Confira da crítica de Bruno Filippo para o musical 'Eu Sou o Samba'
Colunista do Dia na Folia avalia que a peça 'carece de um texto e de uma produção mais caprichados, condizentes com a grandeza das personagens e de suas músicas'
Bruno Filippo (Colunista do Dia na Folia)
O musical "Eu sou o samba" está aquém da expectativa gerada pela imprensa e, sobretudo, pela excelência dos nomes que estão em sua ficha técnica. De início, a ausência de libreto constitui sério problema para a peça que se propõe a contar cronologicamente a história do samba, dos anos 20 aos 70. Não podia prescindir – como aconteceu na pré-estréia, nesta quarta-feira – de material que fornecesse aos espectadores informações sobre os períodos retratados, sobre os principais cantores e compositores e sobre as canções escolhidas para representá-los.
O som do Teatro Carlos Gomes falhava a todo momento, prejudicando a interpretação e o diálogos dos atores, os músicos, que se postavam na parte inferior do palco, e a sensibilidade do público. Isso pode ser resolvido para o início da temporada; mas algumas falhas talvez não sejam tão simples de corrigir.
A performance vocal dos atores é irregular. As vozes masculinas, em geral, saem-se bem; as femininas deixam a desejar em várias canções, principalmente naquelas em que se exigem técnica e emoção. A coreografia de Carlinhos de Jesus é simples e previsível – mas na medida certa, sem roubar a cena do musical, sem dar-lhe conotação de espetáculo em que a dança está em primeiro plano.
Pesquisar cinco décadas do cancioneiro popular, para dele extrair algumas dezenas de músicas, foi a tarefa difícil, e sempre sujeita a críticas, de João Máximo, responsável pelo roteiro musical. Sempre há quem aponte a ausência desta ou daquela canção preferida, e este colunista não se furtará a isso: “Chega de Saudade”, marco inicial da bossa-nova e de todo debate que se seguiu sobre a música popular brasileira, está inexplicavelmente de fora.
Rosa Magalhães assina os figurinos. Que, se não sobressaem, cumprem com eficiência a função de representar as diversas épocas. Rosa também assina, com Dóris Rollemberg, os cenários, dos quais se depreende que faltou recurso à produção da peça, pois mesmo a criatividade da carnavalesca da Imperatriz não foi capaz de ocultar a pobreza da cenografia – o que afeta diretamente o espetáculo.
Mas o grande problema de “Eu sou o samba” está em sua narrativa. Com pretensões didáticas no inicio, perde-se no fim do primeiro ato, quando o bloco dedicado aos sambas-canções ocupa espaço demasiado, tornando-o cansativo e arrastado, não obstante a beleza das músicas.
O didatismo das primeiras cenas, que enriquece de detalhes históricos as falas das personagens, desaparece e dá lugar a diálogos genéricos, sem ligação com a história, acabando por descontextualizar as cenas seguintes. Exatamente por não deixar claro o que seja samba-canção, houve quem saísse do teatro perguntando por que estavam inseridas músicas românticas num espetáculo de samba!
Alguns momentos seminais da história do samba são muito mal explorados, como a gravação de “Pelo telefone”. Nesta cena, um ator caracteriza grotescamente um bebê que atravessa o palco engatinhando para, depois de duas tentativas frustradas, rodar a manivela do gramofone, que começa a tocar a música. É tão pobre esse recurso cênico para representar o nascimento do gênero em questão que chega a ser constrangedor.
O segundo ato – com duração bem menor do que o primeiro – começa com um erro histórico grave: o embate, que nunca existiu, entre Paulinho da Viola e a bossa-nova. Representando Nara Leão, a atriz, sentada num banquinho, mostrando os joelhos, canta “Só danço samba” de um lado do palco; de outro, um ator, empunhando um cavaquinho, como que respondendo à Nara, entoa “Argumento”, de Paulinho: “Tá legal/Eu aceito o argumento/Mas não me altere o samba tanto assim...”
Ora, “Argumento” não é um resposta à bossa-nova, e Paulinho da Viola nunca foi seu antítese, ao contrário: foi influenciado por ela indiretamente, como quase todos de sua geração, e Nara Leão, no início da carreira de Paulinho, gravou algumas músicas dele.
Assim a bossa-nova, no ano em que completa cinqüenta anos, aparece em “Eu sou o samba” como disfarçada vilã da história, roubando do samba sua autenticidade, sua pureza. Mas não é isso que seus críticos dizem há cinco décadas?
Zicartola foi cenário para a apresentação de vários sambas dos anos 60 e 70; mas também pecou pela falta de clareza e pelo desprezo à cronologia, resultando numa colcha de retalhos sem nexo histórico, confundindo aqueles que não são familiarizados com o assunto. São dignos de nota a pouca ênfase no figura de Clara Nunes, cantora fundamental para o sucesso do samba nos anos 70, e o esquecimento do Cacique de Ramos, movimento cuja sonoridade formatou o padrão atual de samba.
No fim, tendo como cenário uma estética carnavalizada e ao som de “Vai passar”, de Chico Buarque, o elenco representa uma escola de samba, com direito a casal de mestre-sala e porta-bandeira. Ao que se segue um desfecho inconclusivo: todos cantando trechos do hino nacional brasileiro, visando despertar o sentimento patriótico do público, a essa altura cansado das duas horas de espetáculo, antes das palmas finais.
“Eu sou o samba” merece o reconhecimento por levar o samba aos palcos cariocas num momento em que os musicais são o grande filão do teatro. Carece, no entanto, de um texto e de uma produção mais caprichados, condizentes com a grandeza das personagens e de suas músicas. Condizente com o samba.
* Bruno Filippo é jornalista e coordenador do Instituto de Carnaval
Serviço: Teatro Carlos Gomes. Endereço: Praça Tiradentes, 19 - Centro. Horário: quin, sex e sábado às 19h30 e Domingo, às 18h. Duração: 2h. Informações: 2232-8701. Classificação etária: 12 anos. Ingressos: Quinta e Sexta-feira , da fila A até M : R$ R$60. Quinta e Sexta-feira - lugares ao fundo do balcão - R$40. Sábado e Domingo , da fila A até M - R$70. Sábado e Domingo - lugares ao fundo do balcão - R$50. Capacidade: 670 lugares. Classificação etária: 12 anos. Telefones para Grupos: 2544-9355.
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