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Luis Carlos Magalhães: Aos portelenses...Axé! Colunista relata a emoção sentida ao assistir o musical sobre o compositor Candeia, em cartaz no CCBB Luis Carlos Magalhães
Aliás, só boas notícias. Cheguei ao teatro bem cedo; enquanto esperava, fiquei ali, quietinho, pensando. Que momento! Começou com aquele quarto lugar; não pela colocação em si, mas por mostrar que o caminho, o rumo está certo. A volta da família Nascimento ( através da Daniele) ... a escola tranqüila. A vigorosa disputa dos sambas, riquíssima, como nos velhos tempos. O filme do Candeia, o filme da Velha Guarda. Monarco esperto de novo e agora o Candeia no Teatro. Muita garotada, na voz, na bateria, na harmonia, na ala de compositores então... Que futuro... E mais: um belo enredo e um belo samba. Será? E eu ali esperando Candeia chegar. Que passado... O espaço cênico era como um T; isso mesmo um T. Uma pequena passarela, mais ou menos quatro metros de largura. Na perpendicular do T o espaço para os músicos, nada mais que isto. A platéia disposta em mesas contornando quase todo o espaço cênico: quase uma arena. A luz é de gambiarras, pouca, como um quintal. ...ou como um terreiro onde um dia houve uma jaqueira. Eu ali, esperando, comecei a imaginar como é que eles conseguiriam contar uma história tão rica, tão densa, tão emocionada em um espaço tão pouco. E imaginei como se fosse eu que tivesse que fazer aquilo.. Como se dissessem para mim: - ó, o pessoal é aquele ali, o espaço é só este mesmo, a luz é esta e os instrumentos estão ali. A vida do cara tem que ser convincentemente contada, aquele imenso repertório tem que ser adequadamente resumido e balanceado pelos diversos momentos de uma vida p’rá lá de movimentada. Ah! E o Candeia é aquele ali (na entrada eu já havia visto o artista que interpretaria Candeia: Jorge Maya). E tem mais, aquela família não é fácil, não. É gente muito séria. A mulher, os filhos, os amigos. A vida de Candeia tem lá suas complicações e vocês vão ter que obter a concordância deles. ‘Se virem’ ... agora é com vocês... Aí fiquei comparando o artista e o personagem: nada a ver. Pô, eles deviam ter escolhido um negão largo, forte; careca, espaçoso, olhar duro... arrogante...soberano. E não era nada disto que eu via naquele Candeia que iria logo,logo entrar em cena. Pior: pelo menos ali fora o ar, o jeitão do ator, do Candeia, era o mais angelical, mais bonachão...sereníssimo, sereníssimo... E entrou... Eu fiquei só olhando... Já no primeiro diálogo da Leonilda (esposa) com a vizinha (Firmina) já deu para ver que ali não tinha nenhum bobo. Em curto período a conversa das vizinhas, temperado com uma ou outra fofoca de Firmina, já nos revelava muito da história daquele casal, o tipo de vida que levava, bem como sinais de um futuro que doeria tanto, de belos e duros momentos. Bem, já podia então começar. Podemos dizer, só para organizar, que a tão criativa narrativa sé dá em três momentos. O Candeia feliz. Menino ainda... dezessete anos, levando sua escola a seu título mais importante entre tantos que obtivera até ali. Acho mesmo que foi aquele o mais importante de sua história. O mais desejado, o mais brigado, o mais convincente... o mais necessário; um carnaval que demorou quase oitocentos dias para chegar.. Como sabemos o Império reinava no carnaval e, pior ... muitíssimo pior ...reinava em Madureira há quatro carnavais; no ano anterior a Portela estava ‘voando’ e a chuva impedira a decisão. Ah! o Império rico, não é Dona Neném ? Mas voltemos ao espetáculo porque essa história aí eu já contei de-ta-lha-da-men-te em minhas crônicas de 23/10 e 01 de novembro, ambos de 2007, é só clicar ali na relação. O clima se passa na casa de Candeia em Jacarepaguá, em torno dos incontáveis pagodes, entre seus incontáveis amigos em meio a muita... muita... mais muita mesmo comida ... Em diálogos e falas curtíssimas, entremeadas por seus inúmeros sambas, partidos e por diversas receitas culinárias, a vida vai passando pela bossa nova, pela ditadura militar, pela formação do ‘Mensageiros do Samba’, pelas glórias da Portela , pela imensa relação com seus amigos e pelo crescimento de seu prestígio pessoal. Inteligente, com boa formação nas escolas públicas de sua época, sob rígido controle familiar, Candeia obtém as primeiras colocações no concurso para a polícia. E aí, é preciso que se diga, neste segundo momento da narrativa o elenco já está com o texto e as cenas nas mãos. E aquele ator outro, lembram? Com carinha de anjo, já não mais estava na arena há muito tempo, Candeia já estava ali, ele mesmo : o cara. A peça muda de clima. Candeia mudou: é ‘cana dura’, ‘ferrabrás’. Não tem "colher" p’ra ninguém. Nem para seus amigos, nem para Neném Ruço, o maior bandido da cidade, hoje patético e prosaico com sua arma tão pouco poderosa. Sofreu na mão de Candeia. E vem acena em que Leonilda sentencia: “a polícia fez tão mal ao Candeia...” Chega a ano de 1965. A peça não conta este pedaço mas eu conto... Candeia reinava na Portela... e em Madureira. Respeitado como sambista, temido como policial. A escola ia para o desfile do quarto centenário com um samba seu e de seu inseparável amigo Waldir 59. Waldir está aí até hoje, o samba é que não está. Não conheço nenhuma gravação. Um samba que não gosto. Eu, menino, estava lá na final do Imperial Bascket Club; a Portelinha ficara pequena e o Portelão não havia nem em sonho. Tempos de Natal... É uma história que vou contar com certeza depois que o carnaval passar. Já vou dando até o título: A PRIMEIRA VEZ QUE VI CANDEIA. Aguardem... A história que a peça conta foi a daquela noite na Sapucaí. É a que chamei a terceira parte: do guerreiro ferido. Não a Sapucaí que conhecemos hoje, do carnaval....Nem se sonhava em fazer desfiles ali. Uma outra Sapucaí; trágica, escura. Candeia comemorava seu triunfo em novo concurso. Deixaria a polícia. Todos comemoravam. Candeia voltaria a ser Candeia... partideiro... amigo...companheiro de si, de seus amigos e de sua família. Voltaria a ser poeta, o poeta de Oswaldo Cruz e Madureira... E foi ali, na Sapucaí que tudo aconteceu: Cinco tiros. Insuficientes para matá-lo, suficientes para mudar definitivamente sua vida. No tablado, a cena muda: do trono de Rei para a cadeira de rodas. Um violão empunhado, em luta, enquanto houver sangue nas veias... A Portela também mudava. Perdia prestígio, saia de seus trilhos aos quais hoje tenta retornar. E vai retornar... Candeia está paraplégico, mas parte p’ra cima. Tenta ... avança, recua. Quando parece desistir, cresce , avança e funda a Quilombo: Com Nei, Paulinho, Elton, Martinho, Wilson Moreira, Monarco e tantos outros bambas. Volta-se com mais força para os fundamentos de sua etnia e se faz dela porta voz. Dela, do samba e das raízes formadoras da cultura do samba ... de sua gente. Candeia não se continha, contrariava médicos, contrariava Leonilda. Ninguém continha Candeia. ‘De qualquer maneira... enquanto houver sangue nas veias’. E aquelas mesmas cinco balas acabariam por levá-lo 13 anos depois. Tudo isto está lá. Como? ... eu não sei. O jeito que deram, também não. Só sei que deram. E é assim que foi contado. A cena final comove: Leonilda o consola e Candeia já delira. Ela sofre muito. A dor de Leonilda expressada na arte de Patrícia Costa é um prêmio a todo o elenco. A todos enfim que deram resposta a minhas aflições iniciais e deixaram este registro para sempre. Para todos os Portelenses...para todo o povo do samba. Não sei avaliar direção, produção nem roteiro. Iluminação, cenários. Isto não é comigo, não. Só sei avaliar emoção. Tudo que sei é que ... “o povo lhe fez imortal”... ______________________________________________________________________ Em Tempo: Para não dizer que gostei de tudo, pude perceber que mais uma vez em musicais faltou o cuidado de se mencionar as fontes de pesquisa. Isto tem se repetido. Algumas vezes fiquei com a sensação de estar lendo algo muito familiar. Como o livro-biografia feito por João Baptista Vargens. Ou entrevistas dada por Candeia ao Pasquim ao Jornal Opinião, e em outro textos. Em outros momentos o texto trouxe informações desconhecidas para mim, como da primeira vez que um samba tirava nota dez. Sabia que era a primeira vez que uma escola alcançava dez em todos os quesitos, nunca soube que ali era o primeiro dez em samba na história. Nunca li isto em nenhum lugar. Considerando ser esta uma inestimável contribuição para o entendimento e compreensão de um artista tão singular, a indicação bibliográfica seria excelente ponto de continuidade para novos estudiosos. Só isto. É SAMBA NA VEIA, É CANDEIA
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