19/3/2008 11:41:00

Memória da Folia: A Bossa Nova, o Samba e a 'Belle Époque' carioca

Luis Carlos Magalhães passeia pela 'Belle Époque' carioca, celebra os 50 anos da bossa nova e comemora a volta por cima que o samba deu de lá para cá

* Por Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia da Folia)

Abro a coluna do jornal e leio uma das mais espirituosas e inteligentes definições dos últimos tempos. É da lavra do repentista,cantor e compositor de forró e de sambas de blocos Chico Sales. Ao se referir à bossa nova, sapecou-lhe a definição cáustica: "A bossa nova é o samba sem África".

A frase pode até não ser exata,mas nos remete aos tempos em que a cultura e as tradições populares foram execradas pela nascente elite cultural na virada dos séculos XIX e XX.

Constato com espanto e surpresa que a bossa nova, se existisse à época, se encaixaria como uma luva no discurso europeisante e branqueador de então.
 
Digo “espanto” e “surpreso” porque não passa pela cabeça de ninguém que Nara Leão, Tom Jobim, Carlos Lira e tantos outros brasileiros admiráveis tivessem tal intenção. Muito,muito, mas muito pelo contrário mesmo.

Não deixa de ser curioso, no entanto, olharmos lá atrás, na época do Romantismo, e encontrarmos em Gonçalves Dias e José de Alencar os paradigmas da busca da valorização do caráter “original” e “singular” de cultura e da civilização brasileiras, sempre a partir da valorização de nossos hábitos, costumes e comportamentos contidos e expressos em nossas tradições populares.

Mas isto foi há muito tempo, lá pela primeira metade dos anos 1800, tempos de um Brasil pós-independência. A geração seguinte manda o Romantismo às favas e com ele tudo que era relativo ao que o brasileiro comum sentia, exprimia, criava e demonstrava.

Todo aquele caráter singular e original foi submetido à nova ordem que valorizava o “universal”.

A cultura, o comportamento, a civilização brasileira, enfim, a carioca em particular, tudo passou a ser comparado a padrões outros, de outras culturas. Nossa urbanização que se fez em “alguns poucos anos” foi comparada a outras desenvolvidas secular e paulatinamente.

Tudo o que antes era valorizado passou a representar sub-cultura. Nossa gente, nossos hábitos, nosso modo de ser passou a ser comparado e tido como menor, negativo, bárbaro e selvagem.

O conceito de cultura e de civilização foi relativisado. O conceito do “erudito” valorizava o que era universal, moderno, progressista e identificado com a evolução da sociedade. Contrapunha-se ao conceito do “popular”, considerado arcaico, velho, sem perspectivas.

Clementina de Jesus

Dentro desse conceito, uma de nossas deusas - Clementina de Jesus – não passaria de uma “crioula velha, feia e banguela”.

A elite brasileira dava as cartas definidoras dos “verdadeiros” valores culturais, estabelecendo rumos, limites e perspectivas em similaridade com a cultura universal.

Se essa ideologia se fez preponderante, houve um momento em que se manifestou com mais ênfase e, literalmente, com muita mais força.

Isto se deu naquele início do século XX até o final da primeira grande guerra, período conhecido como a “belle-époque “ carioca.

Naquele momento era posto em prática, era colocado na rua, o processo de adaptação da sociedade brasileira ao nascente capitalismo que dava seus primeiros passos entre nós.

Era a extrema valorização do processo civilizatório parisiense; buscava-se construir aqui a “Paris dos Trópicos”. Algo como uma “Europa possível”.

Deu-se início ao que ficou conhecido como a “era das demolições”, e a conseqüente expulsão do centro da cidade de um contingente enorme de brasileiros que “aqui vieram parar” em decorrência de inúmeros fatos sociais,políticos e econômicos: o tráfico de escravos, os deslocamentos dos ciclos econômicos do açúcar, do ouro e do café.

Brasileiros que “aqui vieram parar” em decorrência de secas insuportáveis do nordeste, do fim da guerra do Paraguai, do fim da guerra de Canudos, do fim da abolição, do fim da lavoura do café do vale do Paraíba e até mesmo da crise econômica americana de 1929.

Levas de brasileiros que “vieram parar aqui” e foram enxotadas do centro da cidade para dar lugar ao tal “processo civilizatório”.

Gente vinda de toda parte que teve que se abrigar, buscar moradia nos morros vizinhos e formar favelas.

Morro do Pinto no início do século XX

 

 

 

 

 

 

 

 

Ah! os morros da cidade...

Essa cidade que se revelou ali, naqueles dias, u’a mãe receptiva acolhendo tanta gente em suas encostas, como se os morros da cidade fossem seios múltiplos e fartos da mãe generosa que não negou acolhimento a nenhum de seus filhos, brasileiros ou imigrantes, expulsos do centro da cidade depois de terem sido por ela atraídos no curso do processo de desenvolvimento que o país experimentava.

Era o caráter autoritário e violento de um projeto que, mesmo se considerando necessário, se apresentou violento em todos os seus estágios, absolutamente desvinculado de uma realidade social e histórica de origem secular que as autoridades abusaram em desconhecer, ou fingir que não viam. Um projeto, por tudo isso, inconseqüente, traumático e inviável socialmente.

É aí na “belle-époque” carioca que é aberta a chaga que nunca mais cicatrizaria em nenhuma alma carioca; um marco do que seria muito mais tarde identificado pelo jornalista Zuenir Ventura como a “cidade partida”.

Cortiço na Rua Senador Furtado na década de 80

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma cicatriz aberta que um dia se voltaria contra a própria cidade e contra os cariocas das gerações futuras. Hoje, quantos desses “herdeiros” do processo civilizatório, abandonados por tanto tempo à própria sorte, atraídos pelo crime, organizaram-se. E deu no que estamos vendo. Será “a volta do cipó de arueira no lombo de quem mandou dar”?

Foi aí na “belle-époque” carioca que se inicia o combate, a tentativa de extermínio de todo e qualquer traço da cultura e das tradições populares então existentes.

Tudo que era incompatível com os novos tempos foi marginalizado. A mesma força destruidora que se abateria contra o samba na década seguinte.

Tudo isto baseado e construído em nome da recém-fundada República, dos chamados ideais republicanos.

Uma farsa, a maior de todas as farsas brasileiras. Uma República que chegou sem ruptura com o antigo regime; uma República que era a negação de si própria enojando-se do povo brasileiro mantido à distância do verdadeiro progresso e das conquistas sociais.

“Todo poder emana do povo, e em seu nome será exercido”. Mentira!

Não por acaso aconteceu Canudos; depois as revoltas da Vacina e a da Chibata.

Intolerância e hostilidade com danças populares, crenças populares. A elite se divertia e cultuava valores europeus, sobretudo parisienses, e o povo ficava limitado e reprimido sem poder expressar sua maneira de ver e enfrentar a sua própria e dura realidade. Candomblés, Lundu,maxixe, entrudo...tudo lixo...

Era a “nata do lixo” jogando o “lixo na lata”.

Mas nem tudo estava perdido.

É esse difícil contexto que faz prevalecer um núcleo recém chegado à cidade. Eram negros baianos que traziam conservados traços culturais e religiosos tão fortes que os mantiveram coesos a ponto de formarem na cidade do Rio de Janeiro uma nação à parte,.

Um grupo que não se deixou abalar pela avalanche de violência cultural e social que caiu sobre a gente simples da cidade que se transformava.

Ex-escravos, já tendo vivenciado a experiência urbana na Bahia, fortalecidos pela pujança cultural do Recôncavo, os baianos fundaram nos arredores da zona portuária a ‘Pequena África do Rio de Janeiro”, assim definida por Heitor dos Prazeres, um de seus expoentes, embora carioca.

Hilário Jovino e os filhos

 

 

 

 

 

 

 

 

Chegavam com eles as tias baianas; chegava Hilário Jovino, o Lalu de Ouro, tão importante em nossas vidas. Ele que teve a ousadia de transferir a data do desfile de seu rancho do dia de reis para o carnaval. Profanizava assim os ranchos, longe de imaginar que dava ali sua humilde contribuição para a estruturação das futuras escolas de samba.

Era o tempo do lundu, do maxixe. Do samba amaxixado dos baianos da Praça XI.

Do outro lado da cidade os negros bantos, retirantes da decadente lavoura de café do Vale do Paraíba,mantinham quase intacta a tradição do batuque angolano e da dança do jongo.

Pareciam mesmo esperar o momento certo de emprestar sua contribuição para o processo de formação do samba carioca que, no final da década seguinte, não tardaria a chegar pelas mãos daquela geração de bambas do Estácio.

Mas o processo de sedimentação da cultura “superior” seguia seu curso.

Em contrapartida, sem que fosse possível a alguém imaginar, naqueles primeiros anos daquele século que chegava, começava a nascer, no Rio de Janeiro, no interior fluminense, e até fora do estado, uma geração incomparável de sambistas que, ao final dos anos 1920 ,começaria a fundar os blocos cariocas de primeira geração. Blocos que na década seguinte se transformariam nas ainda incipientes escolas de samba cariocas.

Naqueles primeiros anos do século nasceram Paulo, em 1901,na Gamboa; Cartola,em1908, no Catete; Carlos Cachaça, em 1902, em Mangueira; Mestre Fuleiro, em 1911, no Andaraí; Silas, em1916, em Madureira; Alfredo Costa, em 1911; Antenor Gargalhada, em 1909; Bide, em1906 no Estácio; Marçal em 1905; Juvenal Lopes, em 1901 e Jamelão, em 1914, ambos em São Cristóvão; Caetano da Portela, em 1900; Alvaiade da Portela, em 1914 em Oswaldo cruz ; Aniceto do Império, em 1914 no Estácio.

Nasciam também, Natal da Portela, em 1905 em Queluz, no Vale do Paraíba; Ismael Silva, em 1905, em Niterói; Mano Décio,em 1909 em Santo Amaro da Purificação do recôncavo baiano; Rufino da Portela, em 1907 em Juiz de Fora; Casemiro Calça Larga, em 1908, em Miracema; Vó Maria Joana Rezadeira, em 1902, em Valença; Tia Eulália, em 1903, em três Rios.

Todos um dia teriam encontro marcado na Praça Onze, dirigindo as escolas que iriam fundar para transformá-las, décadas depois, naquilo que seria considerado a maior festa brasileira e uma das maiores do mundo. Um formidável marco de resistência da cultura popular, verdadeira volta-por-cima em tudo aquilo que se tramou naquele início de século, transformando-se em motivo de orgulho para toda a nacionalidade, inclusive para os descendentes daqueles que um dia tanto se envergonharam de manifestações desse tipo.

Timaço...

Mas por que mesmo comecei essa história toda?

Ah! Sim...A bossa nova que agora completa cinqüenta anos.

Ela tão importante, que tantas fronteiras abriu para nossa música. Ela mesma que naqueles tempos difíceis da “belle époque” carioca, se já existisse, seria saudada pela elite cultural como o “universal”, o “progressista”, o “moderno” e todos os demais cânones da elite cultural de então.

Longe de mim querer estigmatizá-la como elitista e anti-samba. Pelo contrário. É preciso registrar tal curiosidade e reconhecer nela e em seus criadores um papel fundamental na divulgação do samba para toda a cidade: para-depois-do-túnel.

Refiro-me a um tempo em que Nara Leão, musa principal e em cuja casa tudo começou, preparava o repertório de seu primeiro disco de bossa nova, produzido por Carlos Lira, chamado “A Bossa Nova de Nara Leão”.

Reprodução do disco Opinião

 

 

 

 

 

 

 


Lá pelo meio do caminho ambos se encantaram com Zé Kéti e com os chamados sambas do morro. A tal ponto que fizeram incluir no disco os sambas “diz que fui por aí”, de Zé Kéti e Hortêncio Rocha, “luz negra”, de Nelson Cavaquinho e Amâncio Cardoso e “o sol nascerá”, de Cartola e Elton Medeiros. Carlos Lira e Nara Leão acabaram por alterar de tal forma a concepção inicial do disco que foi necessário mudar o nome na capa. Ficou sendo somente “Nara Leão”, sem qualquer menção à bossa nova., causando grande polêmica.

Com o sucesso do disco junto ao público da Zona Sul, o nome do portelense Zé Kéti alcançou grande destaque. Não sem motivos, seu nome foi solidamente vinculado ao mais famoso espetáculo teatral da época, o primeiro em repúdio ao regime militar que se instaurava, e o primeiro a ter em cena uma jovem estreante de 19 anos de quem muito se ouviria falar depois: Maria Bethânia, que vinha da Bahia para substituir Nara Leão.

Muito mais do que ter vários sambas seus incluídos, e de ter um deles como título do show, teve também a suprema felicidade de inscrever seu nome na história ao ver o lendário teatro de arena da Rua Siqueira Campos receber o nome de “Teatro Opinião”, palco de tantas lutas dos artistas brasileiros.

Salve os cinqüenta anos da bossa nova, salve o samba brasileiro. Salve Zé Kéti e, modéstia à parte, salve a nossa querida Portela.

Sugestão para ouvir:

*Opinião – samba de Zé Kéti do show Opinião, no Teatro Opinião
* Cantora – Nara Leão

Fontes:

* As Tradições populares da “belle époque” carioca.
* Autora-Mônica Pimenta Velloso
* Editora-Funarte/1988.

* O negro no Rio de Janeiro e sua tradição musical
Autor-Nei Lopes
Editora-Pallas/1992

• E-mail para contato (não para comentários) lcciata@hotmail.com
• Comentários sobre cada tema no local próprio indicado.

* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval

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