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Madureira meu amor Música de Arlindo Cruz sobre Madureira vira febre, emociona e convida a passeio com o sambista pelo bairro 'a que todos se apegam' Rio - De um lado a Paróquia de São Jorge, em Quintino. Na outra ponta, Rocha Miranda e a Igreja de Santa Bárbara. Na geografia sentimental do poeta é Ogum, o destemido, quem protege enquanto Iansã, senhora de chuvas e ventos, fertiliza o solo sagrado de Madureira. A musa inspiradora que abre os caminhos, a quem Arlindo Cruz, compositor de 700 sambas, teceu reverência única em letra e melodia. Seguindo os acordes de ‘Meu Lugar’, canção que desvenda a céu aberto o segundo lar do autor, primeira faixa e sucesso atual do disco ‘Sambista Perfeito’, acompanhamos Arlindo num passeio pelas esquinas, botecos, lojas e quadras de Madureira. Do Mercadão e seu movimento incessante, do sorriso e do suor de quem trabalha ou se diverte aos “mitos e seres de luz” que abençoam a nascente suburbana do samba. “Essa música é para o povo de Madureira que anda, come, estuda, namora, bebe, joga, se diverte, comemora. Um povo guerreiro, a que todos se apegam”, diz Arlindo. Ele está vestido de verde e branco e tem São Jorge estampado no peito, no centro da quadra do Império Serrano. No pescoço, traz um colar no qual guarda seus patuás: o ochê (machado de duas pontas de Xangô); a miniatura de São Jorge; um abebé (leque de Oxum); a meia-lua simbolizando o amor pela mulher, Babi; dois dentes de seus filhos, Arlindinho e Flora; e a Coroa Imperial. Porque foi ali onde tudo começou. Nascido na Piedade, o Arlindo adolescente já tocava com Candeia, nome lendário do samba na Portela que o levou de cavaquinho em punho à escola azul e branco. Até que um dia, já encantado em Madureira, venceu seu primeiro samba-enredo em outras cores. “Atravessei a rua levado pelo Beto Sem Braço e fi zemos a parceria campeã em 1989. Quando entrei na Avenida cantando com o Império, me apaixonei. Meus parentes são Portela e digo lá em casa que sou a ovelha verde e branca da família”, diz, à frente da pintura que na quadra retrata a fi gura grisalha de Eulália Oliveira Nascimento, a Tia Eulália, uma das fundadoras da escola. “São os seres de luz de que falo na música, mestres respeitados que nos iluminam e a quem todos pedem a bênção, os cabelos brancos são sinais de sabedoria no subúrbio”, afi rma Arlindo. Não por acaso, ‘Meu Lugar’ foi feita em parceria com Mauro Diniz, filho de Monarco, um símbolo da co-irmã Portela. “E tem Candeia, Silas de Oliveira, Tia Doca e Tia Surica, que estão na área... A lista não acaba”, lembra, que hoje mora no Recreio. Já estamos no famoso calçadão do maior centro comercial do subúrbio, a caminho do Galeto Rio Ave, balcão onde Arlindo reúne parceiros para chopes e galetos na brasa. Num dos corredores que ligam as ruas estreitas por dentro de galerias, o compositor repassa a vida nas vitrines. “Minha mãe comprava aqui suas coisas para costurar”, lembra, à porta da Casa Sabiá. Mais dois passos e pára na frente de outra loja de aviamentos. “Estou querendo bordar uma toalha como essa para mim...”. Uma esquina virada e Arlindo aponta casa lotérica onde já apostou, ao lado de estabelecimento comprador de ouro: “É aquele negócio, quem está na pior de repente perde uma jóia, empenha, faz uma fé”. Dois chopes gelados, prosa rápida com os garçons e um casal da região se aproxima. São evangélicos. Abandonaram a vida de pagodes mas não Arlindo, que está presente no cotidiano do lar em CD e DVD. “O cara é bom e cantou Madureira como ninguém”, atesta o segurança Antonio Carlos Junior, antes de seguir no passeio com a mulher. A próxima parada em Madureira é o Mercadão, ponto que resume o espírito da região e figura também na letra da homenagem. É onde a popularidade do sambista se revela no meio da multidão que o cerca, parando o comércio. Fotos, autógrafos, elogios. Arlindo Cruz está no meio do povo de Madureira. MEU LUGAR O meu lugar/ é caminho de Ogum e Iansã/
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