23/4/2008 03:08:00

Entrevista: 'Jovem da alta sociedade é eleito presidente da Mangueira'

Colunista Bruno Filippo conversa com o ex-presidente da verde-e-rosa Roberto Paulino

Bruno Filippo
(Especial para O Dia na Folia)

Foto: Márcio Mercante / Agência O Dia

Se fosse escrita hoje, a manchete seria considerada uma exemplo da democracia no samba. Mas, há quase cinqüenta anos, causou furor. Roberto Paulino conta, em entrevista, como se tornou presidente da Mangueira aos 24 anos. 

Comente esta entrevista

“A pergunta que, talvez, mais me foi feita ao longo da vida é: ‘Como é que um garoto branco, louro, olhos verde-azuis, criado no Santo Inácio e no Country, bom aluno, tenista, foi parar na presidência de uma escola de samba?’”, escreve o jornalista Roberto Paulino (foto) nas páginas iniciais do livro Do Country Club à Mangueira, lançado há quatro anos pela editora Letra Capital.

Aos 73 anos, Paulino – hoje baluarte e membro do Conselho Superior da Mangueira – começou a ouvir essa pergunta aos 24, quando, ao retornar de uma viagem, um componente da Mangueira lhe disse: “Parabéns, presidente”. Por unanimidade, e sem que ele soubesse, havia sido eleito por aclamação, no dia anterior, presidente da escola de samba que aprendera a amar quando pôs os pés na fábrica de cerâmica da família. Numa época em que, para ser presidente de escola de samba, o candidato tinha de ter uma ligação atávica com a agremiação, Paulino, naquele momento, construiu a ponte que o levou do high society  à convivência com Neuma, Cartola, Xangô, Nelson Sargento, Neide, Delegado, Carlos Cachaça, Jamelão e tantos outros aos quais, com tempo, juntou-se na galeria das grandes personagens que fizeram os oitenta anos da Mangueira.

Em sua gestão, entre 59 e 63, conquistou dois títulos e deixou para a posteridade duas inovações: a criação da ala das baianas e da ala das crianças. Roberto Paulino nunca se afastou da escola e do carnaval. Mesmo quando partiu para construir outra ponte profissional – a que, dessa vez, levou-o ao jornalismo. Profissão que, em duas ocasiões, elevou seu nome: na criação do Estandarte de Ouro, em 72; e como correspondente d’O Estado de São Paulo em Portugal durante a Revolução dos Cravos, em 74.

Em 2005, desfilou na comissão de frente da Mangueira ao lado de outros baluartes. Ali se via a que a alegria do menino do Country Club continuava a mesma. Paulino me recebeu em seu modesto apartamento no Flamengo para esta entrevista:     
 
Não vou fugir à regra: Como é que um garoto branco, louro, olhos verde-azuis, criado no Santo Inácio e no Country, bom aluno, tenista, foi parar na presidência de uma escola de samba?

Roberto Paulino -  Escrevi o livro para responder a essa pergunta. A história é longa, está contada em detalhes no livro. Resumindo, é o seguinte: a família de minha mãe era proprietária da Companhia Brasileira de Cerâmica, que ficava em Mangueira e contava com aproximadamente 450 funcionários. 80% dos operários ou desfilavam ou eram torcedores fanáticos da Estação Primeira de Mangueira. Aos 17 anos, fui trabalhar na fábrica, e comecei a travar contato com os funcionários e com aquele universo que me era completamente estranho. Fui me aproximando à medida que me apaixonava pela escola de samba e por sua gente. Desfilei pela primeira vez em 54, fomos campeões com o enredo Rio, Passado e Presente. Aproximei a Mangueira da Companhia Brasileira de Cerâmica, a escola passou a ensaiar na quadra da fábrica. Em 59, num momento de crise, fui eleito presidente.

Como foi sua eleição?

Roberto Paulino – No carnaval de 59 a Mangueira tinha um bom enredo (Brasil em Três Èpocas – Colônia, Império e República), mas não fez um bom desfile. Ficou em quarto lugar, a pior colocação até então. Sentia que algo não estava bem. Era ano de eleição na escola, que estava dividida. No dia da eleição, três chapas disputaram a presidência, e o pau comeu! Como não pertencia a nenhuma facção política, meu nome foi apontado como candidato de consenso, para tentar contornar uma grave crise que se prenunciava. O detalhe é que ninguém me consultou, estava em Itaipava, no sítio do meu pai, no dia da eleição! Só fui saber que era presidente da Mangueira quando, ao retornar da viagem no dia seguinte, alguém me cumprimentou, dizendo: “Parabéns, presidente.”  Você não imagina o susto que tomei. Resolvi aceitar o desafio. Tinha 24 anos.

No livro o srº conta que a sugestão de seu nome para presidir a escola foi, em verdade, uma estratégia de um dos grupos políticos pela qual você seria presidente apenas de direito, não de fato. Ou seja: esse grupo mandaria na escola.

Roberto Paulino – Era isso que o Beleléu, figura histórica da escola e responsável lançar meu nome como candidato de consenso, queria. Ele tomava conta do pedaço e eu seria uma espécie de Rainha da Inglaterra. Ele se deu mal, muito mal, porque resolvi assumir com a mesma dedicação e com o mesmo respeito com que Neide empunhava a bandeira da escola.

Como seus colegas do Country Club reagiram à sua eleição?  E a família?

Roberto Paulino – Os rapazes da minha idade tinham uma inveja danada de mim. Imagine um jovem branco e da alta sociedade dirigindo uma escola de samba. Isso hoje não causa surpresa, mas na época era algo absolutamente impensável. A família é que foi um problema para aceitar. Eu nunca tive problema com pessoas humildes, do povo. Quando criança, era repreendido por meus pais porque gostava de brincar e conversar com empregadas, com motoristas, com garçons. Por isso, quando assumi a presidência, tive o cuidado de ouvir as pessoas da Mangueira, de não impor a minha visão e as minhas opiniões.

O srº presidiu a Mangueira de 59 a 63, conquistando dois campeonatos, em 60 e em 61. Como era o carnaval naquela época?

Roberto Paulino – Era mais fácil e mais difícil fazer carnaval. Mais fácil porque o desfile não tinha a dimensão que tem hoje. E mais difícil porque, mesmo sendo mais barato, menos grandioso, não havia dinheiro para pôr o carnaval na rua, tínhamos de nos virar. Comparando com a época atual, era mais amador, mais romântico. Tive mais alegrias do que tristezas.

Foi em sua gestão que foram criadas, tais como se conhecem hoje, a ala das crianças e a ala das baianas. Como foi isso?

Roberto Paulino – Naquele desfile de 59 que eu achara ruim, percebi que havia um número pequeno de baianas desfilando, todas dispersas. Comentei isso com Neuma, que me disse que elas estavam desmotivadas e sem a atenção devida da diretoria. Respondi: “Se você tomar conta, vamos fundar a ala das baianas e chamar essas senhoras todas de volta. A escola banca pelo menos o pano”. Neuma topou. Fez uma relação de todas as velhas baianas da escola, às quais enviei uma carta falando da criação da ala e da importância delas para a Mangueira. No primeiro ano,  distribuímos 75 fantasias. Em 62, a ala das baianas desfilou com 200 baianas e foi um dos maiores sucessos daquele carnaval. A ala das crianças foi uma idéia da Neuma, que achou melhor reunir as crianças numa ala específica, pois isso facilitava a autorização do Juizado de Menores, que sempre nos criava muitos problemas. 

No prefácio do livro, Fernando Pamplona insinua que o tipo de encantamento que o srº teve, e que o fez se envolver com a Mangueira, não é mais possível de acontecer no mundo do samba, devido à mercantilização do carnaval. O srº concorda?

Roberto Paulino – Não concordo, não. O envolvimento independe da mercantilização. Há muitas pessoas que hoje se apaixonam verdadeiramente por escolas de samba. Fernando Pamplona acerta, no entanto, quando faz referência ao excesso que se dá aos aspectos econômicos do carnaval, que deixam o sambista em segundo plano. 

A classes média e alta, na historiografia do carnaval, são sempre apontadas como as vilãs das escolas de samba, por terem ocupado espaço que antes eram das pessoas humildes. Como vê essa questão?
 
Roberto Paulino – É um processo que começa nos anos 70; antes não havia, não. Fui uma exceção. È democrático, porque ampliou o leque, deu outra dimensão às escolas. Por que as pessoas de classe média não podem freqüentar escolas de samba? Só não pode mexer nas raízes. Acho que, nesse aspecto, os carnavalescos foram mais nocivos do que a classe média. Eles se consideram os donos das escolas de samba. O grupo que sucedeu ao Fernando Pamplona e ao Arlindo Rodrigues se impôs poder demais, quis alterar até o samba-enredo. Mas isso hoje está começando a mudar.

A Mangueira chega aos oitenta anos num momento em que, infelizmente, as denúncias de ligação da escola com o tráfico de drogas ganhou as páginas policiais. O srº aborda esse problema no livro.

Roberto Paulino – No meu tempo de presidência esse problema não existia! O tráfico de drogas é um problema da cidade do Rio de Janeiro. Para as escolas de samba, quase todas com suas bases nos morros, é uma realidade muito delicada com a qual têm de aprender a conviver. Acho que as escolas têm de estabelecer uma relação de convivência, em que cada lado não se mistura, não de conivência. 

Como jornalista, o srº teve também uma participação importante no carnaval, ao criar, juntamente com Heitor Quartin, o “Estandarte de Ouro”. Como surgiu o prêmio?

Roberto Paulino –  Eu e o Quartin trabalhávamos n’O Globo, e durante uma conversa num bar que ficava embaixo da redação, criticamos o resultado do carnaval de 71. Então tivemos a idéia de criar um prêmio paralelo. O jornal topou – e o prêmio existe até hoje.


*Bruno Filippo é jornalista, sociólogo e coordenador do Instituto do Carnaval 

Inclua esta matéria no Del.icio.us Inclua esta matéria no Google Inclua esta matéria no Digg Inclua esta matéria no StumbleUpon



Mais notícias...

 MATÉRIAS RELACIONADAS
Mangueira celebra os 95 anos de Jamelão com missa nesta segunda-feira (12/5/2008 01:24:00)

Mangueira: Tantinho e Nelson Sargento recebem homenagem na feijoada neste sábado (9/5/2008 23:26:00)

Mangueira adotou idéia de professor de História fã da escola (7/5/2008 20:31:00)

Chininha revela que enredo da Mangueira 'quase foi' sobre o Cirque Du Soleil (1/5/2008 01:53:00)

Memória da Folia: Uma história mangueirense - Retificação (30/4/2008 21:02:00)

03:30 - Carnaval
Mangueira terá final com quatro sambas

03:28 - Carnaval
Imperatriz define sambas finalistas

03:05 - Carnaval
Fábio Costa e David de Souza são tricampeões na Porto da Pedra

16:57 - Carnaval
Samba de Mart'nália é cortado na Vila Isabel

16:30 - Carnaval
Salgueiro: Carlinhos Brown é ovacionado ao cantar samba-enredo histórico


Escolas de Samba
Enquete

Qual escola do Grupo Especial tem o melhor enredo
para o Carnaval 2009?


Vila Isabel
Salgueiro
Mangueira
Portela
Império Serrano
Mocidade
Imperatriz
Porto da Pedra
Viradouro
Grande Rio
Beija-Flor
Unidos da Tijuca


 



Grupos Especial CamarotesGrupo AGrupo B Galerias Foto do Leitor Fale Conosco Notícias, bastidores, fotos e tudo mais relacionado ao maior espetáculo da Terra.
O Dia na Folia: Carnaval o ano inteiro, do Grupo Especial ao Grupo de Acesso E, passando por todos blocos e bandas da cidade. O Dia na Folia é um produto do Dia Online

Todos os direitos reservados