18/2/2008 18:42:00

Artigo: Memórias dos futuros carnavais

Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)

Estranha sensação me acometeu no desfile das campeãs. Nunca havia sentido aquilo antes. Não fosse um compromisso assumido lá no Sambódromo, eu teria ido embora no meio do desfile.

Ficou muito claro pra mim, me veio à luz uma antiga conversa com Sergio Professor, que a avenida do carnaval não é lugar para ganhar o desfile. Ali na Avenida é lugar para as escolas perderem seus carnavais ao desfilar. Ali deixam pelo caminho os pontos, ou décimos, preciosos que as afastam da vitória.
 
As escolas seguem e seus décimos vão ficando pelo caminho, muitos sem que os percebamos, outros “inventados” por julgadores despreparados. O carnaval é ganho durante o ano, em cada momento da preparação do desfile, dentro e fora do barracão.

Antes do carnaval escrevi que bastava “...uma bobeadazinha das demais escolas, mas uma bobeadazinha à toa, para que a Beija-Flor se sagrasse bicampeã...”; aliás, eu e outros colunistas de sites também escreveram isso.

Agora, findo o carnaval, vem a pergunta: Por quê no ano que vem seria diferente? No sábado que tanto me desanimou, ouvi diversas notícias sobre a “dança das cadeiras” nas escolas.

Maior exemplo é a Portela. Tanto tempo depois de resultados pífios, a escola adotou uma estratégia, um planejamento, no sentido de revelar e manter a prata da casa; plantar agora e colher no futuro. Assim foi feito com seu diretor de bateria, com seu cantor, com sua porta-bandeira e seu mestre-sala, com seus novos compositores e novos diretores de harmonia.

O resultado, pelo menos pra mim, veio antes do esperado. Escrevi também antes do carnaval que tudo que a escola precisava era voltar no sábado das campeãs e com isto completar o amadurecimento de sua nova geração de sambistas.

A escola teve um belo resultado; eu diria um quase terceiro, superada que foi nos últimos momentos da apuração pela Grande Rio, ficando com o quarto lugar.

Os portelenses ainda comemoravam quando os sites começavam a noticiar: sai o carnavalesco; sai também a porta-bandeira, também o cantor, falou-se até no diretor de bateria, sem confirmação.

E aí a Grande Rio dispensa seu carnavalesco que tanto contribuiu nos últimos carnavais para elevar a escola às melhores posições do “ranking” da Liesa. Vale lembrar que no outro carnaval a escola superou todas as outras em quesitos, perdendo o carnaval por alguns segundos de atraso.

Sabe-se que a Mocidade perdeu seu casal de mestre-sala e porta-bandeira e o seu carnavalesco, condutor de uma das melhores apresentações da escola dos últimos carnavais.

E aí ficamos sabendo que na Beija-Flor até aquela-moça-simpática-que-toma-conta-do-banheiro-feminino-da-quadra está mantida. Nem os vendedores de cachorro-quente , nem os flanelinhas da rua Pracinha Wallace Paes Leme serão trocados. Serão os mesmos que estão lá há muitos anos.

No sábado eu quis ir embora quando tive a sensação de que no próximo carnaval a Beija-Flor vai entrar na Avenida, vai apertar o botão e deixar sua escola fluir, deslizar e ficar esperando que as demais façam seus desfiles deixando rastro de décimos perdidos.

Aí fiquei pensando, terá sido assim no apogeu da Portela, e do Império, do Salgueiro, da Mangueira e de todas as que tiveram seus momentos de hegemonia.

Cheguei em casa e resolvi perguntar, tirar minhas dúvidas e aflições com D. Historia.

- Alô, é D. História?

- É sim, agora estou ocupada.

- A Senhora não pode falar agora?

- Agora, não. Estou vendo o compacto do desfile.

- Ué! a Senhora não viu o desfile este ano?

- Vi sim, só não vi a Beija-Flor porque fiquei com sono antes de começar e porque já sabia o resultado, mas quero mesmo é rever a Mangueira.

- Aqui há uma dúvida se este é o pior resultado da Mangueira, o que a Senhora acha?

- Claro que foi. Em 1994 com os Doces Bárbaros ela tirou em 11º mas havia 16 escolas. Agora ela tirou em 10º mais havia 12. É ou não é pior? A Mangueira ficou em antepenúltimo, se caíssem 4 ela ia pra poeira.

- Eu também acho que foi o pior.

- Claro que foi, só tenho dúvida se foi pior em 1989 com o Chico RE-CA-REY, lembra? Até aquele ano a escola nunca havia ficado aquém do 4º lugar. Pois naquele ano pela primeira vez não só ficou aquém do 4º lugar como tirou em 11º uma tragédia.

- Pô, a senhora está braba.

- Claro que estou...Eu li aquela sua coluna do “JEQUITIBÁ ENVERGADO”, de janeiro. Ali você pergunta o que seria melhor, do ponto de vista histórico, para a Mangueira e para a história do samba? A escola ter uma vitória retumbante, mostrando sua garra e sua força? Ou uma derrota retumbante, para ninguém mais esquecer o pesadelo?

- A senhora leu isso?

- Li, você tocou o aspecto histórico do problema e aí achei que era comigo.

- Mas a senhora é Mangueira?

- É, Ah ! é,não, quer dizer...$##*&$# , você é que esta dizendo isto, eu não falei nada, vou desligar...

- Não, não...por favor...não quis ser indelicado, mas o que a senhora achou?

- Eu também fiquei em dúvida sobre o que seria melhor. O problema é que a comissão julgadora exagerou, deveria pelo menos ter combinado de forma que um só julgador fuzilasse a escola. Isto não ocorreu, todos ou quase todos fizeram isto, todo mundo resolveu punir a Mangueira e foi como um pelotão de fuzilamento. Encostaram a escola no paredão e fuzilaram.

- E alguém vai conseguir derrubar a Beija-Flor, como é que foi o fim da hegemonia da Portela?

- É. A comparação é boa. A Portela estava quase desfilando hors concours naqueles anos de 1940. Era uma escola tão bem estruturada quanto a Beija-Flor.

- Quem era o Laíla da Portela daqueles tempos ?

- Era o Paulo, o Paulo da Portela. Ou melhor, é o inverso: o Laila é que é o Paulo da Beija-Flor.

- No começo de tudo tinha o Caetano e o Rufino que eram seríssimos, equilibradíssimos e faziam tudo pela escola. E ainda tinha o Paulo que era inigualável, a referência maior de todos os portelenses.

- Mas e depois que o Paulo saiu da Portela, em 1941.

- Ele deixou os alicerces da escola, depois era só apertar o botão que a escola sabia o quê fazer.

- Assim como a Beija-Flor?

- Igualzinho, foi preciso chegar uma força nova. Essa força foi o Império Serrano de 1947. Tinham a sustentação financeira do Sindicato Resistência do Cais do Porto, tinham a força do chão da Serrinha e uma geração formidável de dirigentes: Fuleiro, Mocorongo, o Mano Elói, Molequinho , além de um tal de Irênio Delgado, tremenda raposa que tinha “muito prestígio lá em baixo”, nos bastidores da federação.

- E depois?

- Depois foi o Salgueiro, aquela maravilha...

- Como foi isto?

- Você sabe exatamente o que é “paradigma”

- Sei é um modelo consolidado.

- Não, no universo do samba é muito mais que isto. É um modelo solidamente estabelecido, consolidado; difícil de romper.

- Tá certo.

- Pois é, o Salgueiro da década de 1960 rompeu o paradigma que favorecia as três grandes da então: Portela, Mangueira e Império. O Salgueiro subverteu tudo. As fantasias, as alegorias, com enredos fantasticamente desenvolvidos, magnificamente cantados, trazendo personagens desconhecidos, lembra ?

- Claro que lembro. Pra mim a escola que fez o maior número de sambas inesquecíveis foi o Salgueiro daqueles tempos...

- Concordo, concordo com certeza. Depois, muito depois vieram a Beija-Flor, a Mocidade e Imperatriz, cada uma a seu tempo.

- Mas vai demorar muito, alguém superar a Beija-Flor.

- É difícil eu responder isto porque eu sou a História. A sua vida dura só uma vida. A minha vida é o tempo do próprio tempo. Eu já vi todos os carnavais e vou ver todos os outros carnavais. Este momento do carnaval é apenas pra mim um momento do carnaval, pra você, não!

- Acho que é um momento ruim. As escolas giram em torno de patrocínio. Ninguém conseguiria fazer hoje um enredo sobre Chico Rei, sobre Monteiro Lobato, sobre os bailes do Império, sobre os Sertões, não haveria patrocínio.

- Mas aí é que está. Veja o Salgueiro deste ano. O carnaval do Salgueiro foi baratíssimo. Até onde eu sei não houve patrocínio e nem patrono. E foi aquela maravilha. Tirou em segundo. Puxa, que figurinos...

- A senhora gostou mesmo?

- Claro, isto é mudança de paradigma. Eu às vezes acho que esse menino aí, como é o nome dele ?...

- Paulo Barros ?

- E, esse mesmo, eu às vezes acho que este não está nem aí para o fato se vai ser campeão ou não. E a escola que o contrata, também .

- Por que ?

- Porque o importante pra ele é quebrar o paradigma. Talvez ele seja sacrificado por estar tentando quebrar este paradigma que torna a Beija-Flor imbatível. Este ano ele lnão foi feliz mas foi um ano fundamental para ele achar o ponto certo da calda.

- E qual é o paradigma que fará tal superação?

- É o paradigma da comunicação com o público, da alegria do carnaval e da emoção, sobretudo a força da emoção. A Viradouro e a Tijuca estão tentando. O Salgueiro deste ano...

- Muito interessante, fale mais sobre isto, por favor.

- Veja o que aconteceu com o Salgueiro em 1993. A força comunicativa da escola foi tamanha, foi tanta que, historicamente, mudou o nome do enredo. Antes do carnaval era “Peguei um Ita no Norte”, depois, e até hoje é “Explode Coração”.

- É verdade...

- E me diga, alguém dizia que o Salgueiro era favorito? Seus carros eram maravilhosos, não! Suas fantasias eram fantásticas, não! Houve patrocínio? Não me lembro nem se havia patrono.

- É verdade...

- E a Kizomba, qual foi o orçamento do carnaval de Kizomba? Lembra da Ilha, de 'É hoje'! De 'Domingo'! 'O que será amanhã?'. A questão é que não houve continuidade...O paradigma foi momentaneamente superado, arranhado, mas não foi quebrado, uma pena. E a Vila de 1988 fez um carnaval baratíssimo. Carnaval tem que ser bom, bonito e barato se não for assim é desigual.

- E depois, aconteceu isto de novo?

- Aconteceu com a Tijuca, com esse menino...o ... o ... o ...

- Paulo Barros ..

- É, isto...os primeiros carnavais dele na Tijuca foram de quebrar paradigma. Valeu ali a comunicação, a emoção da hora. E continuou depois que ele saiu. A escola fez um carnaval sobre a fotografia que foi um primor de contágio, de emoção e identificação da arquibancada com os carros, fantasias, com o enredo enfim.

- Mas não ganhou nada.

- Aí é que está o X do problema. O carnaval perde a cada momento desses o bonde da histórial, da mudança, da variedade. Explode Coração, venceu. Kizomba, venceu. Mas Domingo, Amanhã, não venceram. É a ditadura dos quesitos. É a regra do jogo. E se a Tijuca de 2006 vencesse. Se a Tijuca de 2007 vencesse? Quem venceria era o carnaval. É a dialética do carnaval. Um puxa pro barroco, outro pro hi-tec, outra pro lúdico. E todas serão lindas dentro de uma festa que será maravilhosa.

- E qual o papel dos julgadores nisto tudo?

- É fundamental. È horrível dizer isto mas o corpo de jurados é o ponto mais definidor do futuro do carnaval. Pra mim que sou a História, o julgamento é o dia mais importante do carnaval.

- O quê ???

- Claro que é. Todo mundo quer ser campeão. Se o jurado de bateria tirar ponto da bateria que excedeu a cadência daquilo que é samba, no ano seguinte teremos samba de novo. Se a porta bandeira tirar 9.4 porque dançou a dança clássica, no ano seguinte teremos a moça dançando o samba de novo.

- Pode crer !

- Que julgador vai deixar de dar 10 nas alegorias e fantasias da Beija-Flor? Será desonesto se fizer isto. Quem não dará 10 à harmonia, ao conjunto e evolução da Beija-Flor? E o samba, não é lindo, não é antológico, mais e tudo que a escola precisa para tirar 10 em conjunto, evolução, harmonia.

- E como mudar, então ?

- É um processo, a mudança de paradigma anda ao lado da mudança de parâmetros. O carnaval tem que privilegiar a alegria, o humor, o inesperado, sobretudo a emoção, senão as escolas se transformarão no anti-carnaval. A escola campeã não é a que contagia, que faz brincar, que faz exalar o cheiro de lança perfume pelas arquibancadas. A escola campeã tem sido aquela que disciplina, que enquadra, que sargentaliza seus diretores de harmonia, que transforma sambistas em marchadores disciplinados. Eu tenho certeza que vou ver isto mudar; eu sou a história, o tempo pra mim é a essência, o saber da vida, pra você o tempo é a morte; não tenho certeza se você vai ver isto. Hoje, te digo, não há nada mais anti-carnaval no carnaval do que um desfile de escolas de samba submetido às regras atuais de julgamento.

- E mesmo assim, a senhora gosta ?

- Gosto porque não me preocupo com quem vai ganhar, olha que desfile lindo da Mocidade, do Salgueiro, da Lins Imperial. Só quero saber de emoção.

- E o Império ?

- Ah! o Império, nem me fala...tudo o que eu queria é que o Império nunca mais fosse campeão, ou melhor, que ele nunca mais se preocupasse em ganhar.

- Como é que é isso ?

- Porque é por isto que o Império cai. Ele está mais preocupado em competir, em ser igual às outras, e aí ele perde porque descarta sua força mais significativa que é a sua história. O Império tem que ir para a avenida para sambar e fazer todo mundo sambar.

- Como seria o desfile então ?

- Tal como este ano. Tá certo que venceu e ali tinha que vencer mesmo, senão não subia, mas ano que vem acho que o Império tinha que se lixar pro resultado e cair dentro com sua bateria fantástica, com seu canto, iluminando a pista e contagiando o povo com sua emoção. Pode até tirar em 10º. Se não cair e levantar o povo estará ali representando a essência e os fundamentos do samba, e deixará as primeiras colocações para as que fizeram sambas incomunicáveis cantando a história no Afganistão.

- A senhora não gostou da Beija-Flor, então ?

- Quem pode não ter gostado da Beija-Flor, estava linda. Não gostei foi do enredo, nem do da Grande Rio. Os dois enredos vencedores eram enredos enigmáticos. Só quem compreendeu foi a Imprensa, os julgadores e todos que leram detidamente a sinopse. São enredos que não comunicam. A escola fica linda, colorida, majestosa, preenche tecnicamente os quesitos mas a beleza maior do carnaval fica escondida.

- Ah! sei...

- A Beija-Flor é linda, só não pode é ficar este – carnaval – que - só – ganha – quem – tem – patrocínio – e – patrono. Qualquer dia vai ter um enredo sobre “os mistérios de Sibéria” e aí ? eu vou até ver. Os carnavalescos vão dar o jeito deles, carros lindos, cores vibrantes mas e daí ?

- A Senhora está otimista?

- Sempre, sempre, sempre. Isto vai ter que acontecer um dia. Daqui a 5 anos, 10 ou 100 anos, peça a seu pai, seu avô ou bisavô pra me cobrar isto. Como o Laila mesmo disse há uns 3 anos, o desfile está muito chato, lembra?

- Valeu, D. História, valeu mesmo...

- Pra mim também foi ótimo, eu só tenho ficado observando tudo todos esses milênios. É muito bom quando posso falar também, pode ligar sempre. Ah ! mande um beijo pro Renatinho Gari e pra galera do setor zero e do setor 1. E pra Tia Dodô também. Diga a ela que eu me emociono sempre que vejo seus passos largos e firmes à frente da ala das damas. Diga que nunca perdi um só desfile dela desde 1935, aquela estréia dela, com os olhinhos assustados de seus 15 anos, acompanhada de sua mãe. Diga a ela que o carnaval do Rio de Janeiro, o maior carnaval do mundo, só tem uma verdadeira rainha, e que a História sabe quem é...sabe muito bem quem é...

• E-mail para contato (não para comentários) lcciata@hotmail.com

Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval

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'Braguinha' (Mangueira, 84)

'Kizomba' (Vila Isabel, 88)

'Liberdade, liberdade' (Imperatriz, 89)

'Ratos e Urubus'
(Beija-Flor, 89)

'Vira, Virou...a Mocidade chegou' (Mocidade, 90)

'Vou cair na gandaia', (Viradouro, 97)


 



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