15/10/2008 01:24:00

Artigo: Em busca da identidade nacional: o carnaval sinônimo de Rio de Janeiro

Jaime Cezário
(Colunista do Dia na Folia)


Em outubro, o Rio de Janeiro começa a viver o fervilhar de todas as quadras das escolas de samba: está chegando à reta final da escolha do hino oficial de cada agremiação para o carnaval de 2009. A cidade começa a se aquecer ao ritmo das baterias, dos sambas, das apresentações de protótipos e dos enredos do próximo carnaval.

A primavera chegou, o clima mudou, já sentimos o calor da próxima estação e, com ele, toda a agitação pré-carnavalesca dos ensaios técnicos e das quadras. Respiramos entusiasticamente a alegria do carnaval e vivemos assim, todo ano, o ano inteiro, nesse clima especial que muitas vezes nem entendemos de onde veio. Toda essa identidade carnavalesca que o povo carioca possui  é característico de nossa cidade maravilhosa e fascina o mundo inteiro.

Para entender um pouco mais dessa identidade com o carnaval de nossa cidade, precisamos  voltar no tempo, ao século XIX, onde o Rio de Janeiro era capital do Império  e depois da República. Voltar a uma época em que nosso país buscava novos rumos e tentava encontrar sua verdadeira identidade.

No Brasil, a partir do século XIX, a elite intelectual começa a buscar o que representaria a identidade nacional neste país de característica mestiça, mas de forte influência européia. Com a derrubada do sistema monárquico e a implantação da República, isso passou a ser uma necessidade do novo regime. Precisava-se substituir o símbolo da coroa pela idéia de nação. A unidade nacional começa a ser discutida já na década de 1880, quando a primeira geração de intelectuais nacionalistas abordaria esse tema.

No final do século XIX, a intelectualidade havia chegado à conclusão de que o grande responsável pelo atraso brasileiro em relação às outras nações mais desenvolvidas era mestiçagem que existia no país. Para os intelectuais, a modernidade significava um Brasil europeizado e somente a imigração poderia “limpar” os efeitos perniciosos da miscigenação.

A solução proposta seria o incentivo à imigração européia que, imaginava-se, acabaria por branquear a “raça” brasileira. Como conseqüência, tudo o que se ligava à mestiçagem era visto com desprezo, incluindo as manifestações culturais populares, principalmente as relacionadas à cultura negra”.

Com a chegada do século XX e, principalmente, após a Primeira Guerra Mundial, o tema nacionalidade volta a se impor, dessa vez sob nova óptica. Os países do mundo ocidental, desiludido com os horrores da guerra e percebendo o fim do ideal de um mundo destinado à felicidade, voltavam para as questões internas e para a determinação de suas individualidades. 

O Brasil, por sua vez, relançava a tarefa de construção da identidade nacional e uma nova corrente de pensamento se destacaria. Essa nova corrente de pensamento ganharia muita força e direção após o impacto da publicação do livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, em 1902. A figura e a cultura do sertanejo tornam-se peça importante na montagem e construção desta unidade nacional. Mas vai ser no ano de 1920 que esse sentimento de valorização do “genuinamente nacional” tomaria maior impulso.

Surgia uma segunda corrente de idéias que procurava reunir a diversidade cultural do Brasil numa idéia homogênea. Reflexos dessas duas correntes de pensamento nacionalista podiam ser percebidos nas diversas expressões da cultura brasileira, e o carnaval não era uma exceção.

A idéia de civilizar o Brasil através do contato com o europeu estava presente no carnaval dos passeios, desfiles e bailes, sendo esta desejada por boa parte da burguesia. Era pensamento da época que, através do contato com uma festa mais “distinta”, o antigo Entrudo popular dos escravos e do povo das ruas pudesse ser anulado ou transformado numa brincadeira cortês.

A outra corrente de pensamento buscaria, ao contrário, valorizar as manifestações carnavalescas mais ligadas à cultura do “interior” do país, que expressariam a essência da “alma” brasileira. Em 1933, a publicação de outro livro – Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freire – colaboraria para popularizar um tema que já transitava pelo pensamento nacionalista: a importância da cultura negra, e sua relação com a branca, para a formação da nação brasileira.

Mais uma vez a folia carioca antecipava e refletia as questões brasileiras, pois já no final dos anos 1920 podia-se perceber um notável impulso nas manifestações carnavalescas de influência negra. No Rio de Janeiro, as idéias modernistas da semana de 1922 em São Paulo não tiveram uma adesão para uma implantação ativa de sua busca pela identidade nacional.

Aqui teremos um intercambio cultural entre artistas, intelectuais e as camadas mais populares nas ruas, nos cafés, nas festas, nas casas de santo e também nos carnavais. Ou seja, seriam as festas e espaços populares da cidade que iriam gerar e incentivar o desenvolvimento das idéias modernistas na capital do país.

O resultado mais importante desse debate aberto das idéias modernistas nas ruas da cidade e a festa carnavalesca “real popular” que ocupava as ruas do Rio de Janeiro foi à reformulação do próprio significado do carnaval.

A visão modernista vai incorporar a esse sentido de desafogo do cotidiano a idéia do carnaval como forma de resistência “antropofágica” do povo brasileiro, principalmente o carioca, as imposições externas. Uma espécie de liquidificador capaz de transformar tudo em uma loucura carnavalesca, conceito muito bem exemplificado na celebre frase de Oswald de Andrade: “Nunca fomos catequizados. Fizemos carnaval”.

Dentro dessa concepção, o Rio de Janeiro impunha-se como eixo da folia e lugar central para a expressão dessa força carnavalesca popular, tornando assim, o carnaval sinônimo de Rio de Janeiro, enquanto o termo “carioca” passava a equivaler a carnavalesco, com o apoio de toda intelectualidade brasileira.

O carnaval popular do Rio de Janeiro estava carregado do “espírito” da nação; a partir desta constatação do pensamento dos modernistas estrutura-se o caminho para que a festa carnavalesca da Cidade do Rio de Janeiro se torne a maior expressão da alma brasileira, realizando uma festa múltipla como o carnaval, que sintetizaria um país plural, produto da reunião de muitas diferenças. O carnaval passava a representar a síntese do Brasil, representante legítimo da identidade nacional numa espécie de resumo da genuína cultura brasileira de raiz popular e multifacetada.
 

* Jaime Cezário é professor do Instituto do Carnaval, arquiteto, decorador e carnavalesco

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