8/5/2008 02:24:00

Memóra da Folia: O Brasil e seu povo, o Encontro Marcado

Luis Carlos Magalhães vai ao Theatro Municipal em 1956, vai à Bahia e viaja por todos os Brasil para saudar os novos sambas-enredos

'Há duas opções na vida: indignar-se ou acomodar -se. Eu não vou me acomodar nunca'.

Darcy Ribeiro


Por Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)


Segunda-feira, já bem tarde. Eu sentava diante da tela para escrever minha crônica semanal e o telefone toca. Era Miro Ribeiro finalizando seu programa. E manda na “bucha”: Gostou do enredo da Mangueira?

Puxa vida, mais Mangueira...

A turma da Portela reclamou muito da bonita cobertura sobre os 80 da Mangueira em relação aos 85 da Portela. Deixei no ar uma promessa de que nos 90 da Portela a cobertura será retumbante, aguardem.

Mas vamos de Mangueira...

Os enredos até aqui anunciados me agradam muito. A minha visão particular de carnaval, ou melhor, dos desfiles, tem como ponto de partida o enredo escolhido. Depois passa pelo samba-enredo, depois vêm os demais pontos da escola.

Destaco tais quesitos por serem eles os responsáveis por “detonar” o dispositivo emocional do desfile. A partir dele, o envolvimento dos componentes, a beleza das fantasias e alegorias trarão a riqueza visual tão necessária. O mestre-sala e a porta-bandeira, principalmente elas, trarão, juntamente com as baianas, além da beleza, a força da tradição. A harmonia, o conjunto, a evolução, dependentes de outros fatores, certamente sentirão as boas influências. O resto é com a bateria, é com ela mesmo.

Essa minha visão – e vou escrever isto um milhão de vezes - nada tem a ver com o resultado da apuração que é a justa preocupação da direção da escola, afinal esse é seu compromisso maior. Na minha visão lírica da festa o carnaval é o encontro marcado do povo brasileiro com a sua história. Um encontro com sua “própria” história e, porque não dizer?, o encontro marcado do povo brasileiro consigo mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

 

Conheci Darcy Ribeiro. Tive a felicidade profissional de um dia ter trabalhado, ter feito parte da equipe de três grandes brasileiros: Darcy, Brizola e Niemeyer. Nada teve a ver com o carnaval, o mesmo carnaval que os encontrou unidos e, até por isso mesmo, acabou por dar à cidade e a todos nós a Passarela do Samba em 1984.

De todos Darcy foi o que mais me impressionou. Por sua força interior, sua inteligência, sua capacidade de trabalho e sobre tudo seu amor e dedicação ao povo brasileiro. E seu mais absoluto desprezo pelos políticos corruptos, ali tão próximos a ele que era vice-governador.

Já doente, dedicou o melhor de suas energias a escrever o livro que a Mangueira agora toma como enredo. Depois voltamos a ele.

Mas e o enredo da Vila Isabel?

Na minha fantasia de carnaval, o jovem carnavalesco da Vila vai pinçar belíssimos e emocionantes momentos da arte popular que tiveram o Teatro Municipal como palco.

Fico imaginando - como se fosse possível imaginar tal coisa – em 1956 um jovem
e belo Haroldo Costa (na foto, com o violão) representando Orfeu, um condutor de bondes que se apaixona pela belíssima Eurídice (Dirce Paiva) que vem para o Rio de Janeiro fugindo da morte. Isto em pleno carnaval. Imaginem, vocês aí desse lado, se isto for possível, tudo isto com cenário de Oscar Niemeyer.

Orfeu da Conceição, baseado em texto de Vinicius de Moraes e que depois virou filme - Orfeu do carnaval -, foi um espetáculo tão marcante, por tudo tão importante, tão histórico, que foi para ele, em razão dele, que Vinícius e Tom Jobim se conheceram para a composição de parte da trilha sonora.

E deu no que deu...

O mais importante de tudo vem do fato de estarmos falando de algo dessa natureza acontecido em 1956. Caramba! Negros no Teatro Municipal...e no palco...e como protagonistas...Como conseguiram isto? Como foi possível isto? Que força tinha essa gente?

Só para contextualizar, menos de um ano antes, em dezembro de 1955, que uma senhora negra recusou-se a levantar de um banco de ônibus em Montgomery, no Alabama, sul dos EUA, para cumprir a lei segregacionista e dar o lugar a um passageiro branco. E foi presa por isso.

A partir dali, os negros da cidade decidiram por um boicote de mais de um ano que levou a empresa de ônibus à falência, fazendo mudar o rumo do movimento pelos direitos civis dos negros americanos.

Essa senhora entrou para a história por sua coragem e se tornou símbolo da luta pelos direitos civis. Seu nome: Rosa Parks.

O movimento de 1956, que começou no Alabama e incendiou todo o país, menos de dez anos depois resultou na revogação das leis segregacionistas e na promulgação da lei dos Direitos Civis. Foi liderado por um jovem pastor da cidade com 26 anos. Dele todos aí desse lado da tela devem ter ouvido muito falar. Seu nome: Martin Luther King.

Conto essa história pra dizer da emoção que vou sentir se a Vila mostrar a importância daquele momento, e com uma belíssima alegoria, o palco do Municipal, com Haroldo Costa em cena, já não tão jovem nem tão belo assim, tendo a seu lado a deusa Clementina de Jesus (na foto ao lado com a porta-bandeira Mocinha) representando outro grande momento da cultura popular.

E nesse eu estava lá. 'Meninos, eu vi!'

Tudo iniciativa de Darcy Ribeiro. Era o começo da década de 80. Brizola era o Governador vindo do exílio, e quem mandava na cultura era Darcy.

Era a arte popular, sua mais legítima representante, que subia emocionada ao palco. Não dá p`ra dizer de quem era a maior emoção, se dela ou se a nossa. Nunca vou poder esquecer aquele dia.

E já temos também o tema da Viradouro. O que nos trará um carnavalesco tão criativo sobre uma cidade tão criativa, tão rica, tão fascinante, tão mágica como a cidade de São Salvador e seu recôncavo? A expectativa vem da novidade de um outro tipo de temática na cabeça de quem sempre trouxe novas linguagens sobre temas super-específicos. Ou seja, os temas eram escolhidos na razão direta do tipo de linguagem. Agora, não. O desafio é a nova linguagem aplicada a um tema tradicional, um tema que “pede” uma linguagem tradicional. Certamente essa questão será uma das atrações do carnaval. Tomara.

Mas voltando à Mangueira, minha expectativa é muito grande. Ainda mais porque não sou eu o carnavalesco.

Reconhecidamente criativo, tendo tirado tanto “leite de pedra” nos últimos carnavais, com enredos áridos, desta vez o carnavalesco terá todo um rebanho para escolher uma ou outra vaquinha para ordenhar e dar a medida certa de tanta informação. Não é fácil, não...

Ao contrário do que se anda dizendo, o enredo não trata do branco, do índio e do negro. É muito mais do que isto. Darci escreve sobre o desafio que é se formar uma nação a partir de sua falta de identidade. Se as matrizes da construção da nacionalidade são o branco, o negro e o índio, quem ainda está a construí-la é o filho do branco com a índia; o filho do branco com a negra; o filho do negro com a índia. A essa gente sem identidade, coube tal tarefa. O quê quanto somos dos índios, dos negros e dos portugueses. Quantos brasis foram formados nessa caminhada, ainda com a presença de imigrantes? Formaram-se um Brasil crioulo, outro Brasil sertanejo e ainda outro caipira, tudo muito longe, distante aqui do Sul-Maravilha.

É como se essa gente se olhasse diante do espelho e perguntasse: quem sou eu afinal, que não sou negro, não sou índio, não sou branco?

E me vem à memória uma artigo escrito pelo jornalista Zuenir Ventura, ainda no JB, lá pelo final da década dos anos 1990 logo após a morte do jovem Leandro da dupla Leandro e Leonardo.

Ante a impressionante comoção nacional Zuenir se espantava e fazia a pergunta fundamental: “ Esse é o verdadeiro Brasil. Ou é outro ?”. E constatava “...como a gente conhece pouco Brasil e os brasileiros”.

Seu espanto vinha do fato de não conhecer “...um único dos 10 milhões de compradores dos discos de Leandro-Leonardo...”; vinha do fato de jamais ter conhecido alguém que um dia lhe tivesse perguntado: Ô Zuenir “...você já ouviu o último disco do Leandro e Leonardo?”.

Pois é isto, entre tantas coisas, que Darci tanto quis mostrar. Quantos brasis nós somos, quem somos cada um de nós. E que enquanto não soubermos isso não chegaremos a lugar nenhum. Para isso dedicou tanto sua vida.

Estou esperando um grande desfile, Miro Ribeiro, e um grandíssimo samba. Será uma belíssima homenagem a Darci Ribeiro, ele que era muito mais carnavalesco do que supunha ser.

Poucos brasileiros amaram tanto seu povo, sua gente como Darcy. Sonhou ver no Brasil a nova Roma, a Roma mestiça cujos fundamentos tanto o orgulhavam.


Nem todos os brasileiros mereceram, merecem, e têm o direito, de serem sepultados ao som da Bachiana n°05, do não menos brasileiro, não menos carnavalesco Villa-Lobos.

De minha parte, em um desses momentos muito pouco carnavalescos de nossa história política, tive a quimera, essa sim carnavalesca, de ver Darcy Ribeiro aclamado “ O Imperador do Brasil”.

Não sei por que, posso até estar sendo injusto com ele, mas acho que ele também, lá no fundo, bem lá no fundo, tinha também esse delírio (carnavalesco).


SUGESTÃO PARA OUVIR:

Bachianas brasileiras n°5:
Autor: Villa-Lobos
Execução: Jorge Aragão


SUGESTÃO PARA OUVIR TAMBÉM:
GOOGLE: bachianas brasileiras “Jorge Aragão”.
Cliquemusic.uol.com.br

FOTOS:
Darcy Ribeiro. Arquivo O Dia;

Haroldo Costa, O Orfeu da Conceição em 1956, no Teatro Minicipal. Reprodução Internet;

Clementina de Jesus (Tirada do livro Clementina Cadê Você?, de Adriana Magalhães Bevilaqua,Idemburgo Frasaão Felix, lia calebrew de Azevedo e Maria tereza de C. Martins. Rio de Janeiro, Funartte, 1988);

Villa-Lobos. Arquivo O Dia;

SUGESTÃO DE DVD:
Uma História Americana, de Richard Pearce, 1990, com Woopy Goldberg (Conta o episódio de Rosa Parks no Alabama)

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mais importante da
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'Braguinha' (Mangueira, 84)

'Kizomba' (Vila Isabel, 88)

'Liberdade, liberdade' (Imperatriz, 89)

'Ratos e Urubus'
(Beija-Flor, 89)

'Vira, Virou...a Mocidade chegou' (Mocidade, 90)

'Vou cair na gandaia', (Viradouro, 97)


 



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