28/01/2009 11:44:00

Artigo: Duas ou três coisas que sei de Paulo da Portela

Luis Carlos Magalhães homenageia a memória do sambista 60 anos após a sua morte

Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)


No princípio era no go-gó. Assim na Festa da Penha, a única maneira de se passar uma música adiante.

E foi assim até que as casas especializadas começaram a vender pianos. Depois, com os pianos vendiam partituras musicais.

Assim a maestrina Chiquinha Gonzaga ganhava a vida, vendendo partituras das músicas que compunha.

O samba, ainda como conseqüência das reformas urbanas, subia o morro junto com os sambistas. E ficava lá. Tempos da Favella, no atual Morro da Providência. Depois Mangueira, Estácio, matriz e tantas e tantas outras.

Depois veio o disco, gravação mecânica. Não era para qualquer um colocar voz naquela placa de cera.. Só mesmo quem tinha vozeirão e acompanhado por metais; tempos de Francisco Alves, o Chico Viola...rei da voz.

Com a gravação elétrica tudo mudou. Qualquer um poderia gravar. Tempos de Mario Reis, mais ou menos um João Gilberto de sua época.

Com as gravadoras prontas para gravar, e muito mais prontas para vender, a nascente indústria cultural precisava e procurava vorazmente músicas para gravar..E quem fazia a música, então, era o sambista, como vimos. E onde é que estava o sambista?

Nos morros, como vimos.

O samba, que era como passarinho,que era de quem pegasse, passou a ter dono desde quando Donga gravou pelo telefone. E nunca mais parou.

Como o sambista tinha má fama, baralho, navalha, malandragem, não tinha vez nas gravadoras. Foi aí que o samba desceu o morro. Ou melhor, os intérpretes é que subiam o morro para comprar samba dos sambistas e gravá-los como seus.

Quem desceu o morro foi o samba, o sambista continuou lá em cima.

È neste contexto econômico social que ocorre, aqui na cidade, a famosa polêmica entre Noel Rosa e Wilson Batista quando o poeta da Vila aconselha ao ‘malandro’ abandonar a malandragem, se profissionalizar e viver de seu ofício sem precisar vender sambas para falsos parceiros como Cartola cansou de fazer.

Lá na Roça, em Oswaldo Cruz, não era Noel Rosa e sim Paulo da Portela que ‘enquadrava ‘os sambistas para que pudessem sobreviver na nova realidade de um país que se industrializava, inclusive do ponto de vista de sua cultura popular. A já tão conhecida história de o sambista passar a andar ‘com pés e pescoço ocupados’: de sapato e abotoado.

Foto: Banco de imagensAssim Paulo exerceu sua liderança, ora com sambistas ora junto às famílias que proibiam suas filhas de desfilar. Respeitado, empenhava sua palavra, buscava e depois trazia as moças de Oswaldo Cruz que passaram a desfilar na Portela.

Assim, junto à imprensa, junto às autoridades, Paulo representava  as escolas de samba,
 em um tempo em que um cordão étnico impedia que se  passasse do espaço da Praça Onze para o espaço da Avenida  Rio Branco, palco dos desfiles das grandes sociedades..

Depois, tudo mudou. Tendo Paulo à frente as escolas de  samba romperam fronteiras, cordões, cordas  e preconceitos. Conquistaram a cidade, o país e adquiram  destaque no cenário mundial .

Hoje o desfile é nosso orgulho maior.

Contando ninguém acredita ...



* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval

* E-mail para contato: lcciata@hotmail.com

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'Braguinha' (Mangueira, 84)

'Kizomba' (Vila Isabel, 88)

'Liberdade, liberdade' (Imperatriz, 89)

'Ratos e Urubus'
(Beija-Flor, 89)

'Vira, Virou...a Mocidade chegou' (Mocidade, 90)

'Vou cair na gandaia', (Viradouro, 97)


 



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