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Memória da Folia: Atenção sambistas, vai nascer o samba-enredo * Por Luis Carlos Magalhães Ainda em tempos de samba-enredo, vale dar uma esticada na conversa que começou lá com os sambas da Unidos da Tijuca de 1933 e 1936; a conversa do primeiro samba enredo, ou melhor, aquilo que chamamos “processo de construção do gênero samba-enredo”. Como sabemos, o “enredo” vem lá dos desfiles dos Ranchos, ou seja, ali já existia a relação do tema com a música. A migração de lá para o samba estava por pouco, até mesmo porque a “primeira escola de samba”, a Deixa Falar do Estácio, como vimos foi fundada em 1928 e já no primeiro desfile de 1932 estava ausente, transformada que foi em Rancho denominado “Novel Rancho Estácio de Sá”. Seu enredo foi “A primavera e a Revolução de outubro”, seja lá isto o que for. Para trilhar essa trajetória que veio a dar nas obras primas que conhecemos (e nos ‘bois-com-abobra’ que também conhecemos),tomemos por base a já conhecida relação proposta por Hiran Araújo elencando aqueles seis sambas por ele considerados como “... esboços de samba de enredo...”: 1) O mundo do samba, da Unidos da Tijuca de 1933, sobre o qual já nos referimos no artigo anterior. 2) Homenagem, da Mangueira, de Carlos Cachaça, do pré-carnaval de 1934 do Campo de Santana, igualmente referido do mesmo artigo. Nele o compositor descreve, a surpresa que teriam Castro Alves, Olavo Bilac e Gonçalves Dias que “... nunca pensaram de ouvir seus nomes nos sambas algum dia...”. Curioso, ou melhor, curiosíssimo é que este samba originalmente não fora composto para descrever o enredo daquele ano que era “Uma Festa no Bonfim” (a Bahia, portanto). O carnaval era dirigido pelo lendário Massu. Houve alí uma saborosíssima inversão. E foi o próprio Carlos Cachaça quem contou para Marília Barbosa e Arthur Loureiro Filho para o livro ‘Fala Mangueira’. “... [meu samba] é de 1933. Quem estava organizando tudo [em 1934] era o Pedro Palheta. O nome era Uma Segunda Feira no Bonfim; Em cima do carnaval o Pedro Palheta se aborreceu e foi embora, largando tudo nas mãos do Massu. Não havia tempo para elaborar outro enredo, e nós, que não sabíamos nada da Bahia, ficamos um bocado atrapalhados. (...) Ai o Cartola lembrou ao Massu que eu tinha um samba que falava de Castro Alves e, na falta de tempo para fazer outro, ia ficar aquele mesmo como samba principal. (...) e se tinha Castro Alves, a relação com o enredo, que era Bahia, estava feita”. E mais, ainda segundo Carlos “...nós mandamos pintar uns quadros com os rostos dos poetas (Castro Alves, Olavo Bilac e Gonçalves Dias) citados na letra do samba e carregávamos como se fossem estandartes”. Como vemos,este samba, com o qual a Mangueira reivindica a primazia do samba enredo, pode até não ter sido o primeiro a descrever o enredo, mas certamente foi o primeiro (ou único ?) enredo a ser referido, a ser “alegorizado” a partir de um samba já existente, e não o contrário, como nos sambas de hoje. Pode ? Só não pode é perguntar o quê Olavo Bilac (carioquíssimo) e Gonçalves Dias (maranhense) estavam fazendo ali naquele enredo tão genuinamente baiano. 3) Natureza Bela, samba da Unidos da Tijuca, campeã de 1936, já referido no artigo anterior, e que fazia alusão ao tema “Sonhos Delirantes”. 4) Asas do Brasil. Em 1938 já existiam escolas de samba no Morro do Salgueiro, só não haviam sido fundidas para formar o “Acadêmicos. Mas já andava por lá um dos maiores nomes da história das escolas de samba: Antenor Gargalhada, eleito cidadão samba de 1937. Sua escola de então era a “Azul e Branco” que “veio” com o enredo “Asas para o Brasil”. Em seu samba destacava a figura de Santos Dumont. Cantava “... o orgulho desta terra, berço de Santos Dumont, nasceu e criou, viveu, morreu, Santos Dumont, Pai da Aviação”. O salgueirense Haroldo Costa é pura convicção: “...este, sem dúvida, um dos primeiros sambas de escola obedecendo a um enredo,forma que foi pouco a pouco sendo desenvolvida e adotada, aparecendo então o gênero, hoje consagrado, de samba-enredo”. Curioso é que naquele ano de 1938, não houve julgamento. A chuva foi muita...os sambistas foram ao carnaval e desfilaram até de manhã. Já a comissão julgadora... 5) Teste ao samba, da Portela de 1939. Como este é o samba que, na minha modestíssima opinião, tem mais “ingredientes” daquilo que hoje consideramos samba-enredo, calo-me e dou a palavra a Sérgio Cabral: “O desfile de 1939 voltou à Praça Onze, vencendo a resistência do Delegado Dulcidio Gonçalves que queria levar todos os desfiles das ‘pequenas’ sociedades para o Campo de São Cristóvão. Conseguiu tirar da Av. Rio Branco as apresentações dos Ranchos e dos Blocos (...). E a grande sensação do desfile das escolas foi a Portela. Pela primeira vez (grifo meu) uma escola de samba (com exceção da ala das baianas e dos mestre-salas e porta-bandeiras) apresentou-se com as fantasias inteiramente voltadas para o seu enredo. Até então, fosse qual fosse o enredo, não poderiam faltar os sambistas ostentando as cabeleiras brancas de algodão e as fantasias de nobres dos tempos imperiais. Naquele ano, porém, Paulo da Portela criou o enredo ‘teste ao samba’ e fez a escola inteira exibir-se com uniforme de estudante, enquanto fazia o papel de professor. O samba, também composto por ele [vide artigo de 08/10/07], tinha um pouco daquele non sense das letras das marchinhas carnavalescas de Lamartine Babo e, ao mesmo tempo, não deixava de ser um samba enredo, pois a letra tinha tudo a ver com o tema apresentado pela escola.” E mais um pouco do bom e ‘velho’ Cabral para deixá-lo reverenciar seu ídolo: “...Foi uma sensação, Paulo entregava um diploma e cada integrante da escola. O repórter do jornal O RADICAL assinalou em sua matéria sobre o desfile: ‘Um fato despertou a nossa curiosidade: foi o interesse que todo o público acotovelado na Praça Onze demonstrou em torno da figura de Paulo da Portela. Parecia que grande parte daquela multidão lá estava somente para aplaudir o famoso sambista, a quem não regatiava as melhores demonstrações de simpatia. Pode-se dizer assim que, depois da Portela e da Mangueira, Paulo da Portela foi a grande atração que a Praça Onze apresentou!’
Um samba que acabou fazendo história. Acabou por não ser cantado naquele carnaval, substituído por outro (Alto da Colina), levando a escola para um inaceitável décimo primeiro lugar, originando a “rebelião” dos sambistas dando inicio à fundação da nova escola: O Império Serrano. Mas isto é conversa pra outro dia. Aquele momento, que marcava o novo rumo do carnaval da Serrinha, marcava também a encruzilhada, a nova direção dos sambas dos desfiles. Não por coincidência, ali surgia um nome que marcaria para sempre a antologia do gênero: Silas de Oliveira. Surgia também outro nome quase do mesmo top: Mano Décio da Viola. Ambos autores do samba-que-não-foi-cantado. Os anos seguintes resultaram nesse produto marcadamente de temas históricos, produto das influências do Estado Novo e dos carnavais de guerra, temas que favoreciam a escola da Serrinha por sua formidável dupla de compositores. Não por coincidência o império iniciava ali um reinado de quatro anos como escola imbatível. Sempre com sambas-já-enredo ora de Silas, ora de Mano Décio, muitas vezes de ambos, como 61 anos de República, de 1951, consagrando o modo “lençol”de contar o enredo. Na minha visão, e aqui é só sentimento, sem nenhuma base documental para tanto, considero ser o samba Exaltação à Tiradentes, do império de 1949, o ponto central dessa encruzilhada. Um samba que é um primor absoluto de síntese, composto (sem Silas) por Mano Décio, Penteado e Estanislau Silva. Depois, por muito tempo Silas imperou. Seus sambas inesquecíveis consagraram sua escola por todo o país; fizeram dele unanimidade no mundo do samba. Ninguém como ele c(o)antou tão bem a nossa história. Ninguém jamais escreveu sambas como Silas... FONTES: • As escolas de samba do Rio de Janeiro. Sergio Cabral. Editora Lumiar – 1996. SUGESTÕES PARA OUVIR: Samba: Conferência de São Francisco LETRAS PARA ACOMPANHAR: Escola: Unidos da Tijuca – 1933 “Somos Unidos da Tijuca Não queremos abafar Escola: Mangueira - Pré-carnaval de 1934 Autor: Carlos Cachaça “Recordar Castro Alves Escola: Azul e Branco do Salgueiro / 1938 Autor: Antenor Gargalhada “Viemos apresentar Escola: Portela / 1939 “Vou começar a aula Cem divididos por mil Lá no morro Escola: Prazer da Serrinha / 1946 Autores: Silas de Oliveira e Mano Décio “Restabeleceu a Paz Universal Nosso Brasil sempre teve interferências
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