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Memória da Folia: Aos portelenses! Luis Carlos Magalhães foi à pré-estréia do filme 'O Mistério do Samba', sobre a Velha Guarda da Portela, e conta o que viu lá... Luis Carlos Magalhães
É preciso que tenhamos a clareza de que quem viveu e acompanha, nesses últimos 30 anos, a formação e a carreira da Velha Guarda da Portela está vivendo um momento da arte popular que jamais se repetirá em nenhum outro momento futuro.
Por mais que o samba se renove, por mais que com o tempo o próprio grupo substitua suas perdas, por melhor que sejam seus novos integrantes, nada se compara a suas formações iniciais. O filme teve o mérito, ou a ventura, de se ter iniciado quando o grupo ainda contava com dois de seus membros impagáveis, inesquecíveis, talentosíssimos e mais representativos: Jair do Cavaquinho e Argemiro Patrocínio.
E mais...muito mais... O que esperar de um filme cuja proposta é registrar o valor e a singularidade desse grupo que inaugurou uma nova forma de cultuar, cultivar e preservar a melhor memória do samba brasileiro, dando o exemplo a ser seguido por suas co-irmãs? Que tratamento, que abordagem dar a algo tão forte, a pessoas tão incomuns, a um conteúdo tão “sagrado”? E aí a palavra chave é “captação”. Ou seja, a dificuldade da empreitada, a arte do projeto, está em deixar os sambistas à vontade, tal como de fato são, com sensibilidade bastante para identificar o que são e como são individualmente e como grupo. Tarefa difícil? Se é... Ainda bem que qualquer um de nós sabe ”... que se for falar da Portela...” um dia, ou um filme é pouco para terminar.
Deixo como exemplo maior a cena em que Casemiro amacia o couro de sua cuíca com a cerveja do copo de Cabelinho (era do Cabelinho?), cena captada por uma câmera esperta, atenta, sensível, numa tomada saborosa, sem destaque, sem floreio, apenas um gesto a mais, comum entre tantos de uma roda de samba. Outro exemplo?
Era uma antiga namorada de Seu Manacéa que morava na rua B, atual Rua Ernesto Lobão, paralela à Rua Dutra e Melo onde a família está até hoje. Mas “tava” brava, a tia. Mais exemplos? O registro do jeito inimitável de dançar de Seu Jair, um tesouro da cultura portelense, nunca antes registrado, pelo menos que eu tenha visto, e o jeito “moleque”, “safado” de Seu Argemiro igualmente por mim nunca visto em imagens.
As “meninas” todas muito bem, com destaque para tia Eunice diante de uma platéia de meninos portelenses ensinando-os a dançar o “miudinho”, fazendo tradição. A narrativa é conduzida por Marisa Monte, ora entrevistando um aqui, outro ali, com ênfase em Paulinho da Viola que teve a honra e o mérito de ter reunido o grupo pela primeira vez no disco “Portela passado de glória: a Velha Guarda da Portela”, de 1970, da RGE. Paulinho fala, canta, conta tudo orgulhoso, com olhos brilhando. E vai ainda nos brindar com um dos melhores registros do filme que é sua aparição na TV em 1980 dançando o “miudinho”, rigorosamente trajado. Outro grande momento a resposta de Seu Argemiro a Vinícius de Moraes e Chico Buarque quando é desafiado a compor ali, “na hora”, um samba sobre...uma garrafa. E quando, depois, canta o samba que compôs mais tarde para eles.
Um samba irretocável, sábio, um samba com a melhor marca portelense, mostrando o ciclo da vida, descrevendo a vida a par com a natureza, mostrando o dia a cada dia se renovando e ele envelhecendo a cada dia, a cada mês. Vendo o mundo, a vida por ele passar todos os dias, enquanto ele passa pela vida uma única vez. E a gente fica sem saber se é mais comovente que “Sentimento”, de Mijinha, irmão de seu Manacéa, cantado por um jovem e “pintoso” Monarco em cenas de 1975 do tão importante programa Ensaio da TVE; ou que “A Saudade Me traz”, de Seu Argemiro e Alberto Lonato, que tantas e tantas vezes ouvi logo ao chegar em casa. E aí dá para sentir a importância da tarefa de escolher, entre tanta preciosidade. Que músicas mostrar de forma a registrar a insuperável qualidade de uma formidável geração de compositores? Certamente uma ou outra ali poderia ter sido incluída, mas o que está lá foi muito bem realizado cumprindo o objetivo de juntar tanta beleza com tanta representatividade no conjunto de uma obra portentosa e inesgotável. Claro que, como eu, muitos de vocês aí desse lado já ouviram aquilo tudo, as músicas, as histórias. Mas tudo é tão bom de ser visto, há momentos tão comoventes que cheguei a sentir “dez merrés” de inveja daqueles portelenses mais distantes, paulistas (e são tantos!), gaúchos, paraenses que terão, com o filme, o contato pela primeira vez com aquele mundo fascinante.
Sentir vontade de entrar nela, ficar ali olhando aquelas paredes, aquele chão, tentar perceber, imaginar tanto de tão emocionante e glorioso se passou ali dentro. Quantas vésperas de carnavais vitoriosos. Sentir que a Portela é tão grande, tão forte capaz de gerar um filme tão denso, tão belo, tratando tão pouco, quase nada, de carnaval e de desfiles. Tal fato se deu quando Seu Jair contou que, no começo de tudo, a Portela em lugar de bateria tinha um grupo de instrumentos de sopro; e foi dando, um a um, o nome dos que tocavam. Você sabia dessa? E não se falou mais de carnaval, nem de desfiles. A Portela é carnaval, sim, é desfile, sim, mas é muito mais que isso. O filme não deixa dúvidas, mas não deixa mesmo... Para não dizer que gostei de tudo, lamento que o filme tenha deixado escapar a oportunidade de colher o depoimento de Davi do Pandeiro, membro da Velha Guarda e também, tal como Casquinha e Casemiro, remanescente do grupo “Mensageiros do Samba”, liderado por Candeia e formado pelos três citados e mais Picolino, Bubu, Arlindão Cruz e Jorge do Violão.
Da mesma forma a oportunidade escapada de se fazer referência a Cristina Buarque, figura ab-so-lu-ta-men-te fundamental nessa história toda. Por fim a satisfação de registrar o momento “cara-do-filme”, o momento máximo da informalidade, do acaso, do astral do clima da fita. Um momento tão formidável que não faltarão aqueles que o imaginará previamente ensaiado. Tudo se passa em um local onde a Velha guarda toca e canta; um bar, um armazém, não lembro, ali mesmo em Oswaldo Cruz. Eis que surge passando por ali pela calçada uma senhora vinda das compras, com sacolas cheias nas duas mãos. Aí se dá a cena: Ela ouve o samba, pára, vê, sem soltar as bolsas, dá uma sambada estilosa, meio miudinho-meio sapateado, no melhor estilo “das antigas”, tudo isso por um brevíssimo segundo. E aí pára de sambar, “cai na real”, retoma seu rumo e segue para seus afazeres do dia: a cara do filme (se é que foi acaso mesmo; mas, se não foi, valeu a criatividade...).
Eu quero ver de novo. Um dia, à noite, tranqüilo, sem a correria de hoje. Vou comprar 200 gr. de amendoim-dragé, da Copenhague, como nos velhos tempos. Depois, quando sair, vou comprar o DVD e levar para casa. Vou guardá-lo junto com aquele bonezinho branco que seu Argemiro usa no filme e que ganhei de sua família no dia tão triste de sua morte. Vou guardá-los...p’ra toda vida.
Quando o ideal é conquistar FOTOS: • Todas as fotos foram copiadas do livro “A Velha Guarda da Portela”, de João Baptista Vargens e Carlos Monte, editora Manati, Rio, 2001, exceto as fotos 4 e 7.
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