28/10/2008 16:14:00

Artigo: Rescaldo II

Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)

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Acho que nunca ouvi tanto samba em minha vida.

Leva a mal não, das centenas que eu ouvi uma enorme parte é prá lá de "boi com abóbora".

Não sou do tempo da gambiarra e da corda, mas sou da antiga.

Um tempo em que quem gostava do samba e não ia às quadras, ou melhor, aos terreiros, e não ia aos desfiles depois , ficava muito tempo sem conhecer direito os sambas. Não tinha esse negócio de disco todo ano, não. Tinha é que esperar alguma antologia, alguma seleção posterior. 

Hoje, com o trabalho formidável dos sites, temos ao nosso alcance um sem número de sambas concorrentes em cada escola, todos podendo ser ouvidos. Cada etapa da eliminatória acompanhada com finais transmitidas em tempo real, com imagens.

Naquele meu tempo eu só acompanhava as finais, exceto quanto ao Salgueiro, Mangueira e Vila, próximas de minha casa.

Não sei, portanto, naquele tempo, qual a relação qualidade/quantidade. Hoje vemos uma quantidade imensa de sambas que deixamos de lado antes mesmo de chegar ao final. 

Muitos parecem ter a cada frase uma nova melodia; um conjunto de melodias dentro de mesmo samba, tamanha a desarmonia do conjunto da obra. Quantas vezes a harmonia escapa de uma linha do samba para outra.

Entendo o desfile como um cortejo com dança e canto, e a harmonia entre um e outro. Assim a escola evoluirá cantando e dançando harmonicamente, ao som e com a marcação da bateria. Com suas alegorias e fantasias formará o conjunto que contará uma história ou mostrará um tema à platéia que conhecerá nada, pouco ou muito do que a escola deseja mostrar.

O samba-enredo é a mola-mestra do desfile, não há nenhuma novidade nisto; o libreto de uma obra a ser compreendida, curtida, cantada e dançada. 

O samba-enredo já teve sua majestade no carnaval.

Os tempos eram outros. Bastava que fosse ‘uma beleza’. Na mesma medida que sofria pouquíssima influência de terceiros, era muito mais fácil de a escola defini-lo. 

Elton Medeiros, Monarco, esse pessoal mais antigo, do tempo da gambiarra, conta que quem ‘fazia o samba acontecer’ eram as pastoras. O samba que caísse no agrado das pastoras no terreiro... era aquele.

Foi o tempo, certamente, mais tranqüilo de se escolher o samba do desfile. ‘... e não tinha erro’, complementam.

Enxergo a ruptura definitiva no momento em que Fernando Pinto interfere, como carnavalesco, marcando sua inegável importância na história moderna do carnaval, no Império Serrano de 1971.

Ali o jovem e recém chegado pernambucano marcava o início de um ciclo que levaria a escola seu primeiro título, com Carmem Miranda, depois de décadas de fastio, mesmo cantando sambas antológicos, e não vencedores, como Aquarela, Cinco Bailes e Heróis da Liberdade. Ciclo que se encerraria naquela mesma década com o primeiro rebaixamento da escola, em 1978 com o carnaval de Oscarito, dele Fernando Pinto. 

Em 1971 deu-se o encontro de gênios do carnaval. Para ser mais preciso, deu-se o desencontro de gênios do carnaval. A ascensão de um marcaria o ocaso do outro. Ali se dava a alegoria, a metáfora da ascensão da figura do carnavalesco e o enfraquecimento da majestade do samba-enredo.

Nada mais seria como antes.

A escola a partir daí alternaria bons sambas com sambas que considero meramente ‘operacionais’, a serviço do enredo, de beleza muito inferior àqueles dos anos anteriores que tanto marcaram a antologia de nossos carnavais. Tempos de Silas e Mano Décio, só para ficar nos ares da Serrinha.

O melhor, o mais cantado e de maior sucesso, da escola daquele período, aquele que até hoje é cantado nas rodas da cidade, tirou em segundo lugar. Era o samba “Estrela de Madureira”, de 1975, de autoria de Acyr Pimentel e Ubirajara. O samba vencedor era do compositor Avarese; um samba até legal, aquele do ‘baleiro bala’, mas pouco mais que um samba ‘operacional’, pouquíssimo cantado nas rodas. 

Este episódio encerra a questão central desta conversa toda: terá sido esse samba melhor para o desfile da escola, para o enredo da escola, para a harmonia da escola? Ou teria sido o outro? Quem saberá? 

Se tal ruptura é positiva ou não? Se isto é melhor ou pior? Se isto é para ser lamentado ou não, há controvérsias. 

Positiva em função de quê? Melhor em função de quê? Lamentar em função de quê? Da competitividade das escolas, do imperativo da busca do primeiro lugar? 

Ou positiva em função da beleza da obra musical, da arte popular, da cadência, da ‘sacralidade’ da sincopa?  

A intensidade da tal ‘parceria’ (do carnavalesco com o compositor) quando ocorre, dependendo de como ocorre, de sua intensidade, ainda que indiretamente, interfere na liberdade de criação; corre o risco de ‘atravessar’ a inspiração do compositor.

Vejo a ruptura em 1972. Conto isto com detalhes em minha crônica de 20/02/2008, sob o título gozador “Decidido o enredo do Império Serrano”. Está tudo lá.

Fernando Pinto mostrava sua cara p’ra valer com o enredo “Taí Carmem Miranda”. O samba de Silas, que não cheguei a conhecer, foi impiedosa e unanimemente derrotado, sem um único voto. Silas se sentiu humilhado. Entendera o recado: ‘--- perdeu, mané ...

Era o carnaval do mito salvador do Império: Carmem Miranda; o carnaval do fim do mito compositor do Império: Silas de Oliveira.

Coincidência ou não, o gênio dos sambas nunca mais comporia... Suponho até que nenhum outro compositor voltaria a compor sem a ‘assistência’, sem a ‘assessoria técnica’, do carnavalesco em razão da proposta do enredo. Seja essa parceria presente ou presumida.

Ouvi até falar que João Trinta exigia dos compositores a inclusão de determinadas frases previamente por ele definidas.
 
Com Fernando Pinto ou sem ele, com ou sem João, o samba continua sendo um conjunto de melodia, harmonia e poesia. A poesia e a melodia podem até ter alguma beleza, mas se não houver harmonia a melodia enfraquecerá o todo. O samba ficará quebrado. Às vezes tão quebrado que parece ter trechos da letra compostos com um cinzel e uma pequena marreta para que caibam na melodia.

Há outros que parecem ter parte da melodia ‘marreteada’ para que caiba na letra.

Quero dizer que uns aqui, outros ali, pode-se até ter o tal discurso ‘saudosista’ em relação a um ou outro quesito. Mas com relação ao samba ou ao desfile a questão passa longe do sentimento, saudosista ou não, de quem examina. Desfile é desfile e pronto. Samba é samba e pronto. 

Pode se discutir o tipo de tema, o andamento, mas se o samba não tiver boa poesia, boa melodia e harmonia, é um samba incompleto. Poesia e melodia podem até ser objeto de subjetividade, de gosto... podem até... 

Não há controvérsia nenhuma é quanto à harmonização da melodia. O samba tem ou não harmonia em seu todo. Ratinho, que é um craque, deixa dois exemplos de sambas entre seus preferidos, de muito sucesso, mas com falhas na harmonia.

O sambaço da Mangueira de 1988, aquele mesmo que, já disse neste espaço, se rivaliza com Kizomba. Ratinho gosta imensamente do samba, mas entende que naquela passagem para “(...) o negro samba o negro joga capoeira...” o samba falha na harmonia e deixa de ser perfeito.

Outro exemplo é o grande momento de ‘Sonho Sonhado’ da Vila de 1980. Ali segundo Ratinho há uma dos mais belos e poéticos temas, também com dificuldades harmônicas que o tornam difícil de ser cantado e dançado.

Em minha opinião – modestíssima – um samba para ser moderno, seja lá o que for que isto efetivamente signifique, para ser atual, não tem que pecar na harmonia e muito menos sacudir nada.

E aqui entra esta história do tal ‘sacode na avenida’. Isso aí é que me pega. Tenho visto sambas modestos, pobres de harmonia, vencedores porque, supõe-se, ‘sacudirão a avenida’; tanto quanto bons sambas serem preteridos por não terem tal característica. 

Uma coisa é o samba que perde força, ou no meio ou no final ou em qualquer lugar. Ou o samba ser morno, para baixo, incapaz de levantar a escola. Concordo com isto tudo. Começo a achar perigoso quando começa esta história de ‘não ter pegada’.

É a ‘brecha’ por onde entra o tal ‘modelito’.

Mas aí alguém por e-mail me pede para dar exemplos de samba ‘modelito’. Se o da Mangueira é, o da Viradouro? 

A questão não é saber qual o ‘samba-modelito’ e sim saber qual é o ‘samba-não-modelito’. Afirmo isto porque é este que já fica logo de saída com um cartão amarelo de cara. Veja que não estou dizendo que ’leva um cartão amarelo de cara’. Eu disse que ‘já fica com um cartão amarelo de cara’.

Mesmo que fique guardado aguardando o melhor momento para ser aplicado, antes do vermelho..

Pode até não ter acontecido isto no Salgueiro; digo mesmo que pode até não ter acontecido. Mas não encontro outra explicação para o samba ter ficado sem um único voto na final.

Tudo se passa como se ‘um-samba-não-modelito’ não pudesse levar a escola à vitória. Mesmo que esse samba tivesse bela melodia, precisa harmonia, bela letra, fosse empolgante, tivesse de acordo com a concepção do enredo; mesmo que a escola ‘trouxesse’ belíssimas alegorias, fantasias; excelente bateria, magnífica evolução, adequado conjunto.

E volto ao Ratinho para que ele cite um samba da antiga, com trechos belíssimos, de um compositor inatacável, mas que é imperfeito em sua harmonia, tornando o canto, a dança, o desfile enfim, dificílimo. Ratinho se refere ao samba da Portela, do Candeia e Waldir 59, de 1965, do quarto centenário. Acho que tem lá no Portelaweb, dá uma olhadinha... difícil p’ra caramba, Ratinho tem toda razão. Até o nome é grande: ‘Histórias e Tradições do Rio Quatrocentão: Do morro Cara de Cão à Praça Onze’. 

O que eu acho mais curioso é o seguinte: me diz aí, qual foi o samba deste século que deu ‘sacode na avenida’? Se deu,me conta; eu não me lembro. Vou até arriscar mais: não me lembro de nenhum samba ter dado ‘sacode’ no sambódromo. Ou será por causa dele, por suas dimensões, pela distancia do público? 

Sei lá, isto já é outra discussão...

E quem decide isto hoje? Ora quem decide isto é a escola, certo?
Certo. Mas aí vem a pergunta subjacente: o que é, ou quem é a escola? Quem dá o cartão?

O que quero saber é se segmentos ‘hoje secundários’ como a velha-guarda ou baianas decidem algo em desacordo com ’a escola’. Terão alguma voz ativa?

De minha parte acho que não. Imagino que deva pesar muito a palavra do carnavalesco, a adequação da movimentação do samba à cara do enredo; o que está escrito no samba com o que foi concebido em alegorias e fantasias. E é assim desde muito tempo, como já vimos.

Da mesma forma a palavra do diretor de carnaval com a direção da harmonia da escola.

Todas estas são questões técnicas que passaram a ser imperativas. Caberá à escola dar a elas a dimensão adequada. 

Outra coisa são as questões não técnicas, ‘verdades falsas’ que acabam virando ‘verdade’. Falsas verdades que privilegiam ‘sambas-operacionais’, previsíveis, ‘que cumprem o seu papel’ e que acabam por tirar a beleza e o encanto de um dos quesitos mais sedutores, mais esperados, mais festejados para aqueles que vibram tanto com este tal de carnaval.

O pior, pelo menos para mim, é que isto se dá desnecessariamente.

Ratinho, que é do tempo da corda, foi testemunha de sambas inovadores para sua época. Por serem curtos, contrariando os ‘lençóis’ de então, menos ou mais ritmados, sempre sincopados, com soluções riquíssimas, propiciando desfiles com canto e dança, sem causar qualquer reclamação de quem quer que seja: ‘Defensores do Universo’, da Cartolinha de Caxias e ‘Tiradentes’, do Império. 

Enfim, de tudo isto aí em cima nem sei direito o quanto tem a ver com o samba vencedor e com o outro samba finalista do Salgueiro. Estou falando em tese. Citei este samba e a disputa do Salgueiro porque foi ali, e com ele, que esse debate tão importante foi mais uma vez levantado, um debate já em pauta antes mesmo de muitos de vocês terem vestido a primeira fantasia, antes de terem ouvido o primeiro clarim...

A pergunta que ladeia é se há mesmo compositores com bons sambas sendo excluídos pelo modo de escolher? 

Ou será que, tal como vem acontecendo aos jogadores de futebol, a nova geração de sambistas só aprendeu a fazer sambas por este ‘modelito’ que aí está? 

Será que há nas escolas dos grupos menores, onde não há tanta pressão, compositores e escolas ‘interessados’ em sambas m ais melódicos, mais cadenciados, mais dançáveis, mais cantáveis?

Só isto... sem querer mais nada...apenas isto: mais dançáveis, mais cantáveis, mais harmônicos, mais bonitos...só isto...



* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval


* E-mail para o contato: lcciata@hotmail.com

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'Braguinha' (Mangueira, 84)

'Kizomba' (Vila Isabel, 88)

'Liberdade, liberdade' (Imperatriz, 89)

'Ratos e Urubus'
(Beija-Flor, 89)

'Vira, Virou...a Mocidade chegou' (Mocidade, 90)

'Vou cair na gandaia', (Viradouro, 97)


 



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