08/01/2009 09:41:00

Artigo: Xangô da Mangueira, o velho (e eterno) companheiro

Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)

 

Nenhum Portelense de nossos dias poderá esquecer Clara Nunes.

Nenhum de nós poderá esquecer; seu traje branco, suas guias, rodopiando em torno de sua própria e imensa luz, cantando:

Quando vim de Minas
"Truxe ouro em pó"
Quando vim...
Quando vim de Minas
"Truxe ouro em pó".

Ali uma clara mineira cantava um Xangô que nunca viera de Minas. Velhas Companheiras, Portela e Mangueira, juntas mais uma de tantas vezes, honra e glória do samba brasileiro: A Majestade e o Jacarandá, alicerces de uma cultura e de uma história que fizeram a marca de um povo, marca de todos nós.

Antes, para os poucos que viram, Xangô fez dupla com Clementina de Jesus no Projeto Pixinguinha: novamente Velhas Companheiras. Que coisa maravilhosa que dois dos mais fiéis representantes da ancestralidade do samba tivessem na Portela, em Oswaldo Cruz, a estação da luz que os conduziria à Mangueira. Eles que se tornaram  marca viva da Estação Primeira.

Pobre de nós Portelenses que a perdemos para o Albino Pé Grande, que a levou para lá. Por amor... a gente até aceita...

Pobre de nós Portelenses que o perdemos anos antes ...e não por amor.

Foto: Banco de imagens / Márcio MercanteQuando Paulo ‘fazia chover’ na Praça XI o jovem Olivério seguia-lhe seus passos na busca de seus 16 anos, na busca de seu destino ... de sua história de vida que hoje se encerra. Sua escola Unidos de Rocha Miranda, classificada em 19° naquele ano de 1939, tinha apenas a Estrada do Sapé a separá-lo de Oswaldo Cruz e Madureira.

Como sabemos Paulo se foi um dia, para nossa tristeza hoje; para tristeza dele, infinitamente maior, como nenhum Portelense poderá avaliar com precisão. A cada um, o seu caminho: Paulo para a Lira do Amor, Xangô para a Mangueira conduzido e recomendado pelo próprio Paulo que o apresentou a Cartola.

Um novo e imenso amor que surgia p’ra um, um velho e imenso amor cortado, ferido ... inesquecido até morrer.

Pobre de nós que perdemos Paulo e Xangô nos mesmos dias.

Feliz de você, Velha Companheira, que ganhou de nós duas glórias do samba. 

Que Escola é essa que teve Xangô por diretor de harmonia por mais de cinqüenta anos?

Que Escola é esta que teve Xangô a cantar seus sambas de carnaval para depois passar tão honrada tarefa para um jovem cantor, mais brilhante que ele nesse mister?: Como gostaria de acreditar que Xangô e Jamelão se reecontrarão agora, de alguma forma ...em algum lugar...

Sou eu o diretor de harmonia
Que aviso para entrar a bateria
Sou eu quem manda o mestre-sala
Se apresentar à porta-bandeira Maria
Se estou errado me perdoa
Eu sou o samba em pessoa
Você já pensou
Quando a velhice chegar
E eu não puder mais sambar. 

Estes os versos de  seu parceiro Jorge Zagaia que como nenhum outro tão bem o definem.

E é também de Zagaia, desta vez em parceria com Xangô, o samba que mais me encanta, e com o qual quero ter sempre sua  presença na memória:

Eu encontrei no carnaval que passou
Aquela que foi o meu grande amor
Como estava bela
Fantasiada com as cores da Portela
Eu não pude resistir e chamei por ela
Ela não quis me ouvir
A minha divergência com ela
É que sou Mangueira e ela é Portela.

Mas isto é para mim. Para as futuras gerações de sambistas o mais importante é saber que tal divergência jamais seria capaz de trazer atropelos a seu coração. Muito pelo contrário, seria uma dádiva, uma benção a aplacar tão doce coração. E para tanto ouso entrar nessa parceria, alterando seus versos finais:

A minha grande alegria com ela
È que sou Mangueira e ela é Portela



* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval

Inclua esta matéria no Del.icio.us Inclua esta matéria no Google Inclua esta matéria no Digg Inclua esta matéria no StumbleUpon



Mais notícias...

 MATÉRIAS RELACIONADAS
Memória da Folia: Feliz Ano Novo, Dona História... (31/12/2008 01:00:00)

Memória da Folia: 'Querido Papai Noel...' (24/12/2008 10:11:00)

Luis Carlos Magalhães: Elton Medeiros faz show imperdível na Toca do Rato (05/12/2008 11:55:00)

Memória da Folia: Uma história do Pagode do Trem (01/12/2008 14:49:00)


Escolas de Samba
Enquete

Quem pode ser considerado
o maior intérprete da história da Mocidade Independente
de Padre Miguel?


Ney Vianna
Paulinho Mocidade
Wander Pires
Bruno Ribas


 



Grupos Especial CamarotesGrupo AGrupo B Galerias Foto do Leitor Fale Conosco Notícias, bastidores, fotos e tudo mais relacionado ao maior espetáculo da Terra.
O Dia na Folia: Carnaval o ano inteiro, do Grupo Especial ao Grupo de Acesso E, passando por todos blocos e bandas da cidade. O Dia na Folia é um produto do Dia Online

Todos os direitos reservados