Bruno Filippo
(Colunista do Dia na Folia)
Prezada Juliane Almeida,
Peço-lhe licença para tratá-la informalmente. Rigidez e formalismo não combinam muito com carnaval, não é mesmo? Como exigir isso de você, que se acabou de tanto sambar no reino da Viradouro, diante de uma platéia enlouquecida que não parava de saudá-la, de observá-la, de desejá-la e - faz parte, faz parte! - de invejá-la?
As doze rainhas do Grupo Especial atraem muitos holofotes. À medida que o carnaval se aproxima, vocês ficam na mira de fotógrafos, repórteres, cinegrafistas. A imagem não é só a de vocês: é também a da escola. Há algum tempo, publiquei artigo intitulado “A majestade e o samba”, em que chamava a atenção para a permanência de símbolos monárquicos no universo do carnaval.
As rainhas de bateria carregam um naco desses símbolos, que estão no inconsciente coletivo do brasileiro, apesar de a monarquia ter sido abolida há tanto tempo. Se fizerem algo errado, se fizerem algo que não esteja à altura da sua representação, serão criticadas, para não dizer debochadas, achincalhadas – e, por extensão, a sua escola.
Antes de me aclamarem-na rainha, você tinha uma relação com o samba. Desde a madrugada de sábado, você tem outra. Por isso, faça questão de conviver intensamente com os nobres, ouvindo-lhes as histórias construídas ao longo de décadas e décadas de dedicação ao reino.
Hoje é fácil apresentar-se como morador do reino, ter orgulho de a ele pertencer, mas em épocas remotas, quando a pobreza, o preconceito e a falta de perspectiva reinavam (perdoe-me pelo trocadilho), poucos batiam no peito, com orgulho, e diziam-se súditos do reino do samba.
Aproxime-se da velha-guarda da Viradouro, dê àquelas pessoas a oportunidade de retirar do baú coisas incríveis. (A propósito, já assistiu ao filme "O mistério do samba", sobre a mais tradicional linhagem monárquica, a Velha-Guarda da Portela?)
Sua responsabilidade é maior do que supõe a efemeridade do carnaval. Estude a história de sua escola, procure ler tudo o que estiver publicado sobre ela em livros e na imprensa. Mostre aos seus súditos que você não está ali somente para aparecer. Mostre, enfim, que você tem conteúdo – e que não é somente um corpo esculpido em academias de ginástica.
Trate os ritmistas com o respeito e a devoção que eles merecem. Quem é capaz de abdicar de momentos de seu tempo para ficar horas tocando um instrumento sem receber nada em troca – a não ser o prazer de tocar – é muito mais do que um súdito fiel: é um súdito que ama o que faz. Ouça-os; tente, na medida do possível, ajudá-los.
O coração da bateria é também o coração que bate no peito desses anônimos. Esqueça os ensinamentos de Maquiavel, aquele pensador que dizia que é melhor o príncipe ser temido do que amado. Seja amada por todos da escola, como, aliás, sua antecessora, Juliana Paes. Maquiavel nada sabia de – uma parte - do carnaval.
Por fim, o mais importante: ser rainha de bateria não lhe garante vitaliciedade no cargo. De um ano para o outro, você pode voltar à condição de súdita, pode ser esquecida com a rápida e implacável passagem do tempo.
Portanto, viva intensamente este momento. Pode ser único, certamente serão poucos. É um pouco forte, mas é verdade: quem é rainha de bateria perde a majestade. Quando isso acontecer, não fique triste: caia no samba, não desobedeça às ordens de nosso rei-pai, o Momo.
Att,
Bruno Filippo,
P.S – Permita-me uma brincadeira: seu cargo é o único que permite dizer: "A rainha está nua!" sem que isso seja uma ofensa.
* Bruno Filippo é jornalista e coordenador do Instituto do Carnaval da Estácio de Sá