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Cláudio Vieira: 'A Mangueira é tão grande que nem cabe explicação' Jornalista do Dia relembra um desfile inesquecível da verde-e-rosa na década de 70 Cláudio Vieira Falar de Mangueira... Como é difícil homenagear a Mangueira! Quantas histórias fascinantes vêm à tona, colorindo o passado de verde e rosa. Não sei por onde começar. Lembro-me do Carnaval de 1975, na passarela da Presidente Antônio Carlos, minha primeira participação na cobertura jornalística do desfile das Escolas de Samba do então Grupo I. Estreara no ano anterior, na Av. Rio Branco, reportando para os leitores de Última Hora a vitória da União da Ilha (Lendas e Festas das Yabás) e o vice da Unidos de Lucas (Mulata Maior, uma homenagem a Elizeth Cardoso, madrinha da Escola). Este branquelo de 21 anos, cabelos grandes e calça boca-de-sino, apaixonado por samba em vez de rock, acabou chamando a atenção de mestre Waldinar Ranulpho, o Meu Sinhô, um dos bambas de nossa crônica carnavalesca e responsável pela cobertura de UH na Avenida, nas ruas e nos salões. Curioso, fiquei olhando de longe quando ele comentava com outro mestre, José Carlos Rego, mostrando a minha matéria sobre o desfile da Rio Branco: - Zé, o garoto cravou as duas! O prêmio veio no ano seguinte, quando fui promovido ao primeiro time da cobertura do desfile principal. Transbordei de orgulho. O exercício da vaidade, porém, seria colocado de lado numa conversa entre os três, na Concentração, antes da entrada da primeira agremiação. Comandante de toda a equipe (havia mais de dez repórteres espalhados na Avenida) e capitão do time, Meu Sinhô fez a preleção, resumindo-a numa regra básica, que carreguei para o resto da vida: “Escrevam com a razão, esqueçam o coração” – exigiu. Naquela época, o desfile do Grupo I reunia doze Escolas e era realizado em apenas um dia, o Domingo de Carnaval. Caberia a cada um de nós sortear quatro agremiações que deveriam ser acompanhadas de ponta a ponta da Avenida e analisadas em seus mínimos detalhes. Naquela noite de 24 de fevereiro sorteei os papeizinhos contendo os nomes de Em Cima da Hora (Personagens Marcantes dos Carnavais Cariocas), Beija-Flor de Nilópolis (O Grande Decênio), Mocidade Independente(O Mundo Fantástico do Uirapuru) e... Mangueira(Imagens Poéticas de Jorge de Lima)! – detalhe: era o segundo desfile da Beija-Flor no Grupo I, hoje Especial. Tremi na base. Ponderei que seria muita responsabilidade para um novato escrever sobre a Mangueira. Propus a Waldinar uma troca: ele me daria Lucas e eu passaria a Estação Primeira para ele. Acabei levando uma bronca: - Você vai cobrir a Mangueira. E trabalhe bem porque esse povo todo vai comprar o jornal na quarta-feira, querendo saber tudo do desfile – exigiu mais uma vez. Um dos passatempos prediletos do público que lotava as arquibancadas desmontáveis era vibrar quando a polícia agredia jornalistas que ousassem atravessar a pista, cruzando no meio de uma agremiação em desfile. Quando isso acontecia, os PMs babavam de prazer,pois tinham o aval popular para mostrar as suas qualidades. Começava a chover quando a Mangueira iniciou a sua apresentação. À medida que a água descia, as baianas evoluíam com mais garra; os componentes cantavam com mais determinação, enfrentando as adversidades com uma bravura impressionante. Eu me sentia anestesiado, caminhando pela calçadinha da esquerda, tentando guardar tudo na cabeça, pois o bloquinho de anotações já estava todo molhado. Foi quando Delegado e Neide riscaram uma diagonal no asfalto, passando para o lado direito, onde estava a cabine de julgadores. Os dois ensaiavam o prelúdio de uma exibição de gala para a bailarina Tatiana Leskova, que julgava Mestre-sala e Porta-Bandeira, quando o branquelo cabeludo cometeu o pecado mortal: atravessou a pista para ver o show de perto. - Peeeega!!! – quando olhei, os PMs já estavam em cima, cassetete na mão. Fui obrigado a deixar Delegado e Neide para trás. Saí correndo, com os PMs em meu encalço, e fomos parar lá na frente da escola, bem atrás da bateria. Quando o último ritmista do naipe de surdos percebeu o meu drama, passou a bater com mais violência. Gritou para que eu entrasse na bateria e ficasse agachado, enquanto esticava o braço lá atrás, tentando acertar o PM que estava mais à frente. Mas, “na bola”, como manda a boa regra da Avenida. Eu me deslocava de cócoras, apoiado na lata do instrumento, com as costas roçando nas pernas do penúltimo ritmista. Estava apavorado com o que me pudesse acontecer e,ao mesmo tempo, me deliciando ao ver os PMs tentando escapar da vaqueta do negão. Felizmente, alguns metros adiante, meus algozes desistiram. - Agora, sai! – ordenou meu protetor, indicando que eu também estava atrapalhando. Não sabia nem como agradecer, até que o cara me chamou novamente, movimentando a cabeça. Pediu que eu ajeitasse o seu chapéu e, ao olhar no meu peito a logo de UH, advertiu: - Vê lá o que você vai escrever sobre a minha Escola! Nunca soube quem era o negão. Mas, ao homenagear os 80 anos da Mangueira, achei que nada seria mais justo do que dedicar essas linhas a ele. Afinal, ao firmar a batida no couro de seu instrumento, ele salvou o meu, permitindo-me acompanhar de perto 34 anos dessa história gloriosa. Pena que não pude escrever sobre o campeonato da Estação Primeira naquele ano. Ela foi vice, chegando dois pontinhos atrás do Salgueiro (O Segredo das Minas do Rei Salomão, de Joãosinho Trinta). Quando ouço aquela batida seca, firme e única, tenho a sensação de que o tempo parou. Sinto saudades do sorriso maternal de Dona Neuma; da elegância de Delegado; da sabedoria de Xangô; da maestria de Waldomiro; da voz de Jamelão; do talento de Chimbico; do violão do Darcy; dos pastéis de Tia Miúda; do leite-de-onça do Comprido; do idealismo de Elmo José dos Santos, Álvaro Luís Caetano e Chiquinho à frente do Muda, Mangueira!; das cuícas e dos pandeiros; e do amigo a quem não tive a chance de apertar a mão. Valeu, negão! Parabéns, Mangueira!
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