04/12/2007 20:55:00

Memória da Folia: A Unidos da Tijuca nunca me enganou

Luis Carlos Magalhães volta aos carnavais da Praça XI para mostrar a verdadeira coleção de medalhas da escola oriunda do Morro do Borel

* Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)

A escola de samba Unidos da Tijuca, em seu samba-enredo de 2008, em um dos momentos mais criativos da safra, evoca seus últimos e originalíssimos desfiles, sobretudo seus dois vice-campeonatos, sua presença já constante nos desfiles das campeãs, para dizer que sua vitória, ou seja, “o campeonato” é a peça que falta na sua coleção.

Pra cima de mim, não... Tijuca !

Te conheço há muito tempo, há muitos carnavais, conheço todas as suas medalhas...

A primeira medalha - quem sabe a mais bonita? - está no fato de a escola ser a terceira mais antiga dentre as que hoje desfilam.

A segunda medalha veio no ano de 1933, seu segundo desfile, quando um de seus sambas ,denominado “O Mundo do Samba”, de autoria de seu compositor Nelson de Moraes, mereceu do jornal O Globo naquele carnaval o carimbo de que “estava de acordo com o enredo”. Ao que se sabe, seu desfile apresentava carros alegóricos que foram referenciados pelo samba. Era a primeira vez que se via tal expressão. Bela medalha...

Três carnavais adiante, a terceira medalha. Naquele ano o carnaval apresentava em seu critério de julgamento uma novidade jamais vista antes... jamais vista depois...

Até antão e nos tempos que se seguiram, a indicação do vencedor se dava através do somatório de pontos acumulados nos diversos quesitos dispostos no regulamento. Os quesitos mudaram ao longo dos anos mas o critério da contagem acumulada se manteve.

Mas naquele ano de 1936 foi diferente...

A União das Escolas de Samba determinou que a escola vencedora seria aquela que tirasse a melhor nota no quesito harmonia. Em segundo lugar ficaria a escola que tirasse a maior nota em samba; a melhor bateria daria o terceiro lugar para sua escola; o quarto lugar, a bandeira; o quinto, o melhor enredo.

Até ali só dava Mangueira e Portela - o Jequitibá e a Majestade do samba. Na verdade aquele era o segundo desfile oficial; a mangueira havia vencido os carnavais não oficiais de 1932, 1933, 1934 com sambas de uma parceria formidável: Cartola e Carlos Cachaça. A Portela havia vencido o primeiro carnaval oficial, de 1935.

Além disso, nas palavras de Sérgio Cabral, “... desde 1932, a Portela já dava sinais de que, em pouco tempo, seria a maior e melhor entre todas as escolas de samba. Dispunha de compositores como Alvarenga, Boaventura dos Santos, João da Gente (...) até do próprio Paulo da Portela, do mais completo passista entre todos os que se apresentavam na praça Onze, Claudionor Marcelino dos Santos (tantas vezes citado nos sambas de Monarco), de uma bateria sensacional e de uma equipe de dirigentes muito eficiente (...). Mas dispunha, sobretudo, do maior dirigente da escola de samba da época, o extraordinário Paulo Benjamim de Oliveira...” .

A Tijuca que, segundo Sérgio Cabral, já havia feito boas apresentações em 1932 e 1933, 1934 e 1935 , acabou por apresentar o melhor desempenho no quesito harmonia sagrando-se campeã do carnaval de 1936. Sua mais reluzente medalha... até agora...

Mas a Tijuca conquistaria outra medalha para sua coleção naquele mesmo carnaval. E isso se deu a partir de seu samba, mesmo que esse samba não tenha sido premiado pelo regulamento.

E aqui cabe uma digressão sobre o gênero samba enredo.

É muito difícil, creio impossível, afirmar qual terá sido o primeiro samba enredo. Até por que ele não existiu. O samba enredo tal como o conhecemos hoje é resultante de um processo de construção.

Nesse sentido, a boa palavra é a do pesquisador Hiran Araújo ao se referir aos sambas dos anos 30 e 40 : “... podemos afirmar que o samba de enredo ainda não existia como gênero musical, simplesmente porque não havia a obrigatoriedade de contar o enredo. Entretanto, é preciso se reconhecer que, tomando como exemplo os ranchos carnavalescos (seus arquétipos), as escolas de samba começaram a tentar contar uma história em suas apresentações (nos adereços, nas fantasias, nos sambas)”.

Os sambas eram vários em cada desfile, e eram em grande parte versados. O tema principal era exposto e os mestres-de-canto versavam de improviso, sendo eles, por isso mesmo, figuras de grande destaque das escolas de samba daqueles anos. Eram versados tal como o samba da Portela de 1934, Mossoró, uma alusão ao cavalo brasileiro vencedor do Grande Premio Brasil no ano anterior. Na Portela Paulo puxava o samba; João da Gente era o “gogó de ouro” que improvisava, Alcides, o malandro histórico também. E não tinha som, não...

O primeiro carnaval oficial, de 1935, trouxe uma funda mudança no rumo dos desfiles por atingir a forma de composição e do canto do samba das escolas.E isto foi trazido pelo novo regulamento estabelecendo como quesitos obrigatórios: bateria, samba, originalidade, harmonia, e letra de versos. Este último quesito
acabou por eliminar o quesito versadores.

E aqui é que Marilia Barbosa e Lygia Santos “pegam pesado” pelo fato de aquela mudança estar acontecendo, e acontecendo justamente no ano em que o desfile era reconhecido pelos poderes públicos: “...De certo modo pode-se afirmar que uma forma de expressão folclórica foi violentada. Um todo foi privado de sua parte mais expressiva, no justo momento em que toda a cidade se curvava a seus pés e lhes saudava a vitória. É o caso típico de uma conquista social a condicionar uma adulteração estética. Na medida em que o samba resolveu penetrar na ‘outra cultura’, fazer parte de um contexto social que até então lhe era hostil, precisava adaptar-se aos padrões daqueles que o acolhiam, despojar-se, moldar-se à realidade ‘oficial’. O que fora até então espontâneo, passaria a ser planejado, Os versos de improviso, brotados inexplicavelmente da genialidade inculta daqueles a quem Paulo da Portela chamou de ‘anteprojeto de artista’ poderiam ser julgados dentro do tumulto de uma festa de massa?...”

Interessante registrar que a Mangueira de então já tinha sua própria marca, talvez em razão das características e da genialidade de seus principais compositores. Foi assim que mesmo antes do regulamento de 1935 a escola já desfilava com um marcante samba de autoria solitária de Carlos Cachaça, chamado “homenagem”, e que por seu conteúdo é considerado por Dr. Hiran Araújo um dos sambas por ele enumerados como “esboço” daquilo que um dia seria chamado de samba enredo, entendimento este que é unânime entre os estudiosos.

Com o fim dos versadores e dos improvisos, conseqüência do regulamento de 1935, os sambas ganharam uma segunda parte, digamos,fixa...constante.E com base no regulamento “quesitualizado”de 1936 a Mangueira apresentou o samba mais bonito e obteve o segundo lugar, com o sambaço de autoria de Cartola, Carlos Cachaça e Zé com Fome (o Zé da Zilda) cujo nome era “Não quero mais”, aquele mesmo que Paulinho da Viola gravaria décadas depois com o nome de “não quero mais amar a ninguém”. Por seu andamento,hoje é impossível imaginar que uma escola possa ter desfilado um com esse samba:

“Não quero mais
amar a ninguém.
Não fui feliz
o destino não quis
o meu primeiro amor.
Morreu como a flor
ainda em botão
deixando espinhos
que dilaceram meu coração”.

Mas que medalha é essa ?

Pois foi nesse ano aí que a Tijuca “trouxe” para a Praça Onze o enredo “Sonhos Delirantes”. E “trouxe” o samba “Natureza bela do meu Brasil” que foi o primeiro samba-de-desfiles-de-escola-de-samba a ser gravado, considerando que à época não existia ainda o gênero samba-enredo. Tal gravação ocorreu posteriormente no ano de 1941, fora do contexto carnavalesco, no mês de setembro, com o nome reduzido de “natureza bela” na voz de Gilberto Alves.

E é assim com essa moral que essa escola, localizada no bairro mais carnavalesco da cidade (salve Madureira, salve a Vila Isabel) do ponto de vista do número de escolas de samba ali existente, vai desfilar trazendo no peito de cada um de seus componentes uma coleção de medalhas, em busca de sua medalha maior, mais reluzente ainda que a do carnaval de 36, aquela que representará a vitória no carnaval conquistada, ai sim, no palco novo, no palco maior do carnaval brasileiro.

Vai Tijuca... Dá um show, Tijuca! Cheia de moral, com todo seu merecimento, buscar seu lugar na galeria dos vencedores do carnaval moderno do Rio de Janeiro. Esta sim, a medalha que falta em sua já tão significativa coleção.

Fontes:

As escolas de samba do Rio de Janeiro. Sérgio Cabral. Editora Lumiar, 1996.

Paulo da Portela - Traço de união entre duas culturas. Marilia Trindade Barboza e Lygia Santos. FUNARTE. 2ª edição. 1989.

Carnaval. Seis mil anos de história. Hiran Araújo. GRYPHUS. 2000.

Sambas da Mangueira, Luiz Fernando Vieira. Editora Revan. 1998.

História da Música Popular Brasileira – Gêneros – Samba de Terreiro e de Enredo. Editora Abril.

http://cravoalbin.ibest.com.br/

Sugestões para ouvir:

Homenagem – samba da Mangueira do desfile extra-oficial de 28/01/1934 no Campo de Santana.
Autor: Carlos Cachaça
Disco: Acervo pessoal, disco não identificado
Cantores: Não identificados

Sai pra lá Brocoió – samba versado da Portela de 1934
Autor: Cachacinha
Disco: acervo pessoal, disco não identificado

Natureza Bela do Meu Brasil – Samba da Unidos da Tijuca de 1936
Autores: Henrique Mesquita e Felisberto Martins
Disco: acervo pessoal, disco não identificado.
Cantores: Não identificados.

Sugestões para ouvir em casa:

Não quero mais amar a ninguém/Samba da Mangueira de 1936
Autores: Cartola,Carlos Cachaça e Zé com fome
Disco: O talento de Paulinho da Viola, faixa 22. EMI-Odeon, 1995
Cantor: Paulinho da Viola

Letra para acompanhar:

Natureza bela do meu Brasil

Natureza bela do meu Brasil
Queira ouvir esta canção febril
Sem você não tenho as noites de luar
Pra cantar
Uma linda canção ao nosso Brasil

É um sambista apaixonado
Quem lhe pede, natureza, nas noites de luar
Pra cantar
Uma linda canção ao nosso Brasil

É um sambista apaixonado
Quem lhe pede, natureza as noites de luar
Quem vive bem perto de você
Mas sem lhe ver...

Eu vejo as águas correndo
E sinto o meu coração palpitar
E o meu pinho germinado
Vem minha saudade matar

Natureza bela do meu Brasil (...)
É um sambista apaixonado (...)

* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval

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