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Artigo: 'Kizomba, festa da raça', 20 anos depois; liberdade ou ilusão, 120 anos passados Na semana da Consciência Negra, Luis Carlos Magalhães recorda o desfile de 88, quando Vila Isabel e Mangueira fizeram carnavais épicos Luis Carlos Magalhães Em tempos de lançamento de CD e de discussão de sambas-enredo, em tempos de Zumbi e de consciência negra, nada mais oportuno que trazer ao debate o momento mais forte da temática da negritude no carnaval, e um dos grandes momentos da história dos desfiles. Refiro-me às comemorações do centenário da Lei Áurea, no carnaval de 1988 quando algumas escolas aderiram ao tema proposto – 100 anos da abolição da escravatura. A Vila Isabel daquele ano era presidida por uma mulher. Alta, loura, insinuante e de olhar soberano Maria Lúcia Caniné, a Ruça, era tudo que a escola precisava naquela hora. O enredo, concebido pela liderança maior da escola – Martinho da Vila –, encontrou um samba formidável, obra dos compositores Luiz Carlos da Vila, Jonas Rodrigues e Rodolfo de Sousa. Encantou a cidade e o país; era a Kizomba – a festa da Raça, desenvolvido pelos carnavalescos Ilvamar Magalhães, Milton Siqueira e Paulo César Cardoso. Gera puxou o samba. Um samba que ninguém mais esqueceu... Muita gente grande por aí considera que aquele foi o maior desfile de todos os tempos. A escola “baixou” na avenida e o samba “pegou na veia”. Vários motivos concorreram para isto, além do belo enredo e do belo samba. Era a “escola-américa”, a segunda escola de tanta gente. A escola do bairro de nascimento de Noel Rosa, a maior unanimidade nacional ; o bairro do jogo do bicho, dos bailes, das batalhas de confete do Boulevard e o mais carioca dos bairros, assim considerado por Sérgio Cabral, com toda sua autoridade. Uma escola sem patrono, sem patrocínio, sem sede, que ensaiava nas ruas do bairro e que nunca havia vencido um carnaval no grupo especial. E estava deslumbrante. Zumbi foi louvado. O grito forte de Palmares se fez ouvir transformando a pista, os camarotes, as arquibancadas, o viaduto, o setor zero em inesquecível kizomba, de “... batuque, canto e dança, frevos e maracatus...” Inúmeros e expressivos artistas e personalidades “da cor” acolheram à convocação. Foi um desfile com tal impacto que a vitória da escola não foi contestada. Mais que reconhecido, foi um resultado desejado. Era o quinto carnaval da era Sambódromo. A pontuação não era quebrada em decimais, variava de ponto a ponto.A apuração foi das mais emocionantes, acompanhada envelope por envelope, só decidida no último. Beija-Flor em terceiro lugar com 222 pontos. Vila Isabel em primeiro com 224 pontos, um a mais que a Mangueira,a vantagem mínima. Uma outra Kizomba, que era a mesma, incendiou o Boulevard. Esta historinha bem poderia terminar aqui e estaria cumprido o desejo de reverenciar Zumbi neste 20 de novembro, certo? Nada disto... Naquele mesmo ano, na mesma segunda-feira, duas escolas depois, já ao amanhecer, vinha lá do começo da pista a voz incomparável de Jamelão. A avenida foi ficando verde e rosa. A partir daquele instante uma pergunta jamais feita antes nos carnavais se faria ouvir: “Será, Trazia com ela outras, muitas outras, tão igualmente incisivas: “Será que a lei Áurea tão sonhada, A velha Mangueira não se intimidaria com o esplendor da Vila Isabel ... nem um pouco. Presidida por Carlos Doria, trazia o enredo “cem anos de liberdade, realidade ou ilusão, do carnavalesco Júlio Matos. O samba de autoria de Álvaro Caetano, o Alvinho, Hélio Turco e Jurandir. Um samba igualmente inesquecível. Neste vigésimo carnaval após esse desfile memorável, na data de comemoração da consciência negra, já agora com o sábio distanciamento do tempo, vale a pergunta: Qual o melhor samba? Qual o mais bonito? Qual deles o mais forte e representativo daquele momento? Não se quer aqui contestar o resultado, a beleza do desfile da Vila e o que ele representou. Nada disto! Compara-se aqui os dois mais belos sambas contando a trajetória de lutas representada pelo Zumbi ora reverenciado. O samba da Vila foi uma consagração nacional, faz parte de quase todas as listas dos 10 mais de cada um de nós. É, portanto, oportuna a data pra destacar o samba da Mangueira, a importância daquele grito de alerta, da denúncia que o samba encerra: mostrar na festa da abolição que o preconceito persiste. O samba da Vila é mais poético, mais lírico, mais étnico; uma grande festa da raça, uma magnífica comemoração. O samba da Mangueira é um samba político, um manifesto da raça, enfatizando a condição atual do negro brasileiro. Questiona a existência de uma liberdade mentirosa e destaca o papel da raça na história brasileira: “... hoje, dentro da (atual) realidade, onde está a liberdade? Em seu momento mais bonito, o samba refere-se a este país, tão farto, tão generoso, tão bonito, tão cheio de perspectiva, toma-o como a imensa aquarela de cores que é e sugere a cada um de nós que perguntemos ao Senhor... “...Pergunte ao Criador E num delírio de carnaval, canta muito alto ... “...Sonhei E mais alto ainda, mais forte ainda, consagra seu quilombo verde e rosa ... “... o negro samba Vinte anos se passaram da Kizomba. Cento e vinte anos da abolição. _ VALEU ZUMBI...
Samba da Mangueira de 1988 Sugestão para ver: www.youtube.com.br Sugestão para ouvir em casa: Samba da Vila de 1988
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