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Memória da Folia: A cidade, sua gente, sua música...seu Carnaval Luis Carlos Magalhães olha para as reformas urbanas do Rio e sente seus moradores e sua música. E se sente um deles, em pleno carnaval Luis Carlos Magalhães
De tal forma, e trazendo tamanha bagagem cultural-religiosa, que os baianos transformaram a zona portuária do Rio de Janeiro (bairro da Saúde) naquilo que Heitor dos Prazeres denominou “A Pequena África do Rio de Janeiro”. Outra leva de migrantes veio com o fim da Guerra de Canudos; os combatentes, com as namoradas conquistadas nos campos de batalha, temerosos de não conseguirem retomar suas antigas ocupações aproveitavam a “carona” dos navios de guerra que voltavam para o já então Distrito Federal. Nesse período surgem os primeiros cortiços na antiga zona aristocrata da cidade. Os migrantes ocupavam os grandes casarões do tempo do império e da colônia, antes ocupadas por fazendeiros e sitiantes. Traziam “...hábitos da velha metrópole (Bahia), com marca das reminiscências do continente negro, entre as quais, cantigas e danças próprias, festas, comidas, ritos e crendices. Havia nas cercanias babalaôs de fama que realizavam sambas (festas de danças) e candomblés. Eram todos conhecidos como tios e tias. Mais tarde, algumas dessas famílias se foram espalhando pelo centro e pela zona chamada Cidade Nova.” Por volta de 1916 “... na rua Visconde de Itaúna nº 117, morava tia Ciata...” “...para ali assentar sua tenda festiva e movimentada. Naquela rua e na Senador Euzébio, que lhe ficava paralela, e noutras adjacentes funcionavam sociedades dançantes... “As baianas da Praça Onze eram conhecidas em toda a cidade pelos seus dotes culinários. Quem nunca ouviu falar no tabuleiro da baiana? Pois bem, vem dessa época a sua aparição. Já os homens encontravam ocupação na zona portuária, nas construções, nos biscates e em ofícios aprendidos em casa, tais como lustrador de móveis e marceneiro. Por outro lado, quase todos os compositores que aí residiam também tinham os mesmos ofícios, como podemos citar: João da Baiana (estiva); Heitor dos Prazeres (lustrador); Caninha (ambulante)”. A Pequena África era “...uma comunidade quase que fechada, dentro de uma cidade em transformação. Verdadeiro foco de resistência à modernização que se impunha; conservará suas características sócio-econômicas, passada a era das demolições. Ao contrário, esses casarões, já consideravelmente ocupados antes das reformas, se povoaram ainda mais, numa demonstração de solidariedade dos seus antigos ocupantes. A Praça Onze era o abrigo de todo baiano recém-chegado ao Distrito Federal, encontrando casa comida pelo tempo que lhe fosse necessário, até encontrar ofício. “...o idioma português misturava-se com dialetos africanos principalmente com os de origem nagô”. Nada melhor que representar um momento de uma cidade do que a música que nela se cantava: YAÔ Akicó no terreno No jacutá de preto véio Oi, tem nega de Ogum, de Oxalá, de Iemanjá Trata-se de um Lundu afro-brasileiro composto por Pixinguinha e Gastão Viana nas primeiras décadas do século XIX, gravada em 1950, com nítida – e tão comum à época – mistura da língua portuguesa com dialeto africano, de origem nagô. SELEÇÃO DE JONGOS Assim como o Lundu Yaô é representativo do grupo dos negros sudaneses, da África ocidental, que foi fixadopredominantemente na Bahia, majoritariamente nagôs ou iorubás, o JONGO é representativo da outra corrente de negros escravizados capturados principalmente em Angola, Congo e Moçambique, denominada genericamente BANTOS,fixados predominantemente nas fazendas de café do vale do rio Paraíba, no Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, sendo o primeiro grupo a chegar ao Brasil, para os estados do nordeste. Após a abolição e no final do ciclo do café, migraram para a zona norte da cidade (Tijuca, Vila Isabel, O. Cruz, Madureira, etc.) e tinham o Jongo como manifestação de lazer intermediária entre o sagrado e o profano. Trouxeram consigo as batucadas, as umbigadas, incorporaram a forma processional nos ranchos (trazida para o Rio pelo baiano da Pedra do Sal Hilário Jovino) e tiveram participação importantíssima na formação das escolas de samba e de toda a cultura brasileira. Os Jongos aqui escolhidos dão conta da temática rural característica e que prevaleceu nos sambas de Oswaldo Cruz e Madureira, por exemplo, diferentemente dos sambas urbanizados do centro da cidade. BENDITO Bendito louvado seja, Bendito pra Santo Antônio. Bendito louvado seja meu “zirimão”, Bendito louvado seja Senhora Santana, PISEI NA PEDRA Pisei na pedra, a pedra balanceou, BOI PRETO Qué mamá, qué mamá Boi preto deixa a vaca passeá Olá “buru” com cavalo, na cocheira “gungunando” CABIDE DE MOLAMBO È comum hoje vermos nas ruas, e até nas salas de aula, a presença de pessoas e alunos, inclusive universitários, trajando bermudas e sandálias de borracha. É a evolução dos costumes !? Se observarmos as fotos do Rio Antigo, vamos perceber as pessoas no centro da cidade (Av. Central) trajando chapéu, paletó e gravata, mesmo os mais pobres. Tal era o padrão civilizatório francês vigente. Afinal morávamos na “Paris dos Trópicos”. O cidadão negro, migrante, mal ou desempregado, tinha que “dar o seu jeito” para se aproximar daqueles trajes e não ser encarcerado por uma polícia criada e treinada (desde a chegada da família real) para proteger a“corte”. Espelho disso é o samba “Cabide de Molambo”, tragicomicamente composto por João da Baiana, retratando um morador do morro da Favela que tinha que “se virar” para “mobiliar” seu barraco e se vestir ‘como os brancos’. João da Baiana é filho de uma das tias baianas da Praça XI, neto de escravos e viveu intensamente aquela época. CABIDE DE MOLAMBO Meu Deus, eu ando Meu Deus, meu Deus... Minha camisa Meu Deus, meu Deus... O meu chapéu Os cortiços, como sabemos, eram habitados por trabalhadores, carroceiros, homens de ganho, catraieiros, lavadeiras e costureiras. Tais residências (se assim podemos chamar) eram compostas de inúmeros cubículos uni ou plurifamiliares, contando com um único banheiro e uma única cozinha. Ora, o banheiro é pessoal, ou quase isto, até mesmo em um cortiço. Mas a cozinha...bem a cozinha...era animadíssima. João da Baiana é o cronista da era das demolições, da Pequena África e, por que não dizer, da “belle époque” do Rio de Janeiro. E isto que ele tenta nos explicar no samba. Podemos imaginar o que acontece numa cozinha cheia de gente, homens jovens e velhos, bonitos e feios em contato com mulheres idem, idem, idem. Narra sua própria história de “não morador” em casa de cômodo, que apenas foi lá buscar seu violão que havia dado em garantia de um dinheiro tomado a um agiota judeu. O samba/crônica foi composto por João da Baiana, em 1917 e só gravado em 1968 com acompanhamento saxofônico de Pixinguinha que, com ele e Donga, também filho de uma tia baiana, formava a Santíssima Trindade da Música Brasileira. BATUQUE NA COZINHA Não moro em casa de cômodos Batuque na cozinha sinhá não quer Então não bula na cumbuca, Deixei a cebola peguei na batata, Pequei no balaio pra medir a farinha, Batuque na cozinha, sinhá não quer Eu voltei na cozinha pra tomar café Revista os dois, bota no xadrez, Batuque... Mas seu comissário, eu estou com razão,
“Se você dispuser de três volumes para falar sobre a Música Brasileira, pode ter certeza que vai ser pouco. Mas se você tiver que dispor de uma só palavra, escreva: PIXINGUINHA”. Assim se manifesta Ary Vasconcelos um dos maiores pesquisadores musicais brasileiros ao se referir ao mestre. Sem contar Vinícius de Moraes que via no músico o melhor ser humano que ele havia conhecido. Tido como“São Pixinguinha” por uns e como Pai da Música Brasileira (a mãe seria Chiquinha Gonzaga) por outros, Alfredo Viana era líder do conjunto musical Oito Batutas que tocava nos salões de espera dos cinemas Palácio e Odeon, este na esquina da Sete de Setembro com Rio Branco, nos tempos da “belle époque” carioca. Foi o primeiro grupo musical a representar o Brasil no exterior, tocando no SHERAZADE. Tocava choro, samba e maxixe. Permanece por seis meses, só voltando para o centenário da Independência em 1922, despertando o ódio de parte da imprensa que não podia suportar o fato de negros, filhos e netos dos escravos, representarem o Brasil ‘deles’ na capital cultural do mundo. É Pixinguinha quem diz que nas festas da casa da tia Ciata, naquele tempo, o samba ainda não era totalmente aceito. A casa era grande e na sala se tocava choro, nos quartos era a música do santo. O samba era tocado no quintal pelos e para os empregados. As festas duravam vários dias.
Sabemos que as tias baianas eram doceiras e quituteiras. Os maridos eram estivadores, lustradores e tudo mais. Tal relação se reproduzia no meio daquela gente da Praça Onze. Muitas vezes o emprego do homem faltava, por pouco ou por longo tempo. E quem ficava sem trabalho tinha que responder pelo crime ou contravenção perante a polícia. Muitas vezes as mulheres defendiam seus pares, diante da polícia. Mais uma vez é o cronista João da Baiana que conta a história. Um samba da década de 1960 mais que retrata os tempos idos da Praça XI. QUEM PAGA A CASA PRO HOMEM É MULHER Se é de mim, podem falar Quando a polícia vier, e souber No tempo que ele podia,
Mal comparando, Sinhô foi para sua época (anos 1920) o que Zeca Pagodinho é hoje para o samba. Em 1927 o Prefeito Prado Junior contratou o urbanista Francês Alfredo Agache para remodelar a cidade. Uma de suas propostas era a demolição do Morro da Favela, tido como a primeira favela do Rio de Janeiro, iniciada pelos ex-moradores do famoso cortiço “Cabeça de Porco” acrescida pelos ex-combatentes de Canudos. Depois por toda a gente expulsa do centro da cidade pelo “bota-abaixo” de Pereira Passos. Desta vez é Sinhô que conta a história. Pelo que se disse à época, por esta ou outra razão, a Favela não foi abaixo.
Minha cabocla, a Favela vai abaixo Que saudades ao nos lembrarmos das promessas Minha cabocla, a Favela vai abaixo Isto deve ser despeito dessa gente
Corria o ano de 1942. Herivelto Martins e Grande Otelo, após show realizado no antigo Cassino da Urca, lamentavam a notícia que chocou a cidade publicada nos jornais daquele dia: “Com a abertura da Avenida Presidente Vargas, o Rio perderá a Praça Onze”.
HERIVELTO MARTINS E GRANDE OTELO Vão acabar com a Praça XI. Favela, Salgueiro, Guardai os vossos pandeiros guardai O SAMBA DO OPERÁRIO Já estamos agora em pleno século XX. Em plena sociedade industrial. O negro agora é operário. Sente a pressão étnica e de classe. Mesmo sem nunca terem lido o Marxismo, Nelson Sargento, Cartola e Alfredo Português dão mostra de que a mais-valia também dava samba. O SAMBA DO OPERÁRIO Se o operário soubesse Abafa-se a voz do oprimido
No ano de 1992 a Mangueira optou por desenvolver o enredo ‘SeTodos Fossem Iguais a Você’convidando o Maestro Tom Jobim, então no áuge de sua projeção internacional, para ser o astro principal do desfile. Em agradecimento Tom compôs esse samba, em parceria com Chico Buarque. Note-se aqui que os dois gênios da raça mostram a grandeza de sua humildade e sua modéstia no momento em que reconhecem, diante do povo da escola, que a sua música (deles, Tom e Chico) não é de “levantar poeira” como os sambas inesquecíveis da escola verde e rosa.
PIANO DA MANGUEIRA Mangueira. A minha música não é de levantar poeira
Todo respeito a Tom e Chico; mas a obra prima desta “viagem” está aqui. Os compositores Padeirinho da Mangueira, Jorginho Peçanha do Império Serrano, narram detalhadamente o processo de formação de uma favela. Como sabemos, em literatura, seja ela de qualquer idioma, a virtude é a síntese, assim como o pecado é a prolixidade. Imagino um concurso literário em que fosse dada à Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Joyce, ou qualquer outro a tarefa de resumir em poucas linhas o processo de formação e o “espírito” de formação de uma favela carioca daqueles anos. Essa dupla seria imbatível com esse primor de síntese em quinze versos tão poeticamente precisos. FAVELA
É aí que a região
O ambiente da favela daqueles anos era infinitamente diferente daquele que encontramos hoje. Se o tipo de moradia e a infra-estrutura melhoram muito, o medo e a violência tiram qualquer lirismo das favelas de hoje. Ainda assim nos anos 20, 30, 40 as pessoas do asfalto se perguntavam sobre a alegria de viver, da identidade que cada morador tinha com sua comunidade. “Como é que um povo tão simples e tão pobre pode levar a vida cantando e ter tanto amor por sua escola de samba”? Nesse samba de encerramento, ninguém melhor que o maior compositor dos morros cariocas para responder. Com a palavra... Mestre Cartola. SALA DE RECEPÇÃO Habitada por gente simples e tão pobre
Referências bibliográficas: * Nosso Sinhô do Samba, de Edigar de Alencar. Ed. Civilização Brasileira. 1968;
MINHA CIDADE, MINHA GENTE, MINHA MÚSICA
QUANDO UMA PARTE DA CIDADE DESAPARECE HISTÓRIAS E VIVÊNCIAS CALADAS... EMUDECIDAS. NÓS SOMOS O SAMBA QUE CANTAMOS...
* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval
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