02/03/2009 11:07:00

Luis Carlos Magalhães volta do desfile das Campeãs já pensando no carnaval de 2010

Luis Carlos Magalhães
(Colunista)

 

Uma grande noite.

Salgueiro arrepiou e confirmou a justiça do resultado.

Mas que carnaval é esse em que, mesmo reconhecendo a justiça do resultado, você volta para casa se perguntando: por que a Vila não foi campeã?

E a Beija-Flor passa e você faz a mesma pergunta.

Que carnaval é esse que dá esse show e, ainda assim, é tão contestado ao longo do ano?

Todos sabemos, estamos cansados de saber, que a noite dos campeões é um desfile completamente diferente. Uma noite que se reveste de energias outras que no desfile oficial passam longe.

Dentre estas energias podemos destacar aquela que tem a ver diretamente com o comportamento dos sambistas.

Como também sabemos, e estamos também cansados de saber, o desfile alcançou tal nível de profissionalismo, tal nível de competitividade, que não chega a ser exagero afirmar que os componentes assumem muitas vezes muito mais a condição de soldado a serviço de um resultado do que propriamente de folião.

Ali no sábado, não! Dá gosto ver tanta farra, tanta alegria além de tudo aquilo que vemos no desfile. Só que agora muito mais leve, muito mais solto. A descontração impera. Parece que os sambistas vão à forra e desfilam a sorrisos abertos e sambando muito.

Todos nós sabemos, e ‘carecas de saber’, que muita coisa que acontece ali seria punida no dia ‘pra valer’, e que não podia mesmo ser diferente em razão do espetáculo e da própria competição.

Já ouvi Laíla dizer que o carnaval estava chato, não faz muito tempo. Já ouvi Milton Cunha pedir “uma segurada no visual”, outro dia mesmo. Mesmo dia em que Arlindo Cruz pedia que “se brincasse o carnaval”. Tá certo que o grande Luiz Fernando Veríssimo não seja uma referência de carnaval, é verdade. Mas é verdade também que uma cabeça tão apetrechada não deva ser totalmente ignorada. Veríssimo já não chama escolas de samba de escolas de samba, chama de escolas de marcha, por razões óbvias.

Ao ler os jornais deste primeiro domingo pós campeãs, vejo o carnavalesco campeão do carnaval, Renato Lage, fazer referências boas ou preocupantes sobre os desfiles. Diz que a emoção, o tema forte, o samba foram fundamentais para a vitória. Maravilha ouvir dele isto. E também que o desfile é chato, muita coisa igual. Que não achou que ia ganhar. Sua preocupação era fazer um trabalho bacana, para emocionar. E diz que o carnaval é muita breguice, coisa de novo rico.

Que estarão pensando os demais carnavalescos e toda a gente que faz Carnaval? Também estarão achando chato, ou que está tudo de bom tamanho? De minha parte, posso ter achado tudo deste desfile, menos que ele tenha sido chato.

Sem querer entrar, desta vez, no mérito das notas sem conhecer as justificativas, fico perguntando aqui, bem baixinho, sem querer ofender a ninguém, se é possível com o atual critério comparar o desfile do Império Serrano com o da Beija Flor, da Grande Rio e da Vila, tão imponentes visualmente. Será que não estamos comparando banana com laranjas. É só compararmos os abre-alas das três escolas com o de quase todas as demais.

Quando as alegorias eram quase do mesmo tamanho prevalecia a criatividade, a inventiva, a concepção e a adequação ao enredo. Hoje a diferença de “caixa” é tão grande, tão desproporcional, tão gritante que torna impossível não se deixar impressionar pelo luxo, pelo “volume” de luzes, cores e tecidos, tornando inevitável para pobres-humanos-julgadores se deixar contaminar por tamanho impacto, tal como aconteceu ao Império Serrano.

Como saber isto? Do ponto de vista nosso, de entusiastas e ‘consumidores’ de carnaval, a disponibilização das justificativas foi um grande passo. Este passo seria infinitamente maior se isto se desse de uma maneira que tornasse possível uma efetiva análise. Menos apressada.

Isto se daria se cada quesito pudesse ser disponibilizado semanalmente e não todos juntos de uma única vez. O volume de informação tal como é hoje disponibilizado é tão grande que prejudica uma fiel leitura.

Do ponto de vista de quem faz o carnaval, seria ótimo que cada carnavalesco, cada diretor de carnaval, cada representante de componentes, cada diretor de harmonia, cada diretor de bateria se pronunciasse em um grande encontro. Que cada representante de cada quesito pudesse discutir, digamos, bienalmente após o carnaval, após as justificativas, sua visão do desfile, suas críticas e suas sugestões.

Que cada segmento tivesse a liberdade plena de dar sua opinião, por um lado sem censura, por outro lado sem pretender ser dono da verdade. Estudiosos do carnaval também seriam ouvidos, inclusive jornalistas, em igualdade de condições.

Se as Ligas ou Associações acolherão as propostas é uma outra questão. O importante é que o carnaval estivesse sendo sempre oxigenado por todos os tipos de correntes de pensamento.

Claro que em um forum aberto desta natureza tudo pode acontecer.

Imaginem se algum desvairado apresentasse uma tal proposta que atribuísse apenas nota cinco aos quesitos de luxo, dependentes de aporte de recursos; e que os quesitos de chão, de evolução, de canto, dança e ritmo permanecessem valendo 10? Não adiantaria nada, letra morta, pois as demarcações apenas se espremeriam em cinco pontos ao invés de dez. Será que alguma proposta neste sentido se apresentaria contendo alguma eficácia? Que tivesse mérito de amenizar este desequilíbrio?

E se um outro tresloucado propusesse o número máximo de três mil componentes; e quem sabe de seis carros? Será que o desfile estaria sendo diminuído ou estaria sendo potencializado. Quem apostaria?

Outro desencaminhado proporia que se acabasse com essa história de quem “subir” ser o primeiro a desfilar. Tremenda maldade com uma escola já em condições de inferioridade.

E se algum doido conseguisse formular uma proposta de forma a que as alas não tivessem obrigatoriedade de enfileirar-se rigidamente. Seria permitido que desfilassem mais soltas. Será que a dança, o ritmo e o canto dos componentes se assemelhariam ao da noite das campeãs? Que mal isto faria para o desfile, para a competição e para o espetáculo? Quem saberá?

Certamente algum desmiolado tentaria provar que a bateria cadenciada e o samba não-marcheado em nada atrapalham a escola no cumprimento do horário. Até tudo bem. Pior se tiver assistido e ouvido os aplausos incontidos dirigidos pelo público aos passistas mirins da Portela. Corremos o risco de ele propor que todas as alas de passistas, de todas as escolas, sejam realçadas e valorizadas; que desfilem com pouca fantasia de modo a permitir-lhes levar a alegria do samba a todos com a magia de sua dança.

Não podemos prever que algum ‘cara de pau’ propusesse que o samba-enredo e a bateria passassem a ser os destaques do desfile, sendo os únicos quesitos a ter nota máxima.’ Que o samba deixasse de ser apenas funcional e fosse julgado efetivamente em sua melodia e sua poesia. Se é bom ou não para desfile, é problema da escola que arcará com o ônus de uma má escolha.

Para quem não está satisfeito com os riscos, poderíamos esperar que algum alienado pudesse propor que cada julgador tivesse em seu setor uma filmadora que “testemunhasse” cada perda de ponto por ele apontada. Chego a pensar que a exibição destes filmes, concomitantemente à indicação dos erros cometidos, se tornaria um acontecimento tão atraente quanto a dramatização dos enredos ou a apresentação dos sambas. Tudo evidentemente sem a presença dos julgadores.

Isto tudo sem contar que um desequilibrado poderia propor, no desfile das campeãs, que uma pequena delegação da escola vencedora apresentasse ao público uma também pequena delegação das escolas vencedoras do acesso e do RJ-1, desfilando pela pista, abrindo o desfile das campeãs, sem cantar o samba já que parece ser este o impedimento.

Se tal acontecer, bom que seja antes que outro sequelado proponha a incorporação de três outras escolas ao Grupo Especial, dividindo o desfile em três dias, com cinco escolas de cada vez. A terça-feira voltaria a ser ‘gorda’, com o desfile deste dia começando às 18 hs e terminando pouco depois da meia noite.

Aos que argumentassem que no dia seguinte é dia de trabalho, o propositor contra argumentaria lembrando que em Salvador e Recife também há trabalho na quarta e o carnaval de lá explode na terça. Por que aqui seria diferente?

Agora sim concluindo - e por que não?- que fossem acolhidas sugestões para a “deportação” de um ou outro colunista para o carnaval da Intendente Magalhães ou para a folia de Quixeramobim, se este for o entendimento geral.

Chega de maluquice! Maluquice???

Até fevereiro...



* Luis Carlos Magalhães é colunista

* E-mail: lcciata@hotmail.com

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