![]() |
|
Luis Carlos Magalhães critica o musical 'Eu Sou o Samba' Após conferir estréia do espetáculo no Teatro Carlos Gomes, colunista do Dia na Folia faz ressalvas e diz que peça ainda 'precisa ficar madura' Luis Carlos Magalhães
Nosso pessoal aí desse lado tem que ficar esperto. Nada de muito daquilo que a gente gosta muito: Muito samba, muita Portela, muito Salgueiro. Não significa que o espetáculo não deva ser visto. Nem que não vá se ouvir samba, pelo contrário: é samba do princípio ao fim, mas nada de samba enredo. Cartola estava lá, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Manacéia, um belíssimo Candeia, Zé Kéti, além de muitos outros menos ou mais percebíveis pelo público comum. A frase-título foi o que mais gostei. É um monólogo em que o próprioa samba conta a sua própria saga, seu drama, sua volta por cima, louva seus heróis e pede a mim que estava lá e a vocês aí que sigamos em frente, por eles. O enredo mais bonito de todos os carnavais. Com dramatizações diversas para momentos diferentes, com resultados ainda bastante sofríveis, a montagem atravessa o tempo desfilando belíssimos momentos musicais, com resultados ainda bastante sofríveis, desde a “febre “ do maxixe até um período que não defini direito, depois da bossa-nova, tempos dos sucessos de saudosa dupla Wilson Moreira e Nei Lopes. Vai pontuando momentos marcantes como os blocos pré-escolas de samba, a fundação das escolas, com direito a discurso de Paulo da Portela e um bom momento de rememoração da Praça Onze (...berço das nossas batucadas...). O apogeu de Sinhô, a chegada do rádio e a entrada em cena dos Chico Alves e Mario Reis comprando sambas do pessoal do morro. Aí um outro bom e didático momento para os não iniciados. Depois vem a turma do Estácio, aquilo tudo que sabemos. Chega Noel trazendo Aracy de Almeida, outro bom momento de um espetáculo ainda sem ritmo, ainda quase frio. Figurinos e cenários, como sabemos, dependem do orçamento. Pelo jeito não parece ter sido grande. O que se via no palco era apenas o necessário, nada de mais, nada de menos, exceto quanto à cena final que era a “nossa cara”. Parecia a Candelária dos antigos e saudosos carnavais. A coreografia era aquela mesmo planejada e executada, mas com resultados ainda sofríveis. Bom momento da censura da era Vargas, didático, com uma boa presença de Wilson Batista. A política da “boa vizinhança”. A fase da guerra e o fim dos Cassinos e depois dos cabarés deixando o sambista sem saída. A partir daí o musical faz o samba atravessar o túnel, mostra o nosso sambista já transformado em segurança de boite. E tome samba-canção. Muito, mas muito mesmo, acho que até desproporcionalmente. Vem a bossa-nova, mas vem vigiada. Vigiada bem de perto por um cavaco que acompanhava ameaçadoramente um sambista cantando "Argumento" de Paulinho da Viola, momento que considero impróprio do belo roteiro musical, sugerindo que o “Da Viola” tivesse composto o samba com tal objetivo. Depois entra a representação de Elis Regina e Jair Rodrigues em cena muito simples, sem cenário, sem figurino, marcando um momento em que o samba de morro atingia em cheio S.Paulo e todo o Brasil através de um programa – Dois na Bossa- que fazia um sucesso de tal ordem nacionalmente que não tenho a ousadia de tentar descrever para vocês aí. E depois as rodas de samba, Candeia, João Nogueira, Martinho, por aí foi... Trata-se, como vimos, de um roteiro da evolução do samba, em suas variadas formas, ao longo do século passado. Como vocês podem perceber daí desse lado, não saí de lá muito animado. E é verdade. Recomendo esperar um pouco...deixar ficar maduro.
Serviço: * Luis Carlos Magalhães é pesquisador musical
|
|
|
|||||||||||||||||||||||||||
|