25/9/2007 03:54:00

Salgueiro retrata um Rio de Janeiro irreverente e colorido em suas fantasias

Escola exibe 38 figurinos alegres e com classe. História será contada com humor pelos carnavalescos Renato Lage e Márcia Lávia

Raphael Azevedo


Foto: Henrique Matos / Divulgação

Rio - Um Rio de Janeiro idealizado e que não perde a alegria. Esse foi o caminho escolhido pelo Salgueiro durante a festa de apresentação de seus protótipos para 2008, na noite desta segunda, na Cidade do Samba. Facilitado pela força do enredo, a vermelho-e-branco conseguiu mostrar com muito humor e requinte as várias fases da Cidade Maravilhosa, desde a chegada dos portugueses até os funkeiros da atualidade.

"Tenho 26 anos de carreira e me sinto jovem com esse enredo sobre o Rio. Procuramos ao máximo mostrar o espírito do carioca de uma maneira leve. Temos uma grande equipe, por isso criamos fantasias que vão deixar a escola bricar na Avenida", analisou o carnavalesco Renato Lage, co-autor do enredo "O Rio de Janeiro continua sendo", ao lado de Márcia Lávia.

Na passarela, a Academia do Samba, como é conhecida, exibiu 38 figurinos que em sua maioria tinham excelente leitura. O evento foi enriquecido pela apresentação idealizada pelo Departamento cultural da agremiação, que preparou uma trilha sonora especial para que as fantasias desfilassem. Nota dez.

Carnaval campeão de 1965 será lembrado

Ao apostar no humor para contar a história da Cidade, o Salgueiro optou também por abusar das cores cítricas sem não esquecer do tradicional vermelho-e-branco. O último setor, por exemplo, que homenageia os carnavais do passado com Arlequins, Pierrôs, Diabos e Bate-bolas, é todo baseado no vermelho e branco. Outro trunfo foi o resgate da fantasia de "Burrinha", eternizada no histórico desfile campeão de 1965, "História do Carnaval Carioca".

O desfile começa com a visão paradisíaca dos portugueses em sua chegada às praias da cidade. Índios tamoios se misturam a navegadores e piratas neste 1º setor. Em seguida, a escola mostrará as transformações com a vinda da Corte para o Rio. Mercadores, nobres, damas e membros da realeza integram o 2º setor: "O Centro embrionário da cidade". Dom João VI será satirizado e terá a tradicional coxa de frango na mão. Um abacaxi também virá no alto do cetro real. Destaque para a fantasia da velha-guarda: "Passeio real".

No 3º setor, o enfoque estará na Praça Mauá com sua religiosidade representada na fantasia "Sacro Barroco" e a riqueza musical da Rádio Nacional, localizada no Edifício A Noite. Para simbolizar a música e a Era de Ouro da MPB, os carnavalescos vão levar para a Avenida uma ala inteira de Reis e Rainhas do Rádio. Os homens terão topete, capa e bigodinho à la Cauby Peixoto. As mulheres lembrarão Emilinha Borba e Dalva de Oliveira e ainda trarão uma espécie de microfone nas mãos.

Passistas serão vedetes do Teatro de Revista

Os patrimônios da cidade como a Escola de Belas-Artes, a Biblioteca Nacional, o Teatro Municipal e a Cinelândia estarão no 4º setor, intitulado: "O Rio de boemia, arte e poesia". Destaque para a beleza da fantasias das passistas, que representarão as vedetes e dançarinas do Teatro de Revista. Garçons com bandejas e chopp e porções de polenta completam o setor.

Já no 5º setor, denominado "A caminho do mar", será mostrada a relação dos cariocas com as praias e a água. Turistas no calcadão de Copacabana, Iemanjá e até o tradicional vendedor de Mate com seus galões ganharam uma homenagem. Bela sacada dos carnavalescos que certamente garantirá a simpatia do público.

Foto: Henrique Matos / Divulgação


Felizes devem ter ficado os ritmistas ao verem sua fantasia, que simbolizará os malandros da Lapa. Mesmo ser ver o figurino correspondente das demais escolas já é possível afirmar que o do Salgueiro será um dos mais leves, confortáveis e práticos do Grupo Especial. As baianas (foto) também foram premiadas e vão representar as araras vermelhas do Rio colonial.

Fantasia de funkeiro destoou das demais

No setor seguinte, a Zona Norte será mostrada com seus meninos soltando pipa, suas quermesses e a força dos cinco grandes times do Rio. Embora possa parecer clichê - mas o enredo pede - levar bolas, escudos e bandeiras para a Sapucaí, o Salgueiro conseguiu carnavalizar os figurinos respectivos ao América, Botafogo, Fluminense, Vasco e Flamengo. Esta última terá até um urubu, símbolo do clube, na cabeça do componente. O único pecado foi a fantasia que simboliza o funk, que destoou das demais ao apresentar um bermudão, casaco com gorro e correntes. Nada a ver com Renato Lage. Apesar disso, é coerente com o enredo.

No fim, o carnavalesco falou sobre a expectativa quanto à escolha do enredo. "Estamos falando na nossa casa e esperamos uma grande aceitação do público. Vamos ajudar a levantar a auto-estima do público", avaliou. Ainda engasgado com o 7º lugar de 2007, ele desabafou: "O resultado deste ano não me desanimou. O carnaval hoje tem muita política e nem um pouco de arte. Mesmo assim, me considero um vinho que fica melhor cada vez que envelhece. Faço parte do cenário do carnaval".

Considerado por muitos um dos gênios do carnaval, Renato Lage provou com os protótipos apresentados que nem só Raul Seixas é uma metamorfose ambulante. Mais uma vez, o carnavalesco renasceu a partir de um novo enredo, e criou uma atmosfera, que agora permite ao salgueirense acreditar que é possível brigar pelo título em 2008.




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