08/08/2008 20:04:00

Artigo: O Carnaval e as Olimpíadas

Luis Carlos Magalhães compara o espetáculo feito na cerimônia de abertura das Olimpíadas de Pequim com o carnaval e ressalta o aproveitamento cultural desse tipo de evento a partir da transmissão televisiva

Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)

Assisti apenas a primeira meia hora da abertura das Olimpíadas. Tempo mais que suficiente para ter presente o tempo todo a memória dos desfiles de nossos carnavais que tanto nos mobilizam e encantam. Aquilo que vimos nada mais é que um espetáculo de luzes, sons, cores, música, cenários e coreografia, muita...mas muita coreografia mesmo.

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O que é aquilo senão uma ópera. Uma magnífica e majestosa ópera, em uma palco p’ra lá de gigantesco para dois públicos diferentes: quem estava lá e quem estava em casa, como todos nós. Tal como nosso carnaval, uma ópera. Diferente de nosso carnaval, uma ópera fixa.

Foto: EFE

 

 

 

 

 

 

 

 

Certamente deste fato muitas semelhanças, muitas dificuldades de realização, de comunicação de mensagem e muitas soluções. Nossos carnavalescos devem ter ficado fixados naquilo tudo e em tudo mais que não pude ficar para ver.

Fico imaginando Paulo Barros...

Não consegui evitar a lembrança de experiência que passei anos atrás em relação ao carnaval da Mangueira.

De um dos mais simpáticos e acolhedores bares da cidade, o Goyabeira, no Largo das Neves de Santa Tereza, meu amigo Jajau me liga empolgadíssimo dizendo ter acabado de ler o livro que contava a vida de Dom Obá II.

E fez um breve e empolgante resumo recebendo de mim, do outro lado da linha, a seguinte reação: _ É a cara da Mangueira ! Mesmo sem ter tido à época lido o livro.

E vida que segue...

Anos depois, dois ou três, eis que Jajau me liga de novo com aquela mesma emoção:
_ Adivinha qual é o enredo da Mangueira? Não deu outra.

Assim, acompanhei tudo. No dia da final do samba enredo eu estava lá. Ao ouvir um dos sambas, gostei tanto, achei que os autores pegaram tão bem o “espírito da coisa” que passei a temer que aquele samba não vencesse, o que seria uma pena.

“...o Rio de lá, luxo e riqueza...
 O Rio de cá, lixo e pobreza”.

Acabou vencendo. Samba de Marcelo D’Aguiã, Bizuca, Gilson Bernini.

Saí da quadra e fui lá para fora fazer uma “pesquisa”, constatar algo que me já desanimava tanto: àquela altura, finalíssima do samba enredo, pouquíssima gente tinha idéia de quem era Dom Obá II, já feito e dito "O Príncipe do Povo, Rei dos Esfarrapados" pela sinopse da escola.

Dias depois encontrei com um dirigente da Mangueira. Contei a ele minha lamentação e pude ver que ele mesmo, super envolvido com suas atribuições, pouco sabia sobre o personagem. Falei a ele com tamanha energia, sobre o livro, sobre o passado da família do Obá na África, sua participação na guerra do Paraguai que tudo se passou como se ele tivese sido apresentado a um novo personagem daquele momento.

Enfatizei sua vida e seu reinado naquela região por trás da Central do Brasil, suas relações com o Imperador na Quinta da Boa Vista e, sobretudo, o papel que desempenhava em favor da auto-estima da gente negra, tão pouco tempo depois do fim da escravidão.

Chiquinho ouviu aquilo e perguntou se eu colocava aquilo em um papel: no ato!

Dias depois recebo telefonema da professora Helena Theodoro, voz tão forte da negritude brasileira, me convidando para um encontro em sua casa para falar de Dom Obá. Quando chegou o dia estava lá parte da diretoria da escola, Elmo, Célia Regina, inclusive Leci Brandão.

Dali surgiu um evento aberto no salão social da escola, com presença de várias personalidades da cultura afro-descendente, para discutir e divulgar o tema. Se o povo da Mangueira passou, ou não, a conhecer melhor Dom Obá isso eu não sei. A mangueira tirou em sétimo, aquele desfile não é dos mais lembrados.

E agora vendo a abertura das Olimpíadas me lembro dessa história.

Como lembrei acima, no carnaval são dois públicos diferentes: o que está lá e o que está em casa. Fico pensando em como o desfile poderia ser melhor aproveitado culturalmente para o público que assiste de casa em toda a cidade, no Brasil e, cada vez mais, no mundo todo.

Refiro-me ao desafio maior do carnaval - das escolas e da TV - que é o de transmitir, de mostrar para o público a essência do que está se pretendendo contar e cantar na pista. Quantas pessoas, lá ou em casa, realmente "captaram" que foi o Obá, o que acontece em Coari, o que foi contado sobre Macababa?

E o pessoal que vê em casa? Sem ouvir o samba-libreto de Chico Rei, Chica da Silva e D. Beja a feiticeira de Araxá? Será que "captaram" tão bonitas histórias?

Foto: EFE

 

 

 

 

 

 

 

 

O carnaval acaba "se resumindo" a um espetáculo unicamente visual, de cores e belas fantasias, de menos ou mais belos sambas, de corpos e rostos conhecidos. Esse carnaval que é plenamente satisfatório para muitos carnavalescos, dirigentes, por boa parte do público e para muitos de nós aqui deste lado.

E é aí que entra a abertura dos jogos que assisti. Como seria bom se a televisão levasse o carnaval mais a sério. Muito, muitíssimo mais "a sério" a ponto de serem divulgadas as informações "essenciais" de cada enredo, de forma que todos fossem compreendidos em sua totalidade pelo menos por quem está em casa.

Fico daqui perguntando quantos milhões (ou bilhões) de pessoas hoje ficaram sabendo tanto e de forma tão clara tanta coisa sobre a trajetória de milênios anos de uma nação tão misteriosa e fechada? E pela TV. Certamente quem esteve lá naquele "ninho" não soube tanto. E por que a TV, tal como foi hoje, não pode se dedicar mais e oferecer mais em prol da formação de nossa nacionalidade, na consolidação de nossos valores culturais?

Descrições simples, objetivas, algumas quase lacônicas, apresentaram a tanta gente pela primeira vez a importância e a gênese dos ensinamentos de Confúcio. A construção da monumental muralha, a Ópera de Pequim, os tambores de cobre, a invenção do papel. A Imprensa, a bússola, o Dragão Dourado, tudo de forma tão leve e natural, entrando macio na cabeça de cada um, a despeito de um ou outro “inevitável” comentário de cunho político-ideológico.

Não se quer aqui transformar um desfile em espetáculo tão impressionantemente ensaiado. Nada disso. A questão não é a forma e a característica de cada espetáculo, cada um com sua cara, com sua técnicas. A pergunta que se faz é por que essa abertura pôde ser tão didática e proveitosa em comparação à transmissão tão superficial de nosso carnaval fazendo dele um espetáculo limitadamente visual.

Tremendo desperdício. Tal como aconteceu com Dom Obá, uma história tão bonita contada com tanto esforço e dedicação e com tão pouco proveito cultural. A China se diz o Império do Centro. Orgulhosamente, se consideram o centro do mundo. Nós somos o Império da Alegria. Orgulhosamente, nos consideramos assim. Por que não aproveitar a lição de hoje e mostrar isso tim-tim por tim-tim.

Mais a lição maior que fica é que aquela diversidade étnico-cultural mostrada na abertura só perde em beleza e importância para uma outra coisa: o momento maior em que toda a humanidade entenderá que essa diversidade merece tanto ser respeitada: ela é a maior riqueza da Humanidade.


* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval

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'Vira, Virou...a Mocidade chegou' (Mocidade, 90)

'Vou cair na gandaia', (Viradouro, 97)


 



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