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Artigo: 'Tia Doca, nosso abraço em todos aí...' Luis Carlos Magalhães analisa a importância da pastora da Portela e relembra passagem curiosa com a sambista Luis Carlos Magalhães
E se enganam muito aqueles que pensam que estou lamentando pela Portela. Não. Se fosse assim o lamento seria infinitamente menor, muito menos abrangente. A Velha Guarda da Portela, de cujas primeiras formações já participava Tia Doca, além de ser um marco, uma página incomparável de nossa história musical, abriu caminho para tantas outras e hoje representa a guardiã maior das tradições da Portela. Cada Velha Guarda de cada escola não guardará saudades. Guardará histórias de tempos gloriosos e difíceis de suas cores; guardará sambas inesquecíveis de seus compositores imortais: um farol que iluminará o futuro abastecido pela energia vinda de suas tradições.
A morte de Tia Doca é muito mais que a morte de uma mulher. Uma mulher apaixonada, personalíssima. A Portela, a cidade, o samba perdem uma grande referência. A referência de sua presença no conjunto musical, na escola e no terreiro de sua cultuadíssima roda de samba entre Oswaldo Cruz e Madureira. A cada perda da Velha Guarda, a cada luz que se apaga uma outra se acende. Uma dolorida e outra ameaçadora. A indústria cultural está ai, voraz, para cumprir seu papel. Para ela não importará nunca a luz que esta se apagando, ela que é a própria luz que ameaça. Para ela o que importa é produto, sua colocação no mercado e o resultado no balanço final. Se a voz que está ali é de Tia Doca ou de qualquer outra isto não tem a menor importância. Cada um tem o seu papel. Tia Doca, seu Argemiro, Casemiro da Cuíca e seu Jair cumpriram o seu. O mercado tem o dele. E com armas avassaladoras. Nós temos o nosso. Não iludidos enfrentando o mercado, mas reafirmado nossa cultura popular, reafirmando nossas tradições. Felizes de nós que tivemos um filme que nos deixou os melhores registros de todos eles. Pelo menos ali Tia Doca estará diante de nossos olhos. Minha melhor lembrança foi no caminho para a Urca para uma feijoada na casa de Marília Barboza, assinada por Tia Surica. Fui buscá-la em Madureira e erramos a direção da Linha Amarela por indicação dela, com o carro acima de capacidade. Uma farra. De Madureira à Barra, da Barra à Urca. Seu presente maior um impecável disco gravado em seu terreiro, música para alegrar as manhãs de domingo de qualquer carioca, pouquíssimo distribuído por aí: coisas do mercado. Sua melhor marca musical foi deixada contrapondo sua voz à voz de Monarco ao cantar ‘Deus te Ouça’ de Paulo da Portela, no disco da Velha Guarda em homenagem a autor do samba: uma maravilha. Vida que segue, Portelenses. Um motivo a mais para estarmos todos juntos dia 30, agora. Estará fazendo 60 anos da morte de Paulo da Portela. Estaremos lá reverenciando e homenageando o Professor em uma bonita exposição, lá na nossa sede. Entre Oswaldo Cruz e Madureira. Valeu, Tia Doca. Assim como contrariaremos Paulo por toda vida, o seu nome, tanto quanto o dele, jamais cairá no esquecimento.
* E-mail para contato: lcciata@hotmail.com
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