15/08/2008 02:55:00

Artigo: Duas majestades em um mesmo palco

Luis Carlos Magalhães relata a alegria de ver Roberto Silva e Nei Lopes num show e saúda a volta dos espetáculos musicais ao João Caetano

Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)


Bem...eu estava lá, não costumo perder essas coisas.

Quando eu li, ainda que apressadamente, Roberto Silva...Nei Lopes...me aprumei logo.

Mas ‘tava demorando. Para um governador que é filho daquele pai todo, estava mesmo demorando ter alguma coisa boa na nossa área. Nada no João Caetano até agora...

Cadê sinal de um “Seis e Meia” do João Caetano, aquelas sextas-feiras inesquecíveis no MIS, com Ivone Lara, Paulinho da Viola, Velha Guarda da Portela, Elza Soares...tudo 0800 e com cerveja a um real. Chorinho no MIS da Lapa toda quarta, chorinho nos jardins do palácio. Há quem garanta que vai prevalecer o DNA e vem muita coisa boa por aí, tomara!

Mas eu estava lá. Uma vez chamaram Paulinho da Viola para cantar em um show, e mandaram: _ Com vocês o "Príncipe do samba". E Paulinho, como-sempre-como-um-príncipe: _"Pera lá...Príncipe do samba é Roberto Silva!

E assim foi.

Quando cheguei a Orquestra Criola, do saxofonista Humberto Araújo, já mandava um maxixe-cubano (era isso mesmo?), um ou outro Noel,,tudo muito bem “arranjado”, muito caprichado, muito ensaiado, só de aperitivo. E tinha também Marcelo Viana cantando.

Ele, neto de Pixinguinha, ator-dançarino-cantor dos meus favoritos, integrante de duas das melhores produções desta cidade em nossa área; Clara Nunes, que vi (juro!) mais de vinte vezes em temporadas diferentes e "O samba da minha terra" de Marília Barboza, produção da velha e boa Funarte, a FUNARTE do Ciro, que assisti outras vinte vezes...e fiquei querendo ver mais.

Entre uma e outra beliscada em cena do “outro mestre” entra em cena o rei do samba sincopado. Tido e havido como intérprete favorito de João Gilberto, o “príncipe” mostrou mesmo que era o favorito quem saiu de casa ou do trabalho para vê-lo.

Foto: Banco de imagensEsbanjando categoria, elegância e bom humor Roberto, aos 88 anos de vida, aos 70 de uma belíssima carreira, "se virava" para seguir o roteiro musical "toureando" polidamente os pedidos de seus fãs.

Uma beleza, uma vitalidade, uma exuberância de dar inveja. O alegre desfrutar de uma carreira de centenas de discos (78 rpm), 32 LP’se a ainda hoje deliciosa série "Descendo o Morro" com cinco LP’s ainda hoje procurados. Por várias gerações.

Na próxima quarta estarei lá. Vai ser Noca da Portela. Desculpem a expressão mais ela se encaixa perfeitamente em Noca: um "hit maker". Impressionante a quantidade de sucessos da carreira de Noca. Tomara que a voz não esteja de tocaia, tomara...Também Nelson Sargento, com novo disco por aí, ele remanescente da formidável geração de compositores do morro da Mangueira. E o grupo DNA do Samba. Só filho-de-peixe: filho do Nei, filho do Neguinho, filho do Sargento e acho que um neto de D. Ivone Lara.

O melhor da noite foi ir embora sem saber quem estava mais feliz. O público de Roberto ao pedir os sucessos de seu ídolo ou se era ele próprio, por estar ali naquele palco, com aquela idade, cumprindo sua missão de artista do povo.

O pior da noite foi ver no palco a "outra majestade", o outro mestre contido em seu papel de mestre de cerimônia, dando ali uma ou outra beliscada em cena, deixando o "Príncipe" bem à vontade. Digo pior porque não é fácil estar ali no teatro, ver um artista de tamanha envergadura no palco e não ouvir nada...nada de seu baú de sucessos inesquecíveis.

Deixa ele...


* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval

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