Bruno Filippo
(Colunista do Dia na Folia)
Há um ano, para comemorar o Dia do Radialista, em 25 de setembro, escrevi uma coluna sobre Landell de Moura, o padre brasileiro que antecedeu em alguns anos Guglielmo Marconi nas experiências de radiodifusão. No fim do texto, cobrando o resgate dessa figura fantástica pelas escolas de samba, deixei esta reflexão: “Há de saber se hoje, quando até Cartola é suplantado pelo patrocínio, a quem interessa relembrar um padre-inventor do século XIX.”
Interessou a Porto da Pedra, que em 2009 desfilará com o enredo “Não me proíbam de criar, pois preciso curiar! Sou o país do futuro e tenho muito a inventar”, de Max Lopes. Depois de passar pela criação do universo, pela descoberta do fogo, pela Lenda de Pandora, pelos alquimistas, pelos renascentistas, pela curiosidade sobre o futuro, pelo apocalipse, a escola chegará, no sétimo setor, o dos “Inventores curiosos”, a Santos Dumont, Thomas Edison, Einstain e Landell de Moura. Simbolicamente, é importante que ele esteja ombreado a nomes importantes e reconhecidos.
Nascido em Porto Alegre em 21 de janeiro de 1861, Landell de Moura foi um padre-cientista. Cursou Física e Química na Universidade Gregoriana, em Roma. Conciliou fé e ciência, o que para muitos é difícil ou impossível. Foi ordenado padre em 28 de outubro de 1886, tendo atuado em paróquias do Rio Grande do Sul e de São Paulo.
Também lecionou História Universal no Seminário Episcopal de Porto Alegre. Por melhor sacerdote que tenha sido, por mais que tenha se dedicado como professor, não foi por isso que ele entrou para a história – ainda que pela porta dos fundos.
Pela porta da frente entrou o italiano Guglielmo. Marconi. Em 1895, Marconi utilizou a teoria – comprovada pelo físico alemão Heinrich Hertz - de que as ondas eletromagnéticas poderiam propagar-se pelo espaço para transmitir sinais em código Morse. Realizou inúmeras experiências em radiotransmissão, pelas quais recebeu o Prêmio Nobel de Física, em 1909, e foi considerado o pai do rádio.
É nesse momento histórico que se desenrola uma polêmica semelhante àquela que opõe Santos Dumont aos irmãos americanos Wright pela invenção do avião. Há diversos estudos que mostram que o pioneiro cabe, de fato, a Santos Dumont, embora não haja reconhecimento unânime em relação a isso, sobretudo, claro, nos Estados Unidos, onde se ensina às crianças que a primazia coube aos compatriotas.
Entre 1893 e 1894, Landell de Moura, segundo estudiosos, desenvolveu em São Paulo as primeiras transmissões de telegrafia e telefone sem fio de que se tem notícia, do alto da Av. Paulista para o alto de Sant’Anna, numa distância de oito metros. Seria ele, então, o verdadeiro pai do rádio!
Não foi o caso de dois cérebros privilegiados que tiveram idéias iguais na mesma época. Há uma sutileza que escapa aos neófitos (como eu) em eletrônica: a experiência de Landell de Moura foi superior à de Marconi, posto que este propagara mensagens em código Morse, ao passo que aquele propagara vozes humanas. Três de suas experiências foram patenteadas nos Estados Unidos, incluindo as que utilizavam a foto-eletrônica, que décadas depois possibilitou o surgimento da televisão.
A polêmica que opõe Landell a Marconi não havia àquela época. Está sendo estimulada por historiadores e pesquisadores brasileiros. A vida de Landell de Moura reflete a triste realidade do Brasil, e explica o pouco valor que lhe é atribuído: foi desacreditado pelo governo, teve os equipamentos destruídos por fanáticos que consideravam seus experimentos demoníacos, teve de mudar-se para os Estados Unidos em busca de apoio. Marconi, ao contrário, viveu numa Europa que dava impulso aos inventos científicos e tecnológicos.
Marconi não é um vilão; não há registro de que ele e tenha sabido das experiências de Landell, posto que o Brasil não era país de tradição científica (e lamentavelmente não o é). E – isso é muito importante para a questão – Marconi patenteou sua invenção antes de Landell. Em 2009, ainda que por somente por alguns minutos, o Brasil voltará a se reconciliar com ele, por meio do Porto da Pedra.
* Bruno Filippo é jornalista e coordenador do Instituto do Carnaval