Artigo: 'Criação da LESGA significa um nocaute na Associação das Escolas de Samba'
Bruno Filippo analisa a criação de uma nova liga para o Grupo A e lembra a trajetória dos órgãos que comandaram o carnaval através da história
Bruno Filippo (Colunista do Dia na Folia)
A criação da LESGA (Liga das Escolas do Grupo de Acesso), caso seja concretizada, com o devido reconhecimento dos poderes do carnaval, representará o segundo grande nocaute sofrido pela Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (AESCRJ) em três décadas. A primeira, naturalmente, aconteceu após o carnaval de 1984, quando as dez escolas que desfilavam no Grupo Especial fundaram a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa).
De repente, a AESCRJ, de entidade máxima do carnaval carioca, passou a ser coadjuvante - e foi sufocada pela ausência das grandes escolas e pelo poderio da Liesa, que foi aos poucos assumindo o controle do desfile. Enquanto a Liesa imprimia um caráter empresarial à sua administração, a AESCRJ, com muitas agremiações, poucos recursos e – a partir de então – pouca visibilidade, não conseguia acompanhá-la. Some-se a isso uma série de denúncias, nunca comprovadas, envolvendo resultado de carnaval, o que abalava sua credibilidade, e a imagem era clara: uma instituição que precisava, urgentemente, modernizar-se.
A primeira tentativa de separar as escolas do Grupo de Acesso A da AESCRJ aconteceu em 95, por intermédio de Paulo de Almeida, então presidente da Liesa. (Não é por acaso que ele está capitaneando a atual cisão) A proposta era criar uma entidade vinculada à Liesa, ambas presididas pela mesma pessoa. Passada a euforia inicial, a idéia não prosperou.
Seja por dinheiro – porque, no fundo, é isso, a capacidade de se transformar em business, o que está em jogo atualmente - seja por ideologia, o universo das escolas de samba, em seus mais de oitenta anos de existência, já viveu outras cisões. Entre o fim dos anos 40 e o início dos anos 50, as escolas foram transformadas em campo de disputas político-ideológicas, com ingerências, diretas e indiretas, do Partido Comunista e do governo do Distrito Federal, e isso se refletiu na criação de entidades alinhadas a determinadas concepções – ainda que o pragmatismo, muito, mas muito acima das ideologias, sempre tenha sido a tônica das agremiações.
Em 1949, 1950 e 1951, houve dois desfiles. Em 1949 Mangueira e Portela estavam vinculadas à União Geral das Escolas de Samba do Brasil, ao passo que o Império pertencia à Federação Brasileira das Escolas de Samba. O desfile da Federação foi reconhecido como oficial – mas em 1950 Portela e Mangueira bandearam-se para uma terceira entidade, a União Cívica das Escolas de Samba, retornando no ano seguinte à União Geral. Nesses dois anos, os desfiles – o da Federação, com o Império, e o das duas uniões, com Portela e Mangueira – foram considerados oficiais.
Da fusão da Federação com a União Geral surgiu, em 1953, a atual Associação das Escolas de Samba. Que, nos trinta e um anos seguintes, congregou todas as escolas de samba. E assistiu à transformação do carnaval do Rio, sem, no entanto, transformar a si própria.
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