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Artigo: Que há em comum entre o conjunto de rock Scorpions e Herivelto Martins? Bruno Fillipo
Um show na Cidade do México, em 94, quando Herivelto Martins já havia partido, uniu-os, numa prova de que as fronteiras musicais, desprovidas de preconceitos, são sempre tênues. Só os austríacos podem ouvir Mozart? Só os alemães podem apreciar Bach? Os japoneses comentem crime de lesa pátria ao gostar de samba e bossa-nova? Em espanhol, o Scorpions canta “Ave Maria no Morro”, obra-prima da música brasileira composta por Herivelto no início dos anos 40 e originalmente gravada por Dalva de Oliveira em 1942. “Ave Maria no Morro” é, ao mesmo tempo, crônica social da tragédia brasileira e homenagem à religiosidade popular. Mas não é, de forma alguma, uma canção religiosa. É canção popular, com dramaticidade que não escapa aos ouvidos mais ou menos sensíveis – e à época foi considerada herética pelo Cardeal Dom Sebastião Leme. A gravação “Ave Maria no Morro” pelo Scorpions, que se ouve ao fundo, está registrada no CD “Live bites”, que reúne gravações ao vivo de turnês pelo mundo realizadas entre 1988 e 1995. Houve quem a considerasse uma bizarrice. Sob certa ótica, a que não enxerga a música como uma linguagem artística universal, não deixa de ser verdade. Seria bom se, nos shows que fará aqui, o conjunto voltasse a cantá-la, para mostrar aos seus fãs, normalmente avessos a quase tudo que não seja cantado em inglês, a riqueza da música brasileira – e as infinitas possibilidades da arte musical. Como a de João Gilberto, que também gravou “Ave Maria no Morro”. Neste link ( http://www.youtube.com/watch?v=zWtAcTmRJeo&feature=related) é possível ouvi-la comedida, sussurada, minimalista, num contraponto radical à antropofagia do Scorpions. Seria bom se, no show que fará domingo no Theatro Municipal, João Gilberto também a cantasse – e que os sons que viessem dos morros no fim do dia fossem somente a “Ave Maria” e a sinfonia de pardais anunciando o anoitecer.
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