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Memória da Folia: Carta à Danielle Nascimento Luis Carlos Magalhães saúda a chegada de Danielle, que marca o reencontro da Portela com a família Nascimento. Duas histórias que o tempo transformou em uma única saga Luis Carlos Magalhães Rio de Janeiro, 2 de abril de 2008 Querida Danielle, Na verdade só queria lhe dizer como estou feliz. Mais... Fico aqui pensando como deve ter tanta gente tão feliz nestes dias, principalmente os mais antigos que viveram um pedaço maior da história da Portela, da nossa querida Portela... Aí fico pensando... que tantas voltas o destino dá. Um dia, e quanto tempo já passou, seu avô... quer dizer seu bisavô, viu difíceis aqueles dias da virada do século. Os tempos estavam mudando. O mundo mudava. Ventos novos da industrialização, do novo modo de produção, as novas funções da cidade. O país mudava, eram os tempos modernos... Quantos brasileiros, como Seu Napoleão Nascimento, deixavam para trás a história de suas vidas para corajosamente enfrentar o novo desafio dos novos tempos. Aquela pequena Queluz, o Vale do Paraíba, todos seus valores rurais, tudo tinha fim. Ele, como tantos brasileiros, não poderia imaginar como a cidade lhe seria hostil. Não, a cidade...mas os tempos. Ele, Danielle, o seu Napoleão, seu bisavô, teve mais sorte. Foi parar no Lins de Vasconcelos, no morro da Cachoeira Grande, naquele comecinho de século. Pior sorte tiveram aqueles que vieram de toda parte - o país que se transformava - e foram cair no centro da cidade. Seriam friamente expulsos de lá pelo “bota abaixo”; abririam passagem para a cidade moderna que surgia. Gente como aquela, Danielle, como seu bisavô, não tinha vez, não tinha lugar naquele modelo de sociedade que se desenhava. Gente que acabaria subindo os morros ou indo para o distante subúrbio. Ainda bem que seu Napoleão não precisou passar por isso, levando sua família direto para o subúrbio. Viúvo, vinha para a capital trazendo seu filhos Napoleão, o Nôzinho, que viria a ter um lendário bar junto de onde é hoje a Portelinha, Vicentina (que ainda não tinha aprendido a fazer feijão) e Natalino, que se tornaria uma lenda carioca. Sua tia-avó Benedita também veio. Veja, Danielle, que veio também uma outra tia-avó chamada Hortência . Ela que lá adiante, muito depois, teria uma filha chamada Maria Elisa que se tornaria, em 1939, primeira-dama da Portela, pode? – ô família! Do Lins para Oswaldo Cruz, bem perto de Madureira. Sua tia-avó Benedita foi morar na Rua Maia Lacerda, no Estácio. No número 29, lá onde está hoje um posto de gasolina. O que você não sabe, Danielle, é que tinha que ser no Estácio. Se ela não tivesse ido morar lá, tudo ia ser bem diferente. Provavelmente você não seria hoje a nossa Porta-bandeira. Para ser sincero, não sei nem se a Portela teria existido como a conhecemos hoje. Enquanto isso, lá pela virada do século, um pouco antes, contingentes enormes de trabalhadores, transformados em força de reserva, sobrevivia á espera de novas vagas. Eram trabalhadores vindos de todo o país se virando para se manterem vivos e a suas famílias, tal como ele, seu bisavô: um trabalhador migrante chamado Napoleão José do Nascimento. Do outro lado da cidade, alguns anos antes, os baianos, tal como Seu Napoleão, tiveram que deixar toda uma história na Bahia e migrar para o Rio; também para corajosamente enfrentar o desafio dos novos tempos.Primeiro para a Pedra do sal, depois para as proximidades do extinto Largo de S.Domingos, junto à Rua da alfândega, e depois para a Praça Onze, berço do samba – maxixe de Donga, de Sinhô e tantos outros.
Sabe, Danielle, essa história toda, da sua família, é muito, mas muito mesmo, misturada com a história da nossa querida Portela. Veja que aquela sua tia Maria Elisa, filha de sua tia-avó Hortência, misturou mais ainda as histórias ao se casar em 1939 com Paulo da Portela, o maior de todos os portelenses. Caramba, acabei de descobrir que Paulo da Portela era seu tio-avô. É isso mesmo? Seus pais devem ter lhe contado que ali no Estácio, atrás de onde sua tia-avó Benedita foi morar, tem um morro chamado Santos Rodrigues, junto à Rua de São Carlos. Era um local de criação de gado. Com as transformações da cidade aquele foi um dos primeiros morros a ser ocupado pela nova massa urbana carioca, passando a ser conhecido como morro de S.Carlos. No morro se jogava o “samba duro”, a batucada. No largo, nos anos seguintes se reuniria próximo à Escola Normal, antiga escola Estácio de Sá e próximo à casa de sua tia-avó Benedita, uma geração de talentos que daria uma nova forma ao samba amaxixado da praça XI, de forma que pudesse ser cantado e “marchado” ao mesmo tempo à maneira dos ranchos, em passo marcado pelo “surdo”. Ali pela primeira vez um bloco seria chamado de Escola de Samba. Era a Deixa Falar que nascia. Em Oswaldo Cruz a casa de seu bisavô, além de muito concorrida, era o local dos cultos por ele organizados. Depois dos cultos começavam as festas e comemorações. Sua tia-avó Benedita não perdia uma, estava lá em todas. Ela e todo aquele povo que a cada dia chegava de toda parte, sobretudo de Minas e do interior fluminense. Na década de 1920, Paulo e sua família se mudavam do centro da cidade para Oswaldo Cruz, mas o samba ainda não havia chegado lá. As festas da casa de seu bisavô e da casa de D. Ester eram animadas pelo jongo, herança da cultura dos escravos de origem bantu, utilizados nos cafezais do Vale do Paraíba. Imagina, Danielle, que quando sua tia-avó ia a esses encontros levava com ela aquela turma do Estácio que já tinha muito “samba na veia”. Vinha Baiaco, vinha Brancura, Aurélio, Ismael Silva. Ali Paulo travaria seu fundamental contato com a turma do Estácio, e ali, por aquelas festas, o samba entraria por Oswaldo Cruz, para nunca mais sair. Ela, Danielle, sua tia-avó, tal como um beija-flor, alçou seu vôo da pequenina Queluz, beijou a flor do Estácio, colheu o grão de pólen do samba e o deixou nos terreiros férteis do jongo de Oswaldo Cruz. Só pra você ver como era, muito mais tarde, ao compor o samba “Coleção de Passarinhos”, que seria depois gravado por Clementina, Paulo exaltava esses bambas citados, presentes às festas, incluindo Lino, que é como Heitor dos Prazeres era conhecido no Estácio. Era um tempo em que Paulo era ali conhecido como o Mano Paulo:
Vida que segue... Ali naquela mesma casa dos cultos e do jongo, debaixo daquela mangueira, a Portela foi fundada e partiu para sua glória. Sua mãe... bem sua mãe, Danielle, você sabe... morava em Dona Clara, hoje Madureira. Morenaça!!! Rubem Confete, que também era de lá, disse que ainda menina Wilma já desfilava no bloco Unidos de Dona Clara. Depois foi para a União de Vaz lobo, lá pelos anos 1950.
A “boite” Night and Day, localizada no subsolo do Hotel Serrador, na Cinelândia, então considerada a Broadway carioca, movimentava a noite com uma série de musicais voltados para brasileiros de toda parte. Eram Senadores, Deputados, empresários que formavam o “grand monde” da então capital da República. E a menina Wilma estava lá. Era seu primeiro compromisso profissional. O roteiro do show previa a apresentação com a bandeira de uma escola de samba.. A bandeira escolhida foi a da Portela, escola heptacampeã que disputava com o Império Serrano, tetracampeã, o prestígio maior do carnaval carioca que então amadurecia. Aquele ano havia sido o do carnaval histórico em que a Portela, ao obter nota dez em todos os quesitos, jamais se deixaria igualar. O resto foi conspiração dos deuses do carnaval. Eram os tempos em que Natal imperava em Madureira. “O cara” da Portela. Pois é, Danielle, sabe como era seu avô. Natal soube que uma desautorizada usava a bandeira de sua escola e partiu “lá para baixo”. Chegou, sentou e viu tudo, era tudo verdade; e se preparou pra acabar com a festa, só esperou acabar o samba para entrar em ação. Mas, não deu tempo. Com o espírito já desarmado, caiu-se de encantamento. Sua surpresa só não foi maior do que a que lhe estava reservada para pouquíssimos minutos depois. Conta a lenda que nunca ninguém dançou como Wilma naquela noite. Parecia a última vez.
A história do samba não registra a reação de Natal e nem em quê ele ficou pensando. Sabe-se que, tempos depois, os deuses do carnaval ou o destino, ou ambos, os fizeram se encontrar. Mas seu pai, Danielle, também não era fácil. Há muito andava de olho naquela morena pelas ruas e pelos bondes de Madureira. O “bote” aconteceu de madrugada... Sua mãe estava no trem voltando do show e seu pai indo a um Pic-Nic, muito comum naqueles dias. E tudo começou naquele encontro no trem da central. Começava ali e nunca mais acabaria... Só depois Wilma veio saber que aquele jovem chamado Osmar era Osmar Nascimento, o Mazinho da Portela, filho mais velho de Natal, aquele mesmo Natal para quem dissera um rotundo “não” dois anos antes. Logo depois Mazinho quis apresentar sua namorada a seu pai e a levou áquela mesma casa que lá está na Carolina Machado. E o novo encontro se deu. Natal e Wilma ao se identificarem, lembraram o episódio do “Night and Day” e riram muito. Wilma conquistava pai e filho para em seguida conquistar a Portela. E depois conquistou a todos; a todos nós que a vimos tantas vezes , que esperamos tanto por vê-la, a cada carnaval,como a uma deusa que sabíamos que viria. Dançou, dançou... tanto que virou Cisne. Como seria bom saber dizer, conseguir dizer aos jovens como era bom, a magia, o sabor que tinha ficar lá de cima na arquibancada esperando a Portela. E vê-la passar, ela Wilma, ela Portela. E assim você nasceu.
Depois, em 1984, a Tradição que levou os dois filhos de Natal; Nézio Nascimento e Osmar Nascimento, seu pai. Levou Wilma, Vicentina e outra legião de outros portelenses descontentes. Osni, o outro filho de Natal, se afastou.
E aí, Danielle, fico aqui pensando...pensando e rindo. Imagine o clima de algumas décadas atrás, nos carnavais de 1948 até 1953, quando a rivalidade entre Portela e Império podia ser sentida em cada rua de Madureira. Imagine se Natal, profundamente irritado com Irênio Delgado,o cabuloso dirigente imperiano, resolvesse naqueles dias consultar uma cartomante. Imagine, Danielle, se a cartomante dissesse para Natal : “ as cartas não mentem, jamais. Haverá um dia no futuro distante em que sua própria neta empunhará a bandeira de sua arqui-inimiga e, linda , com um traje maravilhoso, levará a escola ao campeonato. E trará a alegria de volta para Madureira”? Será, Danielle, que você é capaz de imaginar tudo que ele iria dizer pra seu pai e para sua mãe? Pergunte a sua mãe. Ela bem saberá lhe dizer. A trama continuou, o destino “jogou pesado”. Sem que até hoje se saiba direito a razão, logo após o carnaval,a Porta- bandeira Alessandra pediu desligamento da escola e, logo depois, foi a vez de seu par Diego Falcão. Ficava vago o lugar que o destino e os deuses carnaval estavam guardando para você, e para isto mandaram sua tia avó ir morar no Estácio, e não em Oswaldo Cruz. como o resto da família. Mas aí, Danielle, confesso que fiquei com pena de você. Sei que por formação familiar você não iria deixar gratuitamente o Império, escola que lhe acolheu. E aí veio o golpe que faltava. Quando você pediu que a escola contratasse o seu par, Fabrício, a sorte estava lançada. Os dados estavam lançados. A direção do Império preferiu não aprovar o restabelecimento do casal e acabou por abrir para você a porta de saída do Império e a porta de entrada na Portela. Só faltava a direção da Portela concordar com a vinda do Mestre-sala Fabrício. O resto já sabemos... Agora vou ficar esperando o carnaval chegar. Vou ficar esperando os portões da concentração se abrirem e a escola se aproximar. Quero ver o setor 1 identificar em você as glórias da Portela, o carisma de sua mãe, a presença de seu pai; a mística de seu avô e a dedicação e a garra do velho Napoleão. Bem, Danielle, aqui me despeço. Dê um grande beijo em sua mãe.
Que deixe seus olhos brilharem muito, repletos do maior e mais belo orgulho ao saudar o setor 1 como a dizer a todos que, em suas mãos, aquela bandeira carrega em si, naquelas cores, a mais bonita história, entre tantas tão bonitas, da tão bonita história do samba; o samba do povo brasileiro. Mas diga isso para todos, Danielle. Para os portelenses diga ainda que você representa ali o reencontro marcado da escola com a família Nascimento. E a cada palmo de pista, dance...dance...dance muito; com certeza sua mãe estará ali por dentro de você . E diga, junto com ela, que a história da sua família, a história da sua escola, é um pouco da história de cada um de nós, povo do samba, toda nossa gente, de todas as cores, de todos os ”acessos”. Uma gente mestiça, mulata, misturada que transformou dias tão difíceis, como aqueles distantes do seu Napoleão, criando, resistindo, inventando, fazendo de sua pequena festa da Praça XI a maior e mais bonita de todas as festas do mundo... a festa do povo brasileiro. Com carinho, do seu Luis Carlos Magalhães
Sugestão para ouvir: O CONDE Encontrei Como é
1) Paulo da Portela. Traço de União entre duas Culturas. Marilia Barboza e Lygia santos, Funarte,1989. 2)A Velha Guarda da Portela. Carlos Monte e João Baptista Vargens. Editora Manati. 2001.
1) Casamento de Paulo da Portela e Elisa, tia-avó de Danielle, em 1939. Do livro citado de Marília Barboza e Lygia Santos. 2) A casa de Seu Napoleão, na Estrada do Portela, ao lado da mangueira onde a Portela foi fundada (em pintura de Caetano). Do livro “Escolas de samba”: árvore que perdeu a raiz. De Candeia e Isnard. Editora Lidador. 3) Wilma, antes de ser Nascimento, antes de virar Cisne. Do livro citado de Candeia e Isnard. 5) Candeia, compondo. Do livro “Candeia - Luz da Inspiração. De João Baptista Vargens. Funarte,1987. 6) Vicentina, tia de Danielle, ao fundo do palco com a Velha Guarda da Portela, Monarco e Paulinho da Viola. Do livro citado de Carlos Monte e João Baptista Vargens. 7) Danielle Nascimento, em 2008, Império Serrano, campeã do acesso.
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