07/11/2007 15:37:00

Artigo: Zé da Velha no lugar do Capitão Nascimento

Após ver 'Tropa de Elite', 'Brasileirinho' e 'Noel Rosa', colunista propõe uma reflexão sobre as diferentes épocas e o cenário social de cada obra

* Luis Carlos Magalhães
(Especial para o Dia na Folia)

Estava difícil continuar vivendo naquela condição de ser o único carioca que não tinha visto ‘Tropa de Elite’. Assim, aproveitei o feriadão para pôr os filmes em dia. Fui assistir um ‘Tropa de Elite’ e acabei assistindo outras duas.

Primeiro foi ‘Noel Rosa, o poeta da Vila’, para abrir os trabalhos.

Quem leu na fonte – João Máximo e Carlos Didier – sabe que a vida do cara pode ter sido curta mas foi intensa e movimentada, repleta de emoções e paixões. O filme passa longe de sua adolescência de molecagens no Colégio São Bento. Foca em sua juventude já acadêmico de medicina até sua morte aos 26 anos. Nos leva ao carnaval dos anos 1930 embalado pelo seu grande primeiro sucesso ‘Com que roupa’. Mostra sua cidade, sua Vila Isabel, o Estácio, o velho Centro e sobretudo a Lapa daqueles anos, como se fosse possível mostrar o que era a Lapa daqueles anos.

E mostra sua tropa de elite. Como é bom, mesmo que de mentirinha, ver na tela do cinema Ismael Silva, Nilton Bastos, Cartola, Wilson Batista, Chico Viola, Aracy de Almeida, Almirante. Tropa de Elite de verdade, elite da boemia, da alegria, da cervejada, das noites intermináveis e canções inesquecíveis.

Mostra também a fábrica de tecidos e sua operária que não atendeu ao grito tão aflito da buzina de seu carro, que na verdade era o carro de Francisco Alves emprestado. Mostra Ceci, a dama do cabaré, sua grande paixão. Foi o primeiro filme que escolhi para assistir: Ô SORTE! Como diz o grande Wilson das Neves que no filme interpreta o motorista Papagaio, grande amigo de Noel.

O segundo round foi o "Tropa de Elite", o tal...

O filme de Noel se passa numa época em que gostaria de ter vivido. O filme do Capitão se passa em uma época na qual tenho medo de viver. O Rio de Janeiro da barbárie e do pânico coletivo. Do filme de Noel saí com a lembrança da Vila que enfeitiçava, dos boêmios que na alta madrugada suplicavam ao sol que ‘pelo amor de Deus não venha agora’ porque com a luz do sol ‘as morenas vão logo embora’.

Do filme do Capitão Nascimento saí com a lembrança de suas palavras perguntando quantas crianças terão que morrer por balas perdidas para que os consumidores se convençam de que financiam a matança. Que a polícia e bandidos vivem em simbiose.

Quase fui pra casa sem ver ‘Brasileirinho’...

Mas voltei para o cinema e vi.  Ô SORTE!!! Salve Wilson das Neves mais uma vez.

O capitão ali era Ronaldo do Bandolin; a tropa – e bota elite nisso
 - era formada por seus dois companheiros do conjunto Madeira Brasil, Marcelo Gonçalves e Zé Paulo Becker, por Zé da Velha e Silvério Pontes, Joel Nascimento, Yamandu Costa, Guiga, além de Zezé Gonzaga, Ademilde Fonseca e Teresa Cristina, sem contar a presença da Rainha, de Jorginho do Pandeiro e tantos outros chorões dessa cidade que, muito antes do samba, e como se não bastasse, inventou o choro, sua alma musical, como disse Villa Lobos.

Uma tropa de elite que me levou a crer, a ter certeza de este país pode dar certo. Tal como aqueles meninos chorões de Cantagalo, sobretudo um deles que tem como objetivo maior da vida ser um dia igual a Zé da Velha.

E o que dizer de Romerito, o menino pré-adolescente do filme anterior, qual serão seus objetivos, suas referências??

A comparação dos filmes me fez ver que a diferença entreo o menino de Cordeiro e o menino daquela favela é a escala de valores de cada um. Um terá seus valores, pelo menos em parte, estabelecidos e formados por uma escala musical, pela emoção incomparável trazida pelos acordes do choro; o outro terá seus valores formados, pelo menos em parte, pelo ruído horripilante de um ‘cão’ de uma ‘glock’ sendo armado. Pelo som estridente de uma ‘12’ sendo preparada para o tiro destruidor.

E imaginar que ensinar o chorinho nas comunidades custa tão barato; formar grupos de canto coral entre meninos das favelas custa menos ainda; ou fazer programas esportivos que custam tão pouco...saber enfim que a arte tem como função maior lapidar almas, torná-las mais bonitas e sensíveis: engrandecidas. Saber, por outro lado, que o maior, ou o único agente empregador das favelas é o comércio e drogas.

 Aí o menino diz que tudo que ele quer ser na vida é igual ao Zé da Velha.

Fui para casa quase sem lembrar do Capitão Nascimento. Não lembrei do ‘saco’ nem do ‘micro-ondas’, dos ‘arregos’ e daquela oficina macabra...não tinha como lembrar. Me lembrei sim, o tempo todo, voltando para casa, da performance maravilhosamente maravilhosa da maravilhosa Elza Soares no começo do filme, cantando ‘Formosa’, pena que Baden não tenha visto. Esta era a rainha a que me referi alguns parágrafos acima.

Não dá pra esquecer, até mesmo pela vida que ela teve, por seu exemplo de mulher, de mãe sofrida e abandonada de favela, do quanto essa mulher precisou para tirar da arte, da musica e do samba a força necessária para subverter seu destino e mostrar a todos nós que esse país pode ser o país das Elzas, dos meninos de Cordeiro, o país de Noel, de Zé da Velha, o país de Darci Ribeiro. O professor Darci que amaria tanto esse filme, ele mesmo que há mais de 20 anos, antes de aquele menino de Cordeiro nascer, ao inaugurar um CIEP, nos advertia que não tínhamos alternativa:

“...ou investimos todo nosso esforço e criatividade numa escola de horário integral com boas aulas, animação cultural, esportes e acompanhamento médico, ou logo logo cairemos na barbárie, no pânico coletivo e teremos medo das crianças...”

Salva o Romerito aí, Darcy...

* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval e advogado




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