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A fantástica comissão de frente da Mocidade Heróica de Estalingrado * Luis Carlos Magalhães Não há nada que mais me irrite entre os jovens do que a postura de que o mundo só começa a partir do dia em que nasceram. E o pior é que eu também já fui assim... Um dia, ao perceber isto, meu pai me disse: _ "Meu filho, a gente tem que lembrar sempre que 1 milhão de russos, jovens como você, morreram na batalha de Estalingrado". Hoje sei que naquele momento a 2ª Guerra mudava de rumo. Se hoje vivemos o mundo que vivemos, devemos em parte a eles. O que meu pai me ensinou é que somos apenas uma pedra que rola na aventura do tempo. Que todos os jovens do mundo devem reverenciar aqueles e todos os homens que escreveram essa história formidável com suas próprias vidas. Assim é a cultura brasileira; assim é o samba... Em meu programa de blocos de rua, na rádio MEC, a alegria maior era receber blocos formados por jovens. Ficávamos ali discutindo o que, afinal, era “moderno”, era vanguarda. O que é mais “revolucionário”? Um jovem curtindo a música POP internacional, usando roupas iguais tal como tantos outros na América, em Londres, em Munique, em Lima, Cascadura ou Irajá? Ou um jovem bebendo de sua própria fonte, cantando e dançando a música que sua gente produz a partir da sua própria ancestralidade. A indústria cultural moderna, por estratégia de vendas, estabeleceu “gostos”e “comportamentos” globalizados com o objetivo de alcançar, com um único produto, todos os jovens do mundo. Daí minha alegria ao ver aqueles meninos formando blocos, compondo sambas, mostrando com isto que são diferentes, que têm identidade própria. Não são melhores nem mais espertos que nenhum outro jovem. Apenas se orgulham do que são, do lugar onde nasceram e da cultura que os formaram. Têm sua própria cara: “_ Nós somos assim!” Assim são as Velhas-Guardas do Samba. Não quero saber de saudosismo, nem de chororô do tipo "o passado é que era bom". As velhas-guardas fazem e trazem a tradição. Transmitem-nos como era o passado de onde o samba veio e como tudo começou. Não representam o saudosismo, representam, isto sim,a história que nos fortalece para o futuro. Em verdade, assino embaixo das palavras de Tocqueville, pensador francês do século XIX: “QUANDO O PASSADO DEIXA DE ILUMINAR O FUTURO, A HUMANIDADE SE PERDE E MERGULHA NA TREVA” Assino em baixo, repito! Melhor do que Tocqueville disseram Aldir Blanc, Moacir Luz e Luiz Carlos da Villa no samba “Cabô, meu Pai”, que considero ser omais bonito dos últimos anos. Tal como o meu, o pai deles disse que a tradição é como uma lanterna “... que vem do ancestral e é moderna muito mais que o modernoso”. É que quando um povo se nutre de sua própria cultura, de sua própria história, de seus próprios valores fica muito mais forte; não se deixa seduzir por desígnios e interesses puramente de mercado. É o pai da gente dizendo: “... com aquele jeito orgulhoso, que samba é mais que formoso, que ninguém lhe passa a perna...”.É o pai da gente dizendo que “É o nosso coração que governa”. Um povo que traça seu próprio rumo. Tal como a Batalha de Estalingrado, e tantas outras, tal como todos aqueles jovens, caídos, que não podemos esquecer, são os soldados dos tempos heróicos do samba, segregados... excluídos, agredidos, que nos deixaram esta festa, esta forma de brincar o carnaval incomparavelmente singular, que tanto nos orgulha; que mostra ao mundo inteiro “Que nós somos assim”. Salve Paulo, Salve Cartola! Salve Mano Eloi, seu Molequinho, Fuleiro. Salve Calça Larga e Antenor Gargalhada. Salve Natal. Salve Carlos Cachaça, Saturnino. Salve Raul Marques, Paulo Brazão, Seu China, Seu Rufino, Caetano. Salve Claudionor. Salve Ismael, Marçal e Heitor, toda a turma do Estácio e tantos outros sambistas que são as luzes do nosso futuro, do nosso orgulho maior. Por eles que Aldir Blanc, Moacir Luz, Luiz Carlos da Vila e Tocqueville já confirmaram presença. A fantasia é muito simples: Uma roupa branca e uma lanterna na mão... mas a luz tem que ser muito intensa. É a comissão de frente do Grêmio Recreativo Escola de Samba Mocidade Heróica de Estalingrado. Cabô, meu Pai...
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