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Luis Carlos Magalhães analisa os desfiles de Domingo Rio - A gente passa o ano inteiro debatendo rumos do carnaval, tentando desvendar o mistério dos julgamentos. Aqui, agora, no calor, no momento exato em que o desfile ocorre tudo aquilo me vem à cabeça. Nesse sentido, ressurgem trechos marcantes principalmente das posições explicitadas por Hiram Araújo e de Laíla em recente e polêmico debate. O desfile de domingo, as três primeiras escolas a desfilar, servem como excelente painel para que aquelas posições sejam avaliadas. O Império fez um desfile p"ra lá de emocionante. Como primeira a desfilar fez a opção certa na reedição de um enredo com samba forte. Foi enfim aquela escola que mostrou a excelência daquilo que Laíla chamou de "essência": o canto, a dança e o ritmo. Do ponto de vista daquilo que Dr. Hiran chamou de "visual"a escola fez o que pôde. Fantasias sem qualquer indicação de luxo, todas concebidas e executadas com bom gosto. Não havia uma só fantasia feia, não vi uma só fantasia que parecesse estar prestes a despencar, como em outros desfiles da escola. Da mesma forma suas alegorias. Cumpriram sua missão regulamentar de descrever o enredo. E se fizeram isto muito bem, em nada ou quase nada contribuíram para tornar o desfile em "espetáculo" do ponto de vista do televisionamento, muito menos ainda para vender imagens para o público de outros países. Do ponto de vista da porção "samba" do desfile": nota máxima. Do ponto de vista da porção "espetáculo" do desfile, nada mais que sofrível se compararmos com as duas escolas seguintes. E entra a Grande Rio. Uma entrada arrasadora. O abre alas retumbante. Parecia exercer a mesma força que os bailes pós-revolucão, da elite francesa, exerciam sobre o carnaval popular parisiense: demonstração de força e de poder. Mas não era nada disto. A escola simplesmente exercia seu direito de gastar a rodo os recursos ordinários do carnaval e mais os que vieram de sua competência em escolher o enredo e dele gerar patrocínio. E mais, os recursos fartos vindos de seu patronato. Se o samba enredo não foi como o do Império, a escola emocionou por suas grandiosas, ricas e formidáveis alegorias. Se isto não bastasse, trouxe ainda ricas, vistosas e lindíssimas fantasias. A presença dos bailarinas e bailarinos integrantes do Moulin Rouge, a maneira como estes se incorporaram ao espírito de desfile, marcaram com certeza um dos melhores momentos deste carnaval. Tal como o Império, o enredo muito bem desenvolvido. Neste caso destaque para os setores da presença francesa na "belle époque" carioca, tema abordado em várias escolas. A Grande Rio fez isto muito bem. E veio a Vila. Uma entrada igualmente retumbante. Casarões-cabeça de porco demolidos ali,naquele momento do desfile, dando lugar ao Rio Parisiense que chegava com as novas funções da cidade. Novas funções que exigiam um palco a altura dos novos tempos. Ali, no lugar daqueles cortiços seria construído um teatro colossal. O que ninguém podia esperar e imaginar é que o Teatro Municipal pudesse estar sendo construído ali, em tempo real, naquele momento exato do desfile. Uma ousadia absolutamente surpreendente. Mal poderíamos imaginar o que estava por vir. A ópera Aída foi parcialmente encenada em pleno desfile, sem qualquer quebra na evolução da escola, com centenas de figurantes saindo do palco para a pista como coelhos da cartola. Um momento de rara conjunção de beleza-criatividade-ousadia que certamente merece entrar para a galeria dos grandes momentos do carnaval brasileiro. Como vimos, três carnavais com marcas bem diferentes. Do ponto de vista do julgamento, o quê esperar dos julgadores? Como terão sido orientados para o posicionamento diante de tal diversidade? Como contextualizar as posições de Hiran Araújo e Laíla diante disto? O julgador considerará igualmente os três enredos com iguais méritos por seus adequados desenvolvimento? Ou considerará a riqueza ou criatividade de cada um dos elementos ? Como será julgada cada uma das alegorias? Pela sua adequação ao desenvolvimento do enredo, pela excelência de sua concepção ou pela quantidade de recursos para sua criação? Será possível homogeneizar critérios de julgamento de alegorias de tão diferentes concepções ou estaremos comparando laranjas com bananas? Uma alegoria como o Palácio de Versailles ou do Moulin Rouge podem ser comparadas com a construção em pista de um teatro ou de uma encenação de ópera? Da mesma forma como a emoção do carnaval merece reconhecimento, da mesma forma como os fundamentos da porção "samba" do desfile merece ser preservada, me parece estar chegando o dia em que a importância do carnaval estará cada vez mais se deslocando para a cabine dos julgadores; que os dias mais importantes da festa, o domingo e a segunda, perderão em importância para a quarta-feira dos resultados. Disto tudo o que me parece mais certo a necessidade de ´discussão avaliação dos critérios e dos quesitos de julgamento. Estarão eles dando resposta ao momento atual da festa? E olha que nem falei das três outra escolas ... Luis Carlos Magalhães é colunista do Dia da Folia
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