28/11/2008 09:52:00

Folia, tradição e modernidade: O samba-enredo

Jaime Cezário
(Colunista do Dia na Folia)


Daqui a algumas semanas, o CD das escolas de samba chegará às lojas, às rádios, estará na boca do povo, provocará debates, polêmicas apaixonadas. Como todos os anos.

Quais são os requisitos para nascer um grande samba-enredo, daqueles antológicos? É uma pergunta bastante misteriosa, à qual ultimamente nenhuma escola de samba está tendo condição de responder, pois faz tempo que na “Marques de Sapucaí” não desfila um desses sambas que se eternizam em nossas memórias.

Alguém se lembra do último que caiu no gosto popular e do qual todos se lembram facilmente? Eu mesmo estou aqui me esforçando para ver qual foi o último que ficou gravado em minha memória, talvez o “Peguei um Ita no Norte” do Salgueiro ou “Gosto que me enrosco” da Portela.

Já pararam para pensar? Imagine você fazendo parte de uma comissão que tem a responsabilidade de escolher o melhor samba enredo, já imaginou? Quais os critérios você levaria mais em conta? O grande problema de fazer parte desse grupo seleto é deixar o ego de lado, assim como o poder de achar que sabe a fórmula certa para o melhor. Eu, particularmente, já vivi várias vezes esse momento angustiante como carnavalesco, autor de enredo e sinopse, e digo que não é fácil.

Estava pensado se existiria uma determinante para que uma escola tenha um grande samba. A condição primeira é ter um grande enredo. Uma história emocional que vai mexer com o coração do público é sem sombra de dúvidas um bom começo. Mas você que está lendo pode perguntar: como fazer um enredo que tenha emoção, se hoje os enredos estão cada vez mais comerciais?

Bom, realmente é difícil, concordo, mas nesse momento a capacidade do carnavalesco será medida, pois terá que dar seu toque de “Midas” e transformar uma história banal muitas vezes em algo interessante e emocional. Para isso, precisará de uma excelente sinopse, com informação clara, objetiva, mas com pitadas de poesia e lirismo, para que, quando chegar às mãos dos compositores, estes possam viajar numa belíssima letra em conjunto com a melodia. Somente uma sinopse seria o suficiente?

Olha, digo que não. Será preciso que o carnavalesco, nas reuniões de explicação do enredo, faça todos entenderem com clareza a idéia do enredo. O carnavalesco terá que se tornar um grande professor e explicar de forma que todos entendam perfeitamente a mensagem do enredo. Um enredo mal explicado e de sinopse confusa irá gerar sambas de pouca qualidade e vice-versa.

Existe uma cultura nas escolas de samba, que aos poucos está se dissolvendo, que o carnavalesco é quem escolhe o samba. Com todo respeito aos que defendem essa idéia, isso acontece em pouquíssimas escolas de samba. Claro que a opinião do “pai do enredo” é de suma importância, mas daí a dizer que a opinião dele vai prevalecer, é outra. Hoje muitos fatores interferem na escolha dos sambas-enredo no grupo especial, inclusive o fator econômico.

O carnavalesco, nesse momento, se assemelha ao técnico de futebol que sempre é culpado se o time não jogar bem: se o samba escolhido não for o do gosto da maioria, ele foi o grande culpado. Mas, se foi um sucesso, não recairá sobre ele os louros da boa escolha. Acredito que numa comissão julgadora todos devam falar e defender sua parte. Sendo assim, carnavalesco fala sobre letra e enredo; diretor de bateria, sobre o samba que melhor se enquadra com a bateria; o diretor de harmonia, sobre o andamento; e assim sucessivamente.

Eu mesmo já passei por diversas experiências nesse momento de escolha. Lembro-me uma vez de ser interpelado por um grupo de compositores muito bravos comigo, querendo saber qual o motivo de eu ter cortado o samba deles. Nesse ano eu tinha acordado com o presidente que só daria minha opinião na escolha final. Eu acalmei o grupo e lhe expliquei isso. Nos últimos anos, busquei aquilo que considero pra mim a solução que mais se enquadra na minha postura atual como carnavalesco. Quando a competição dos sambas chega ao número de oito finalistas, preparo uma analise de cada letra do samba com visão do enredo, explicando os acertos e erros e a entrego ao presidente e ao diretor de carnaval.

Com relação a este ocorrido, lembro-me do ano de 2005. Estava fazendo o carnaval da Acadêmicos do Cubango no Grupo de acesso A, o enredo falava sobre o Candomblé, tínhamos na final cinco sambas, todos de excelente qualidade, e o presidente fez uma reunião na semana da escolha para cada um dar sua opinião sobre qual samba deveria ganhar.

Na minha vez, deixei bem claro que minha opinião era exclusivamente sobre o samba que estava perfeito ao enredo, mas que não era o que eu mais gostava, pois o que eu mais gostava tinha uma letra incompleta.

O engraçado é que este samba com a melhor letra não era o que fazia a quadra vibrar, e mais tarde soube que também não era o preferido da comunidade. Este samba no dia do desfile criou uma sinergia com a escola que não tem explicação, algo que não tem como descrever, era de arrepiar e, como conseqüência disso, a escola ganhou o estandarte de ouro de melhor samba do grupo daquele ano.

É engraçado observar que não existe receita mágica, muitas vezes temos um samba que deixa a quadra e os ensaios enlouquecidos e, na avenida, no dia do desfile oficial, ele se arrasta e não ajuda a escola a galgar uma grande posição. Há também o contrário: aquele que não faz empolgar a quadra e que, no dia do desfile oficial. traz encantamento aos presentes.

Pensando nisso, reporto-me ao desfile deste ano do grupo especial, em dois nítidos exemplos desse poder energético do samba-enredo, o primeiro foi o emocional, aquele que arrepiou e ajudou a escola a fazer um belíssimo desfile que foi o samba da Imperatriz Leopoldinense que falava das Marias e Joãos de nossa história.

A Imperatriz Leopoldinense não estava rica, mas com a colaboração de um maravilhoso samba arrepiou do inicio ao fim. E o oposto aconteceu com a querida escola do bairro de Noel Rosa, a Vila Isabel, com um enredo que homenageava o trabalhador brasileiro.

A Vila Isabel pisou na Sapucaí, talvez, com o carnaval de maior gasto financeiro de 2008. Estava muito rica em alegorias e fantasias, impressionava pelo luxo. Em contrapartida, a tradicional escola trouxe um samba-enredo dos mais arrastados e difíceis do ano, e essa falta de energia entre samba-enredo, componentes e público presentes gerou um desfile arrastado, bonitos sem dúvida, mas chato de assistir, porque faltava o ingrediente principal do carnaval, que prende a atenção de todos: a emoção. Bom, na apuração vimos que o samba que emocionou ajudou a Imperatriz Leopoldinense a voltar nas campeãs e o samba da riquíssima Vila Isabel não a trouxe de volta ao sábado das campeãs.

Escolher o samba-enredo é uma tarefa das mais difíceis, pois não existe receita para o sucesso. Existem fatores que devem ser sempre levados em consideração por quem vai escolher, como exemplo, uma letra poética que descreve bem o enredo e uma melodia encantadora e emocional. Esses fatores, somados à parte técnica de evolução, numero de linhas do samba, harmonia, andamento e a riqueza dos desenhos rítmicos para a bateria, sem sombra de dúvidas, podem gerar uma escolha acertada.

É bom lembrar que a escolha de um bom samba-enredo já antecipa 50% do sucesso da escola na avenida; uma escolha errada poderá fazer a escola de samba vir “bordada em ouro” e não conquistar o direito de voltar ao sábado das campeãs. É preciso saber juntar razão à emoção na escolha do samba-enredo campeão!


* Jaime Cezário é professor do Instituto do Carnaval, arquiteto, decorador e carnavalesco

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