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Artigo: Chora, cavaco. Ou a bela tristeza do samba Bruno Filippo O filme “O mistério do samba”, em cartaz em poucos cinemas do Rio de Janeiro, é sucesso de público e de crítica, apesar de uma resenha negativa de um grande jornal do Rio de Janeiro. Luis Carlos Magalhães, neste site, dedicou-lhe dois belos textos. Voltarei ao filme em minha próxima coluna, pois ainda há muito para ser dito sobre ele. Mas, antes, lembro uma cena e uma frase que têm escapado aos elogios que cobrem a obra de Carolina Jabor e Lula Buarque de Holanda. É aquela em que Seu Casemiro da Cuíca recorda um samba de sua autoria, ao que lhe observam a tristeza da música. Ele, então, responde, com a fisionomia e a fala marcadas pela idade e pela vida: “É, mas se não tiver tristeza o samba nunca fica bonito.” A tristeza é senhora, Tomando a tristeza como senhora, reproduzo um ensaio publicado neste espaço há dois anos sobre a matéria-prima de que se servem não só Seu Casemiro e Caetano Veloso – mas todos os grandes nomes do samba.
Nas datas redondas em que emergem fatos e personagens importantes, o ano de 2003 registrou duas efemérides na música popular brasileira: os noventa anos de nascimento de Vinícius de Moraes e os vinte e cinco anos da morte de Candeia. Como cidadãos e como artistas, não habitavam o mesmo universo, comunicavam-se com públicos distintos por meio de suas musicas, de suas letras, de suas parcerias. Um era culto, erudito, exercia a profissão de diplomata. Transferira sua verve literária da poesia formal para as letras de música. O outro nasceu e morreu pobre. Era negro e, como policial, tinha fama de truculento. Uma discussão no trânsito deixou-o paraplégico, atingido que fora por um tiro na coluna. Mas, para além das diferenças sociais, unia-os a concepção de que uma das principais características do samba é a tristeza – a tristeza dos amores desfeitos, das paixões não correspondidas, das traições, da solidão, das agruras da vida. Diz Vinícius, em Samba da Bênção, parceria com Baden Powell: Fazer samba não é contar piada Diz Candeia, em Pintura sem arte: Não, não basta ter inspiração Ambos retomaram a lição de Noel Rosa, que na obra-prima Feitio de Oração (parceria com Vadico) pôs em segundo plano o conflito entre morro e cidade pela paternidade do samba: O samba, na realidade, É curioso que o samba seja sempre relacionado à alegria, à festa, a um momento em que os problemas do cotidiano são deixados de lado. Há muitas variações no samba; historicamente ele se presta, de fato, à alegria, à dança, aos ritos festivos, ao carnaval - mas também à introspecção. A carnavalização do samba oculta a tristeza e a melancolia do semblante e principalmente das músicas de um Cartola, de um Nelson Cavaquinho, de um Guilherme de Brito, de um Chico Buarque, de um Paulinho da Viola, de um João Nogueira, de um Nelson Sargento, de um Noel Rosa, de um Ismael Silva, de um Candeia e até de um Vinícius. Não foi por divertimento dionisíaco que Cartola poetizou: “Ouça-me bem, amor/Preste atenção/O mundo é um moinho/Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos/Vai reduzir as ilusões a pó.” Não foi para deixar as tristezas de lado que Guilherme de Brito, em A flor e o espinho, criou um dos versos mais esplêndidos da música brasileira: “Tire o seu sorriso do caminho/Que eu quero passar com a minha dor/Hoje pra você eu sou espinho/Espinho não machuca a flor.” (Sérgio Porto considerava-o o mais belo da nossa música). Pouco antes de morrer, Guilherme de Brito disse, em entrevista, que sua vida dura e sofrida servia-lhe de inspiração para compor. Nelson Cavaquinho - considerado um dos baluartes da Mangueira - foi parceiro de Guilherme em A flor e o espinho e em outras obras-primas como Pranto de poeta, Folhas secas, Quando eu me chamar saudade. Sobre ele, Flávio Moreira da Costa escreveu, num livro publicado pela editora Relume Dumará, dentro da coleção Perfis do Rio: “Nelson não era de carnaval, apenas tinha ligações com o morro e torcia pela escola de samba. A única vez que ele desfilou na Mangueira foi na década de 70, convocado para compor a comissão de frente com os sambistas da velha-guarda.” Nos anos 60, Nelson Cavaquinho atraiu a admiração de jovens que se encantavam com a mensagem de seus sambas, com sua história de vida, com seu carisma. Um deles, em pouco tempo, tornar-se-ia um dos mais profícuos e talentosos compositores da música brasileira: Paulo César Pinheiro. No mesmo ano de 2003, Pinheiro lançou o CD O Lamento do Samba, com catorze músicas inéditas, todas de sua autoria, letra e melodia, sem parceiros. Sua voz rouca, que muitos dizer ser parecida com a de Nelson, empresta mais dolência às interpretações. O samba de abertura, que dá título ao CD, não apenas reafirma os ensinamentos de Noel, Candeia e Vinícius – mas o radicaliza: a beleza do samba é o seu lamento, sem ele o samba perde sua força, deixa de ser verdadeiro, torna-se superficial, falsamente alegre. E vai além: faz da falsa alegria do samba um libelo contra sua carnavalização. A letra é grande, não é comercial, não tem o objetivo de tocar em rádio, por isso não precisa preocupar-se com seu tempo de duração. A beleza poética compensa a leitura:
Nos dias de hoje Quando eu canto na roda de samba O que falta para quem faz um samba *************************************
Certa vez, revelando desânimo com a situação do país, confidenciou: “O Brasil está perdido”. Não tive coragem de retruquei. Ninguém é capaz de mostrar força o tempo todo. Há três semanas, Cleyde sucumbiu à saudade da filha. Essa derradeira manifestação de fragilidade humana aumenta sua grandeza e sua campanha - e a sensação de que, lamentavelmente, o Brasil está perdido. Não sei, mas acho que esse assunto da Cleyde, e das fragilidades humanas, não está tão distante assim do mistério e da tristeza do samba.
* Bruno Fillipo é jornalista, sociólogo e coordenador do Instituto do Carnaval da Universidade Estácio de Sá
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