25/08/2008 20:02:00

Memória da Folia: Aos não portelenses...

Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)


Chato ficar repetindo assunto. Sei disso...

Mas como resistir a isso se estou chegando agora da estréia "oficial" do filme da Velha Guarda da Portela?

Mesmo tendo sentido o filme muito maior e mais importante do que da primeira vez, não é exatamente dele, do filme, que quero falar.

Cheguei cedo. Fiquei ali com minha mulher olhando tanta gente jovem, o filme realizado por gente tão jovem, tão originariamente distante da cultura do samba, que fiquei pensando se outra escola poderia ter um filme como aquele realizado sobre ela.

A Mangueira, o Império, o Salgueiro, escolas repletas de tradições, certamente fariam. Acho que todas podem. Algumas dentro de seus limites, de sua existências mais curtas. Não se está tratando aqui de falta de material, de referências, de história...de tradições... Não! É uma questão de meio-de-campo.

O que se coloca aqui é saber que escola teria o mérito de ter tido um Paulinho da Viola para dar o ponta-pé inicial na formação e estruturação do conjunto da Velha Guarda?

Que escola teria o mérito de ter uma Cristina Buarque para dar continuidade, pesquisar, garimpar tantos sambas preciosos, gravá-los, renovando o grupo em qualidade e vigor?

Que escola teria o mérito de ter uma Marisa Monte para "continuar a continuidade"; pesquisar, garimpar tanta preciosidade, gravá-las, produzir discos como os de seu Jair e seu Argemiro e ainda realizar um filme como este.

E ainda levar os sambas da Portela, com novíssima roupagem,para todos os cantos do país, tal como fez com o samba do Bubu. Reunir em torno dela uma nova geração de cineastas, atraindo um público que não se conteve e aplaudiu o filme em "cena aberta" tantas vezes como se viu hoje.

Na saída, em meio a tanto aplauso, tanto entusiasmo de gente tão jovem, 'tão originariamente distante da cultura do samba', fiquei ali pensando...

São tantos os brasileiros tão distantes desses fatos. Quantos meninos, quantos jovens jamais verão este filme, jamais saberão que um dia existiram sambistas como Seu Argemiro e seu Jair.

Como, tal como nós, poderiam se orgulhar de tanta coisa bonita, de tanta cultura popular produzida por gente tão simples, tão orgulhosa de si. Tão orgulhosa de sua escola.

Ah! Se lhes fosse dada essa chance, esse acesso. Se não lhes fosse tirado sua própria história, sua ancestralidade, que pudessem, enfim, se encantar como tantos ali hoje, tantos tão jovens, tão entusiasmados, mesmo 'tão originariamente distantes da cultura do samba'.

Que escola teria um sambista como Monarco, camisa 10 perfeito, ali no meio-de-campo, atravessando as diferentes gerações de Paulinho, de Cristina e de Marisa, distribuindo o jogo – as histórias – norteando "garimpagens", rodando por aí, do Oiapoque ao Chuí, cantando histórias de seus ídolos, os antigos, contando glórias de sua escola como se fosse um menino orgulhoso contando histórias de seu
pai.

Só para concluir, e pedindo licença párea voltar ao filme, só um pitaco a mais. A fita poderia bem ter como título "O mistério da Portela" e até mesmo "O mistério de Oswaldo Cruz".

Que magia terá esse bairro, tão pequeno, tão escondido depois de Madureira, ou essa escola capaz de atrair, de fazer com que nascessem, ou lá fossem parar, compositores tão especiais?

Será que é uma certa tristeza, funda, ou uma carga imensamente afetiva-para-dentro, irreconhecível, inindentificável que só a Portela tem, ao contrário da exuberância da Mangueira que brota dentro dela e explode para fora? Será que a Portela é para dentro o que a Mangueira é para fora?

Quem definirá esse mistério?

Um mistério que no filme fica apaixonadamente marcado na figura de seu Argemiro. No coração de cada Portelense restará para sempre marcado como uma cicatriz. Uma cicatriz boa de se olhar , de se sentir...

Refiro-me a um momento do filme que não cansarei nunca de contar, e que os meninos que o esculpiram não cansem de dele se orgulhar: a presença marcante, única, simples, modesta de um artista do povo brasileiro diante de dois ícones mais-que-consagrados da cultura nacional.

Ele, que foi menino, preto purinho como poucos, iletrado como tantos, de pais rígidos. Ele diante de Vinícius de Moraes e de Chico Buarque de Holanda. Sua postura, sua altivez, sua autoridade-candura absoluta, tudo e tanto que lhe valeram uma resposta impagável de tão preciosa dada aos dois queridos poetas e, depois, um não menos formidável e comovente samba-resposta.

Coube então a Chico Buarque uma "quase queixa" ao ouvir um samba tão formidável, tão marcante: "_ Mas precisava tudo isto?

Eis o mistério do samba, o mistério da Portela...


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* Luis Carlos Magalhães é colunista do Dia na Folia

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