9/4/2008 01:46:00

Memória da Folia: Carnaval, simbologia e tradição

Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)

O seminário promovido pelo Instituto do Carnaval e pelo site Carnavalesco teve inicio na última sexta-feira com a mesa sobre os aspectos econômicos e simbólicos do carnaval. Não poderia ter tido melhor e mais esclarecedora abertura.

Coube ao Professor Lamartine Pereira, consultor do Comitê Olímpico Internacional, abordar a questão dos Megaeventos programados para futuro próximo, considerando, para tanto, o carnaval como estando assim classificado.
 
Como informações preliminares teceu considerações sobre o grau de envolvimento da cidade de Londres nas Olimpíadas de 2012, e resumiu: metade de uma das maiores cidades do planeta estará absolutamente comprometida com o evento, incluindo aí transportes (metro), comunicações, hotelaria e tudo mais).

Informou também a cifra inimaginável da ordem de 30 bilhões de dólares comprometida com as Olimpíadas de Pequim de 2008, destacando, em razão dos temas discutidos, que a maior parte desses recursos estará vinculada ao destaque e à divulgação da cultura chinesa.

'Ah! Deve ser pura propaganda política', disse alguém lá do final do auditório.

Sem descartar tal possibilidade, o consultor do COI informou que a decisão,longe de representar uma decisão isolada chinesa, fazia parte do entendimento geral e uníssono dos demais países representados nas discussões de megaeventos. A orientação já definida vai no sentido de que mais importante do que o legado físico ( estradas, transportes, equipamentos esportivos), tão buscado pelos países organizadores, será o legado cultural. Disse ainda que grande parte dos investimentos será para tanto destinada.

E o que isto tem a ver com o carnaval ?

Ora, quem poderá a esta altura, dizer aonde vai parar nosso carnaval? Que tamanho terá em breve nosso megaevento?

Longe de querer fazer futurologia, podemos, isto sim, fazer o exercício possível daquilo que está por acontecer, ou demorando a acontecer e que inevitavelmente acontecerá.

A começar pelo desequilíbrio da destinação de recursos para os diferentes grupos. O desperdício de espetáculo que é, por exemplo, a desfile do Acesso A. Se é verdade que o desfile do “especial” é o maior espetáculo da terra, o desfile do “acesso A” poderia ser, digamos, o quinto maior espetáculo. No entanto sabemos o quanto está longe disso, principalmente se considerarmos a absoluta precariedade em que as alegorias são construídas no Carandiru.

Parece verdadeiramente inconcebível que até tão pouço tempo nossas escolas, sim o grupo “especial”, faziam carnaval em barracões hoje inimagináveis.

Que potencial têm as escolas de samba de atuarem decisivamente em suas comunidades de forma a reduzir desigualdades, complementar programas educacionais e de saúde, além da formação de mão de obra e valorização cultural em seus domínios.

A vila olímpica da Mangueira e os programas sociais da Beija-Flor estão aí para ficar como exemplos de atuação social independente dos programas oficiais.

Por outro lado, quantos recursos são potencialmente possíveis de serem alavancados por um evento que hoje alcança um universo de 120 países, e um público consumidor da ordem de 300 milhões telespectadores. Quanto vale isso em moeda mercadológica na sociedade cada vez mais de consumo, cada vez mais globalizada. Alguém aí desse lado da tela pode imaginar?

Telespectadores-consumidores classificados em cariocas, fluminenses, brasileiros, latinos e estrangeiros em geral. Cada qual com seu segmento de mercado.

Quanta parede, quanta centimetragem, quantos segundos preciosos estão aí “virgens” resistindo à tentação da exploração e venda dos tão valorizados espaços comerciais de nosso megaevento? Até quando haverá resistência?

Em que momento surgirão especialistas capazes de contornar obstáculos como nas copas do mundo, olimpíadas e demais eventos tão rentáveis? Virando a outra face da moeda, em que momento o carnaval e as escolas de samba, do ponto de vista da qualificação gerencial, estarão prontos para esse salto? E o poder público, em que momento estará pronto para fiscalizar a aplicação dos recursos?

Que influências negativas ou positivas podem vir a ter tal enxurrada de recursos na vida das escolas, do espetáculo e na valorização de um patrimônio cultural tão singular, tão próprio de nossa gente? Precisarão as escolas se valer de enredos tão áridos, tão frios, tão desprovidos de emoção, para garantir recursos a suas alas não comerciais e a seus programas sociais?

Mas, afinal, onde é que estou querendo chegar? Perguntarão... Esse cara tá querendo leiloar o carnaval?

Minha preocupação reside no quanto o nosso megaevento ainda está engatinhando em relação aos demais megaeventos hoje já tão comercializados. Reside também no tamanho do assédio que virá por aí; e no quanto o nosso megaevento é culturalmente diferenciado de uma olimpíada ou uma copa do mundo.

Mas voltando ao seminário, de minha parte demonstrei minha preocupação no sentido de que o carnaval, um bem cultural tão caro, repito, não se transforme, nas mãos de descompromissados, em mera mercadoria na prateleira , como um sabonete, uma coca-cola ou uma batedeira de bolo.

Que possa vir a ser a comercializado, ou por qualquer forma desvigorado, sem que seja levado a consideração toda sua trajetória social, cultural, histórica e da importância que tem para o passado, o presente e o futuro da alma brasileira.

O carnaval como patrimônio, não como mercadoria...

Em contrapartida, procurei encontrar exemplos em fatos pontuais ocorridos em carnavais passados que APARENTEMENTE contrariam meus receios expostos ao público presente.

Digo e destaco o “aparentemente” porque do Professor Felipe Ferreira, também membro da mesa, incorporei muito bem incorporado que o carnaval é um “processo”. Entendo, assim, que o carnaval é um fato da cidade, de seu povo e de suas circunstâncias.

Nesse sentido citei o exemplo do carnaval de 1935. Até bem pouco antes, as escolas, recém fundadas, se comportavam como embaixadas, visitando-se mutuamente no carnaval, algumas já indo “brincar” descompromissadamente na Praça XI.

Em 1932, o primeiro desfile pra valer. Em 1933 o outro e em 1934 aquele desfile no Campo de Santana e outro no Stadium Brasil, ninguém até hoje sabe quem ganhou.

Em 1935 o poder público entrou pra valer na festa, enquadrando-a no pacote do modelo turístico-carnavalesco desejado: as Grandes Sociedades, os Ranchos , as Escolas de Samba, o baile do Municipal entre outras coisas que não me lembro. Tudo com local, data , verba definida e regulamento próprio.

Ainda nesse mesmo ano,o referido regulamento suprimiu o samba versado, improvisado, dos desfiles. Vale lembrar que esse quesito atribuía aos versadores das escolas grande prestígio pessoal pelo fato de estar com eles, em seus talentos pessoais, a reputação de criatividade e originalidade das comunidades por eles representadas. João da Gente da Portela, exemplo maior.

Pois o regulamento suprimiu o quesito, mudando o rumo dos desfiles.

Ora, brinquei, imaginemos que nosso seminário estivesse acontecendo naquela época. Quanta gente, certamente eu, estaria “cuspindo fogo” contra os alienados que insistem em interferir na cultura popular? Quem lhes dera tal direito ???, pergunta que faço até hoje.

E o que vimos...o tal empacotamento turístico fez a festa se expandir tanto, ganhar novas fronteiras a ponto de estarmos hoje discutindo temas como esse. E mais, a supressão da “segunda-versada” acabou por dar origem ao samba-inteiro que virou samba-enredo, essa marca maior da originalidade da festa.

Que outro lugar no mundo há uma festa em que pelo menos sessenta escolas (se contarmos só 10 em cada grupo) produzem mais de 600 sambas (se contarmos só 10 por escola em cada disputa) todos falando de si mesmo, contando suas próprias histórias, a história de sua gente, de seu povo, de seus heróis (tô exagerando?)?

E pensar que desses, digamos, 600 pelo menos 540 serão descartados ao longo da disputa, jogados no lixo da história do carnaval para nunca mais serem ouvidos, cantados ou lembrados. Será que algum lugar do mundo tem uma festa como essa? Ou será que estou exagerando?

Não tenho o menor receio de estar agora exagerando ao dizer que o samba-enredo é a marca maior daquilo que é a maior marca da nossa maior originalidade (e mesmo assim, continuo fazendo a tal pergunta; é mesmo muito complicado, isso).

Portanto, minha participação se deu no sentido de destacar o papel daqueles – e somos tantos! –que se julgam defensores dos valores culturais brasileiros em geral, e cariocas em particular,e ao mesmo tempo advertir sobre a importância e, acima de tudo, a necessidade de manter a mente aberta de forma a compreender a evolução da sociedade e das manifestações populares em seu dia a dia.

E foi então que Dr. Hiran Araújo, outro participante, nos contou que o carnaval de 1984, o primeiro do sambódromo, foi salvo por ninguém menos que Carlos Imperial, tido e havido como um tremendo fanfarrão. Mas isto é história para outro dia.

Vale assinalar que na discussão maior, sobre a viabilidade de um outro carnaval ao longo do ano, hipótese agora descartada, o professor Felipe Ferreira foi cruel. Disse que teria que ser uma outra coisa, uma outra festa. O carnaval é, tal como o natal, uma data. O carnaval tem que ser no carnaval. Se o carnaval for em outra data, que não seja o carnaval, não será carnaval, tem que chamar de outra coisa, mesmo com toda a argumentação na direção da geração de renda, geração de empregos e de eventos turísticos.

Saíram dali alguns entendimentos interessantes. Um no sentido de que megaeventos podem ter tratamento comercial, gerador de receitas, sem que para isso sejam descaracterizados , desfigurados e distanciados de suas tradições. Outro de que seria importante um encontro na campanha eleitoral entre candidatos à Prefeitura e a imprensa do carnaval, de forma a conhecer o grau de interesse de cada um, suas propostas, enfim.

Finalmente, e a partir da constatação de que o carnaval já vem sendo desdobrado em pequenos outros eventos,como a “apresentação dos enredos”, “apresentação dos sambas-enredos escolhidos”, “lançamento do CD dos sambas-enredo”, inclusive esses eventos relativos a outros grupos, considerando, acima de todos os outros, o período dos ensaios técnicos, e que todos esses eventos são eventos de uma mesma festa, de um mesmo carnaval, ficou o entendimento e a sugestão do professor Felipe no sentido de que ao invés de um carnaval desdobrado em dois, o aspecto simbólico da festa estaria preservado com sua” antecipação” (figurada,bem entendido) para o primeiro dessa série de eventos.

Começaria com uma bela e popular festa de “apresentação dos enredos”. Passaria por uma outra grande festa de “apresentação dos sambas-enredos”, cresceria com a potencialização dos “ensaios técnicos” (sem mexer em quase nada), culminaria com os dias de carnaval e terminaria com um desfile das campeãs que poderia muito bem,superados os obstáculos negociais, contemplar os campeões dos grupos de acesso A e B (isso aí não foi sugerido lá,não).

É muito claro que para isto, tais eventos complementares teriam que merecer tratamento bem diferenciado daquelas festas fechadas no Canecão. Quem sabe com utilização daquele espaço mais do que consolidado do Terreirão do Samba. Tão magnífico quanto super-sub-utilizado, bem ao lado da passarela, bem ali no coração da Praça XI, aquela mesma Praça XI, tão importante para nós, “...berço de nossas fantasias...” como diz aquele belíssimo samba da Portela, modéstia à parte.


• E-mail para contatos: lcciata@hotmail.com


* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval

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