mas atenção: as rosas de “As rosas não falam” não estão mortas, murchas ou furadas pelos espinhos. “Queixo-me às rosas/ Mais que bobagem/As rosas não falam/Simplesmente as rosas exalam/O perfume que roubam de ti”. As rosas estão vivas, exalando o perfume de quem se ama, mas é um perfume que não espalha a fragrância do amor, e sim a da tristeza. A metáfora é ainda mais pessimista: a rosa é bela; no entanto, sua beleza é inalcançável porque o amor, que ele tanto perseguiu, ao qual ele tanto se entregou, por quem ele tanto sofreu, também o é. O leitor mais atento, antes de chegar até aqui, lembrou-se de outros dois geniais compositores ligados à Mangueira. Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito, poetas da tristeza, da solidão e dos fracassos, compuseram “A flor e o espinho” e “Quando eu me chamar saudade”, duas obras-primas que, assim como as letras que ilustrameste texto,levam ao paroxismo a metáfora da flor para expressar seus sentimentos de mundo. Cartola chega aos cem anos maior do que a Mangueira, a escola e o morro. Conseguiu libertar-se do estigma que reduz grandes artistas a representantes de grupos sociais específicos. Numa época que prenuncia a morte da canção, de brutalidade musical e artística, e em que, no amor e em outras esferas da vida, tudo que não seja hedonista, de gozo espontâneo e descartável perde valor, ouvi-lo é um bálsamo. Por ele – e pelos sentimentos que expressa – as rosas, mortas e vivas, falam. 100 personalidades escolhem a melhor música de Cartola
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