31/10/2008 18:22:00

Luis Carlos Magalhães: Aos portelenses...Axé!

Colunista relata a emoção sentida ao assistir o musical sobre o compositor Candeia, em cartaz no CCBB

Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)



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Aos portelenses...Axé!


Boas notícias. Candeia está esperando vocês lá...

Aliás, só boas notícias.

Cheguei ao teatro bem cedo; enquanto esperava, fiquei ali, quietinho, pensando.

Que momento!

Começou com aquele quarto lugar; não pela colocação em si, mas por mostrar que o caminho, o rumo está certo. A volta da família Nascimento ( através da Daniele) ... a escola tranqüila. A vigorosa disputa dos sambas, riquíssima, como nos velhos tempos.

O filme do Candeia, o filme da Velha Guarda.

Monarco esperto de novo e agora o Candeia no Teatro. Muita garotada, na voz, na bateria, na harmonia, na ala de compositores então...

Que futuro...

E mais: um belo enredo e um belo samba. Será?

E eu ali esperando Candeia chegar.

Que passado...

O espaço cênico era como um T; isso mesmo um T. Uma pequena passarela, mais ou menos quatro metros de largura. Na perpendicular do T o espaço para os músicos, nada mais que isto. A platéia disposta em mesas contornando quase todo o espaço cênico: quase uma arena.

A luz é de gambiarras, pouca, como um quintal. ...ou como um terreiro onde um dia houve uma jaqueira. Eu ali, esperando, comecei a imaginar como é que eles conseguiriam contar uma história tão rica, tão densa, tão emocionada em um espaço tão pouco.

E imaginei como se fosse eu que tivesse que fazer aquilo..

Como se dissessem para mim: - ó, o pessoal é aquele ali, o espaço é só este mesmo, a luz é esta e os instrumentos estão ali. A vida do cara tem que ser convincentemente contada, aquele imenso repertório tem que ser adequadamente resumido e balanceado pelos diversos momentos de uma vida p’rá lá de movimentada.

Ah! E o Candeia é aquele ali (na entrada eu já havia visto o artista que interpretaria Candeia: Jorge Maya).

E tem mais, aquela família não é fácil, não. É gente muito séria. A mulher, os filhos, os amigos. A vida de Candeia tem lá suas complicações e vocês vão ter que obter a concordância deles.

‘Se virem’ ... agora é com vocês...

Aí fiquei comparando o artista e o personagem: nada a ver.

Pô, eles deviam ter escolhido um negão largo, forte; careca, espaçoso, olhar duro... arrogante...soberano.

E não era nada disto que eu via naquele Candeia que iria logo,logo entrar em cena. Pior: pelo menos ali fora o ar, o jeitão do ator, do Candeia, era o mais angelical, mais bonachão...sereníssimo, sereníssimo...

E entrou...

Eu fiquei só olhando...

Já no primeiro diálogo da Leonilda (esposa) com a vizinha (Firmina) já deu para ver que ali não tinha nenhum bobo. Em curto período a conversa das vizinhas, temperado com uma ou outra fofoca de Firmina, já nos revelava muito da história daquele casal, o tipo de vida que levava, bem como sinais de um futuro que doeria tanto, de belos e duros momentos.

Bem, já podia então começar.

Podemos dizer, só para organizar, que a tão criativa narrativa sé dá em três momentos.

O Candeia feliz. Menino ainda... dezessete anos, levando sua escola a seu título mais importante entre tantos que obtivera até ali. Acho mesmo que foi aquele o mais importante de sua história. O mais desejado, o mais brigado, o mais convincente... o mais necessário; um carnaval que demorou quase oitocentos dias para chegar..

Como sabemos o Império reinava no carnaval e, pior ... muitíssimo pior ...reinava em Madureira há quatro carnavais; no ano anterior a Portela estava ‘voando’ e a chuva impedira a decisão.

Ah! o Império rico, não é Dona Neném ?

Mas voltemos ao espetáculo porque essa história aí eu já contei de-ta-lha-da-men-te em minhas crônicas de 23/10 e 01 de novembro, ambos de 2007, é só clicar ali na relação.

O clima se passa na casa de Candeia em Jacarepaguá, em torno dos incontáveis pagodes, entre seus incontáveis amigos em meio a muita... muita... mais muita mesmo comida ...

Em diálogos e falas curtíssimas, entremeadas por seus inúmeros sambas, partidos e por diversas receitas culinárias, a vida vai passando pela bossa nova, pela ditadura militar, pela  formação do ‘Mensageiros do Samba’, pelas glórias da Portela , pela imensa relação com seus amigos e pelo crescimento de seu prestígio pessoal.

Inteligente, com boa formação nas escolas públicas de sua época, sob rígido controle familiar, Candeia obtém as primeiras colocações no concurso para a polícia.

E aí, é preciso que se diga, neste segundo momento da narrativa o elenco já está com o texto e as cenas nas mãos. E aquele ator outro, lembram? Com carinha de anjo, já não mais estava na arena há muito tempo, Candeia já estava ali, ele mesmo : o cara.

A peça muda de clima. Candeia mudou: é ‘cana dura’, ‘ferrabrás’. Não tem "colher" p’ra ninguém. Nem para seus amigos, nem para Neném Ruço, o maior bandido da cidade, hoje patético e prosaico com sua arma tão pouco poderosa. Sofreu na mão de Candeia.

E vem acena em que Leonilda sentencia: “a polícia fez tão mal ao Candeia...”

Chega a ano de 1965. A peça não conta este pedaço mas eu conto...

Candeia reinava na Portela... e em Madureira.

Respeitado como sambista, temido como policial.

A escola ia para o desfile do quarto centenário com um samba seu e de seu inseparável amigo Waldir 59. Waldir está aí até hoje, o samba é que não está. Não conheço nenhuma gravação. Um samba que não gosto.

Eu, menino, estava lá na final do Imperial Bascket Club; a Portelinha  ficara pequena e o Portelão não havia nem em sonho.

Tempos de Natal...

É uma história que  vou contar com certeza depois que o carnaval passar. Já vou dando até o título: A PRIMEIRA VEZ QUE VI CANDEIA. Aguardem...

A história que a peça conta foi a daquela noite na Sapucaí.

É a que chamei a terceira parte: do guerreiro ferido.

Não a Sapucaí que conhecemos hoje, do carnaval....Nem se sonhava em fazer desfiles ali.

Uma outra Sapucaí; trágica, escura.

Candeia comemorava seu triunfo em novo concurso. Deixaria a polícia.

Todos comemoravam. Candeia voltaria a ser Candeia... partideiro... amigo...companheiro de si, de seus amigos e de sua família.

Voltaria a ser poeta, o poeta de Oswaldo Cruz e Madureira...

E foi ali, na Sapucaí que tudo aconteceu: Cinco tiros.

Insuficientes para matá-lo, suficientes para mudar definitivamente sua vida.

No tablado, a cena muda: do trono de Rei para a cadeira de rodas. Um violão empunhado, em luta, enquanto houver sangue nas veias...

A Portela também mudava. Perdia prestígio, saia de seus trilhos aos quais hoje tenta retornar.

E vai retornar...

Candeia está paraplégico, mas parte p’ra cima. Tenta ... avança, recua.

Quando parece desistir, cresce , avança e funda a Quilombo: Com Nei, Paulinho, Elton, Martinho, Wilson Moreira, Monarco e tantos outros bambas.

Volta-se com mais força para os fundamentos de sua etnia e se faz dela porta voz.

Dela, do samba e das raízes formadoras da cultura do samba ... de sua gente.

Candeia não se continha, contrariava médicos, contrariava Leonilda. Ninguém continha Candeia.

‘De qualquer maneira... enquanto houver sangue nas veias’.

E aquelas mesmas cinco balas acabariam por levá-lo 13 anos depois.

Tudo isto está lá.

Como? ... eu não sei. O jeito que deram, também não. Só sei que deram.

E é assim que  foi contado.

A cena final comove: Leonilda o consola e Candeia já delira.

Ela sofre muito.

A dor de Leonilda expressada na arte de Patrícia Costa é um prêmio a todo o elenco. A todos enfim que deram resposta a minhas aflições iniciais e deixaram este registro para sempre.

Para todos os Portelenses...para todo o povo do samba.

Não sei avaliar direção, produção nem roteiro. Iluminação, cenários. Isto não é comigo, não.

Só sei avaliar emoção.

Tudo que sei é que ... “o povo lhe fez imortal”...

______________________________________________________________________

Em Tempo: Para não dizer que gostei de tudo, pude perceber que mais uma vez em musicais faltou o cuidado de se mencionar as fontes de pesquisa. Isto tem se repetido. Algumas vezes fiquei com a sensação de estar lendo algo muito familiar. Como o livro-biografia feito por João Baptista Vargens. Ou entrevistas dada por Candeia ao Pasquim ao Jornal Opinião, e em outro textos. Em outros momentos o texto trouxe informações desconhecidas para mim, como da primeira vez que um samba tirava nota dez. Sabia que era a primeira vez que uma escola alcançava dez em todos os quesitos, nunca soube que ali era o primeiro dez em samba na história. Nunca li isto em nenhum lugar. Considerando ser esta uma inestimável contribuição para o entendimento e compreensão de um artista tão singular, a indicação bibliográfica seria excelente ponto de continuidade para novos estudiosos. Só isto.


SERVIÇO DA PEÇA:

É SAMBA NA VEIA, É CANDEIA
De Eduardo Rieche. Direção: André Paes Leme. Com Jorge Maia, Patrícia Costa e elenco. O público é transportado para quintal de samba no musical sobre o compositor. Teatro III do CCBB. Rua Primeiro de Março 66, Centro (3808-2020). Qua a dom, às 19h30. 105 min. R$ 10. Até 30 de novembro.

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