![]() |
|
Artigo: O maneirismo nas escolas de samba Jaime Cezário
Por que isso acontece? Por que a cada ano a crítica especializada e a imprensa questionam mais a criatividade e originalidade dos artistas criadores do carnaval? Nestes primeiros anos do século XXI, a sensação ficou por conta de um carnavalesco dos enredos conceituais, um carnavalesco que trouxe alegorias e alas completamente coreografadas, fazendo dos seus desfiles algo de movimentos rítmicos que acabaram se tornando o diferencial, o que permitia ao público interagir com esses movimentos, na tentativa de copiá-los. A escola de samba se torna uma grande massa humana com movimentos repetidos e marcados pelo ritmo do samba. Mas, passado o carnaval, os comentários se sucedem: os desfiles estão repetitivos! Está faltando criatividade aos carnavalescos! Por que essa nova geração numa era de tantos recursos tecnológicos ainda não enlouqueceu a passarela? Os enredos estão comerciais demais? Por que as imagens não se eternizam mais na memória como as de outrora? Será que isso faz parte do mundo globalizado e da Internet, em que todas as informações são rápidas e não se pode mais perder tempo porque o melhor está por vir? São perguntas que levam a outras: por que não surgiram novos mestres no carnaval? Por que ainda temos de esperar momentos mágicos de genialidade de carnavalescos como Rosa Magalhães, Renato Lage e Max Lopes? Essa não deveria ser a função das novas cabeças pensantes e criadoras do Carnaval? Será que o carnaval se comercializou e se modernizou tanto que esqueceram de guardar uma pitada de tradição misturada à emoção? Ecoa sempre uma frase nos meios: é a adequação dos novos tempos, o carnaval das escolas de samba deixou de ser um desfile para se tornar um mega-espetáculo! Será isso? Modestamente, tenho uma teoria. Estamos vivendo um período “Maneirista”. O Maneirismo foi um estilo das artes que aconteceu entre o Renascimento e o Barroco, período que muitos historiadores classificam como a decadência do Renascimento. A arte vive uma crise devido à morte dos grandes mestres (Leonardo da Vinci, Michelangelo, Rafael etc), e os artistas que tinham a obrigação de sucedê-los não conseguiam criar um estilo próprio. Faziam suas obras amaneiradas, baseadas no estilo de alguns desses gênios renascentistas. Com a saída de cena de mestres como Arlindo Rodrigues, Joãozinho Trinta, Fernando Pinto e Viriato Ferreira e o cansaço criativo de Max Lopes, Renato Lage e Rosa Magalhães, os novos talentos ficaram tímidos na criação por admirarem demais a genialidade dos citados e considerarem que eles já foram capazes de tudo, que nada há por ser feito? Será? Mas talento à nova turma com certeza não falta! O que os impede de nos encantar com suas criações? Algumas dessas jovens promessas foram também prematuramente lançadas na grande vitrine que é a Sapucaí, onde, após viverem a euforia de chegar ao topo do carnaval mundial, perceberam que algumas etapas foram deixadas para trás. Essa “queima de etapas” retardou seu amadurecimento profissional, e a falta de maturidade artística traz a timidez criativa e faz buscar solução em modelos do passado. Como escrevi na primeira coluna, surge neste momento, na contra-mão da história, a figura do carnavalesco conceitual que traz a Broadway, Las Vegas e Hollywood para a passarela do samba, tornando-se a grande coqueluche da mídia. Mas não podemos esquecer que, para que Paulo Barros enveredasse pelo carnaval “conceitual” – e o fez, é bom lembrar, com apoio da Casa de Ciência da UFRJ -, o seu processo criativo foi iniciado no principio da década de 90, atingindo seu amadurecimento agora em 2003. Mas mesmo essa novidade já foi copiada por outros carnavalescos, o que levou Paulo Barros a declarar, sem nenhum constrangimento, que o melhor que foi visto numa escola de samba foi “aspirado” dos seus desfiles. Bom, se até a invenção atual já é copiada, isso não poderia já ser considerada uma crise geral de criatividade? O carnaval e os desfiles das escolas de samba vivem se reinventando. Da embrionária “Deixa Falar” aos mega-desfiles atuais, tudo se transformou. Não há paralelo entre esta época e outras na história. A arte passa por um momento de transição. O Maneirismo antecede ao Barroco; sendo assim, nós, amantes dessa maravilhosa festa, temos de nos encher de esperança e acreditar num futuro melhor, pois estamos então para viver a qualquer momento uma nova reinvenção desta festa e com certeza tornando mais vibrante, rica e emocional.
|
|
|
|||||||||||||||||||||||||||
|