26/02/2009 11:16:00

Luis Carlos Magalhães exalta o título do Salgueiro

Colunista, no entanto, mostra-se preocupado com o futuro do Carnaval

Luis Carlos Magalhães
(Colunista)

 

Repito aqui o que disse em meu comentário anterior: A importância de questionamento dos critérios de julgamento no exato momento da apuração das notas.

De minha parte, por tudo que venho defendendo neste espaço, deveria estar muito mais satisfeito do que na verdade estou.

O Salgueiro campeão, nada mais justo. Até pela insistência da escola em seu carnavalesco: muito mais vitorioso fora do que dentro. Bateu na trave bonito no carnaval passado e com um belíssimo carnaval anterior não premiado. Para mim, muito mais por ter ‘inventado’ e tão bem desenvolvido um enredo que só faz provar o quanto ainda há por dizer de nossas coisas.

E por ter vencido a Beija Flor, dando um sabor maior aos próximos carnavais.

Para mim, bom a Beija Flor em segundo porque ameniza o peso de minha consciência
por ter pedido a Papai Noel uma escola que fosse capaz de derrotá-la.

Portela em terceiro ...bem aí já é demais. Um grande resultado, grandíssimo. Quem sabe se “para o ano” ... Quem sabe?

Como Portelense, e contando mais uma vez com a compreensão da Beija Flor e de Selminha, quero dizer que por toda minha vida vou lamentar aquele 9.8 da jurada Beatriz Badejo para Daniele Nascimento. E aqui não estou contestado nada, já que não estava por perto.

Bastaria um décimo a mais para que ela, com um peso de responsabilidade que só ela sabe, coroasse a história de amor de sua família - família Nascimento - para com a Portela. Com este décimo sua escola empataria com a Beija Flor, cabendo a ela o desempate que levaria sua escola a um resultado ainda mais importante, um presente ainda mais bonito para seu pai.

Como carioca que vê, a cada ano, as escolas da periferia crescendo, Vila em quarto e Mangueira em sexto significam o melhor resultado conjunto de escolas da cidade: quatro escolas cariocas no desfile das campeãs. E achava que ia demorar muito a acontecer isto, tal o rumo dos acontecimentos.

O “quê” então está faltando...porque ando tão desanimado?

A impressão que tenho é que estou enganando a mim mesmo e aos leitores. Cada vez acho mais que não conheço “o exato significado de cada quesito a ser julgado”.

Fico a imaginar que o Dr. Hiram Araújo tem muito mais razão do que eu e até mesmo ele podemos imaginar. Ou seja, o visual do carnaval além de predominar tem o avassalador poder de “contaminar”outros quesitos não visuais.

Fico com mais dúvidas ainda quando a questão é saber o “quê” exatamente é privilegiado por um julgador em cada quesito, digamos, visual.

Quando o Império Serrano faz um desfile tão bonito e emocionante; quando a escola tem seu enredo tão didaticamente desenvolvido; quando suas fantasias são absolutamente correspondentes e demonstrativas do enredo, que peso terá isto em seu favor?

Ou será que cada alegoria tem que obrigatoriamente participar de uma “corrida de preço”para demonstrar o quanto a escola gastou? Será que a fantasia tem mesmo que ser confeccionada com os tecidos os mais caros possíveis? Será enfim que a nota de cada alegoria, de cada fantasia tem como único critério de avaliação o valor desembolsado?

Será que nada se salvou, que todas as alegoria e fantasias do Império só mereciam mesmo o desprezo dos julgadores e levar as notas mínimas? Será que tal critério é tão forte e paradigmático que contamina e impõe o mesmo destino – o do lixo – àqueles quesitos que nada têm a ver com luxo e com o visual?

Que razões terão levado o Império a perder tantos pontos em ‘evolução’, mesmo tendo cantado e dançado tanto? A perder tão importantes pontos em harmonia? Será que é possível ir tão mal mesmo tendo uma bateria reconhecidamente – pela própria comissão – espetacular e embalada por um samba igualmente reconhecido como superior?

Ou será que me emocionei sem motivos e na verdade não passo de um bobalhão? A escola só superou uma em evolução e duas em harmonia.

Para que não digam que sempre acabo defendendo as escolas mais tradicionais, vamos dar um pulinho na colocação da Mangueira e tentar captar aquilo que pretendo demonstrar.

Quando a verde e rosa desfilou naquelas condições, eu e meus companheiros de transmissão ficamos muito preocupados. Declaramos mesmo, no ar, o quanto íamos torcer para que a tão querida escola conseguisse máximas pontuações nos quesitos não atingidos por suas alegorias inconclusas, cujos pedaços ficavam pela pista, e pelas fantasias que iam deixando partes pelo caminho. Afinal, naquele momento, chegava a notícia de que nem a fantasia de seu carnavalesco estava pronta.

Entendíamos que os quesitos ‘enredo’, ‘harmonia’, ‘samba’, ‘evolução’, ‘comissão de frente e ‘mestre-sala e porta-bandeira’ salvariam a escola de um resultado catastrófico.

Pelo mapa da apuração podemos perceber que nos preocupamos por nada. Como é que podíamos imaginar que um julgador daria 9.9 ao quesito ‘alegoria’. Que um outro daria 10 em ‘fantasia’, outro daria 9.9. Que mesmo com tanta alegoria inconclusa e danificada, com fantasias parcialmente desmanchadas, um julgador deu 10 em conjunto e outro 9.9.

Ou eu não sei exatamente o que são estes três quesitos ou muita coisa está errada.

A escola perderia décimos preciosos em’bateria’ (0.2), em harmonia (0.1), em evolução (0.4) e comissão de frente (0.2). Nota máxima mesmo veio em ‘enredo’ e para o casal que repetiu a nota do desfile anterior. Se soubéssemos que seria assim teríamos ainda ficado muito mais preocupados. Por outro lado, se esses pontos não tivessem sido perdidos e a Mangueira viesse até na na frente da Grande Rio, estaria tudo certo, estaríamos comemorando muito.

Só que a coisa não se deu bem assim.

Se considerarmos que no quesito ‘alegoria’ a escola superou o Império, a Mocidade e a Tijuca que desfilaram prontas; se considerarmos que no quesito ‘fantasia’ a escola superou a Mocidade, Tijuca, a Porto da Pedra e a Viradouro que desfilaram prontas, não consigo afastar a sensação de que há algo errado com os critérios de julgamento.

Para deixar mais claro ainda, para focar mais o espanto, convém destacar, localizar o foco na Imperatriz Leopoldinense, escola inconteste no cuidado que tem nesses quesitos: em ‘alegoria’ a Mangueira teve apenas quatro décimos a menos que a tão caprichosa Imperatriz; no quesito ‘fantasia’ a Mangueira teve um único décimo a menos.

Por tudo isto me pego desanimado. Não porque considere que haja desonestidade ou protecionismo, não acho mesmo que seja o caso. Penso mesmo que a questão reside na  imprecisão de conceitos, na falta de entendimento do julgador ou, pior, na minha ignorância quanto à compreensão dos quesitos.

Ou o jurado não viu, ou viu e não puniu ou, pior, viu e achou que não era para punir.

Quanto ao fato de a Lesga ter decidido que nenhuma escola cairá, ter decidido isto “depois do resultado”, só tenho uma coisa a dizer: não acredito, embora tal fato venha a testemunhar a lisura do julgamento e a confirmação do trabalho de Haroldo Costa e Maria Augusta.

Não posso entender que iniciativa tão importante para o desenvolvimento das escolas,já em seu primeiro carnaval,a entidade cometa suicídio perante a opinião pública e com o povo do samba.

Com tal atitude deixa no ar a pergunta: o que vem por aí? Ou melhor: o que será o amanhã?

Com esta frase, e já com saudades do cachorrinho, saúdo o retorno da Ilha. Fico imaginando seus méritos para derrotar concorrentes com tão importantes desfiles.

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'Kizomba' (Vila Isabel, 88)

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'Ratos e Urubus'
(Beija-Flor, 89)

'Vira, Virou...a Mocidade chegou' (Mocidade, 90)

'Vou cair na gandaia', (Viradouro, 97)


 



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