01/10/2008 10:34:00

Artigo: Escolas de samba, décadas de estilos e mudanças

Jaime Cezário
(Colunista do Dia na Folia)


Em primeiro lugar, quero agradecer ao Grupo O Dia de Comunicação pelo convite que me foi feito para escrever neste site tão importante para a preservação e discussão da cultura carnavalesca.

Minha coluna se chama 'Folia, tradição e modernidade', e trará, quinzenalmente, reflexões que costumo desenvolver como amante do carnaval e como professor das disciplinas “História da Arte Aplicada ao Carnaval” e “Laboratório de Produção de Projetos Carnavalescos”, as quais ministro no Instituto do Carnaval, da Universidade Estácio de Sá.

Quero também fazer um agradecimento a Bruno Filippo, que, além de coordenador e professor do Instituto do Carnaval, é colunista deste site.

Os desfiles vêm passando por constante transformação ao longo das décadas. O grande momento transformador da estrutura de apresentação das escolas de samba acontece na década de 60. Essa década vai se caracterizar por mudanças ocasionadas pela penetração da classe média no samba. Alguns autores denominam o período, de maneira um tanto quanto debochada, como “embranquecimento” do samba; outros passam a chamá-lo de “sincretismo cultural”.

Responsável pela grande virada no conceito de desfiles, o Salgueiro teve quatro expressivas vitórias com enredos criados por Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues nos anos de 1960, 1963, 1965 e 1969, inaugurando o 'estilo afro'.

Dando uma guinada total na temática que até então vinha sendo apresentado pela maioria das escolas, o Salgueiro criou e trilhou caminhos próprios, estabelecendo um padrão de criatividade que passou a ser uma das grandes atrações dos desfiles. Enfatizando os episódios dos movimentos populares e a história dos heróis negros, ignorada pela história oficial, faz jus ao seu lema, criado por Nelson Andrade: “Nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente.”

A década de 70 é de profundas transformações nos desfiles das escolas de samba. Nesse período, a inteligência e a criatividade de Joãosinho Trinta inauguram o estilo carnavalesco 'épico monumental'. Sensível às mudanças na estrutura da festa, ele soube aproveitar a alteração do ângulo de observação do público, que passou a assistir aos desfiles em arquibancadas bem mais altas, devido à popularização e ao crescimento do interesse no espetáculo. Joãosinho Trinta fez crescer suas alegorias e fantasias para acompanhar as novas alturas do espetáculo, e assim, aproximar-se do público.

Joãozinho Trinta se torna o maior vencedor de campeonatos do carnaval do Rio de Janeiro em uma década, a começar no Salgueiro, em 1971, 1974 e 1975, e na Beija-Flor de Nilópolis, nos anos de 1976,1977, 1978 e 1980.

A superioridade dos desfiles das escolas de samba comandadas por Joãosinho Trinta causou reações e críticas contra o luxo excessivo e contra sua grandiosidade. O carnavalesco respondeu aos críticos com uma frase que se tornou antológica: 'Pobre gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual'.

No início dos anos 80, o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro já era uma instituição nacional e a maior fonte de captação de dólares do setor de turismo. A marca da modernidade presente no carnaval carioca dos anos 80 ficou por conta da Mocidade Independente de Padre Miguel, que deixou de ser reconhecida apenas por sua bateria nota 10, do mestre André, famoso por suas paradinhas, e passa a incorporar os elementos necessários para tornar uma escola vitoriosa do grupo especial.

Com a chegada do carnavalesco Fernando Pinto, uma nova fase será inaugurada no carnaval da Mocidade, surgindo os desfiles no estilo 'tropicalista', onde se valorizará nossa cultura tupiniquim. Como exemplo, cito os enredos dos anos de 1980, 1983 e 1987, cujos títulos respectivamente são: “Tropicália Maravilha”, “Como era verde meu Xingu” e “Tupinicópolis”.

Uma nova estética visual é inaugurada por Fernando Pinto, a qual será premiada no ano de 1985 com o campeonato da Mocidade com o enredo em que ele extrapolou toda sua criatividade ao misturar o tropicalismo tupiniquim ao futuro sideral numa viagem com o enredo: “Ziriguidum 2001, um carnaval nas estrelas.”

Na década de 90, quem vai ditar o padrão dos desfiles das escolas de samba será a Imperatriz Leopoldinense da carnavalesca Rosa Magalhães, que, depois de ter passado sem sucesso pelo Salgueiro, é convidada pelo carnavalesco Viriato Ferreira para fazer parte da equipe de criação do carnaval da escola da Leopoldina.

Com a morte de Viriato, Rosa Magalhães, absoluta e renovada, impõe seu estilo “barroco”, que marcou esse período pelo requinte do detalhe de suas fantasias e alegorias e pelos seus enredos bem embasados e com fundamentos na história do Brasil. A Imperatriz Leopoldinense se sagra campeã nos anos de 1994,1995, 1999, 2000 e 2001.

Outros nomes se firmam no cenário do carnaval, mas quase sempre oriundos da Escola Nacional de Belas Artes, discípulos de Fernando Pamplona, como Max Lopes, considerado o “mago das cores” com seu estilo “barroco”; Renato Lage com seu inconfundível “estilo Spielberg” (high-tech), adepto de efeitos em luz e néon, marcou época na Mocidade Independente de Padre Miguel onde conquistou os títulos de 1990, 1991 e 1996.

O desfile das escolas de samba carioca entra no século XXI como o maior espetáculo do planeta, seja em número de participantes, seja em receita financeira. Na primeira década do novo milênio, quem vai ditar o padrão dos desfiles das escolas de samba será a Beija-Flor de Nilópolis, na qual se destaca, em sua comissão de carnaval, o nome de Laíla.

A Beija-Flor se sagra campeã nos anos de 2003, 2004, 2005, 2007 e 2008. Com a chegada de Alexandre Louzada para comandar a comissão de carnaval para o desfile de 2006, a Beija-flor de Nilópolis encontra o toque de refinamento de que necessitava para realmente estar acima das demais co-irmãs, apresentando trabalhos de grande beleza e qualidade.

Nesta década o carnavalesco Alexandre Louzada atinge sua maturidade profissional, apresentando belos carnavais, e no ano de 2005 se sagra campeão pela escola de samba Unidos de Vila Isabel e no ano seguinte se transfere para Beija-Flor, na qual conquista mais dois títulos e se sagra, com isso, o primeiro carnavalesco tri-campeão do novo milênio (2005, 2007 e 2007).

Talvez tendo como base o sucesso da Beija-Flor, no início deste século um movimento foi deflagrado por algumas escolas de samba com o intuito de tirar de cena a figura do carnavalesco, substituindo-o por uma comissão de carnaval.

Algum escolas de samba resolveram não creditar os méritos da criação artística do carnaval a apenas um profissional e resolveram substituir o comandante pela equipe coadjuvante, que naturalmente acompanha todo carnavalesco.

Esse processo causou período que classificamos como “Maneirista”, que na realidade é um estilo de fazer carnaval à maneira e ao estilo de um grande carnavalesco já consagrado e com estilo definido. Assume o comando criativo do carnaval muitos assistentes de carnavalescos promovidos da noite para o dia à condição de carnavalesco e, na maioria das vezes, sem ter atingido a amadurecimento profissional necessário.

Isso está gerando no grande público amante da festa e imprensa em geral a sensação de repetição, mesmismos e falta de criatividade, apresentando-se na passarela do samba o que podemos chamar de carnavais “amaneirados”.

Cabe lembrar que, no Salgueiro dos anos 60, o carnavalesco Fernando Pamplona contava na sua equipe de carnaval com profissionais do quilate de um Arlindo Rodrigues, do casal Nery, de um Joãozinho Trinta, de uma Maria Augusta, entre outros. Nunca foi questionado, nem pela imprensa, nem pelo público, o fato de o Salgueiro ter uma comissão de carnaval. O Salgueiro tinha um grande mestre carnavalesco e uma equipe de excelentes profissionais que o auxiliavam.

Hoje, algumas Escolas de Samba, para baratear a mão-de-obra do profissional de carnaval (carnavalesco), adotou este processo de formar comissões de jovens promessas, mas aos quais, infelizmente, faltará sempre a orientação do grande mestre.

Acabar com a figura do “grande carnavalesco” significa montar uma estrutura acéfala que pode trazer, como conseqüência, grandes perdas para a festa. Para contrariar este pensamento segundo o qual carnavalesco não é uma figura importante numa escola de samba moderna, surge na contra-mão da história a figura de Paulo Barros, que nos carnavais de 2004 e 2005 surpreende na até então "escola média" Unidos da Tijuca. Paulo Barros conquista dois vice-campeonatos, e inaugura o estilo do carnaval “conceitual”.

Com uma estética diferente, usando materiais alternativos e baratos de efeito, valorizando os componentes com coreografias ao longo do desfile em alas e alegorias, com o uso constante nos seus carnavais de alegorias vivas, tornando-se o mais novo destaque dessa arte que vive se reinventando.

Com Paulo Barros, o “samba” definitivamente deixou de ser mostrado nos pés e passou às mãos em seus carros alegóricos totalmente coreografados e inspirados em shows da Broadway, Las Vegas e filmes hollywoodianos. Precisamos compreender as reais diferenças que existem entre o Carnaval (cultura externa) e as Escolas de Samba (cultura interna).

Nossa cultura é tremendamente rica e uma inesgotável fonte de enredos culturais maravilhosos. Até que ponto todas essas transformações foram boas? É uma discussão antiga, tão antiga quanto o próprio desfile das escolas de samba, mas nem por isso pouco pertinente, sobretudo neste momento maneirista e hollywoodianos.

Voltarei ao assunto na próxima coluna.

 

* Jaime Cezário é professor do Instituto do Carnaval, arquiteto, decorador e carnavalesco

Inclua esta matéria no Del.icio.us Inclua esta matéria no Google Inclua esta matéria no Digg Inclua esta matéria no StumbleUpon



Mais notícias...

 MATÉRIAS RELACIONADAS
Carnavalesco Jaime Cezário passa a integrar o time de colunistas do Dia na Folia (22/09/2008 09:04:00)


Escolas de Samba
Enquete

Na sua opinião, qual desfile pode ser considerado o
mais importante da
história do Sambódromo?


'Braguinha' (Mangueira, 84)

'Kizomba' (Vila Isabel, 88)

'Liberdade, liberdade' (Imperatriz, 89)

'Ratos e Urubus'
(Beija-Flor, 89)

'Vira, Virou...a Mocidade chegou' (Mocidade, 90)

'Vou cair na gandaia', (Viradouro, 97)


 



Grupos Especial CamarotesGrupo AGrupo B Galerias Foto do Leitor Fale Conosco Notícias, bastidores, fotos e tudo mais relacionado ao maior espetáculo da Terra.
O Dia na Folia: Carnaval o ano inteiro, do Grupo Especial ao Grupo de Acesso E, passando por todos blocos e bandas da cidade. O Dia na Folia é um produto do Dia Online

Todos os direitos reservados