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Memória da Folia: Edeor de Paula supera Carlos Drummond de Andrade Luis Carlos Magalhães busca dois temas 'incarnavalizáveis' e lembra a beleza de dois sambas feitos para duas tragédias brasileiras Luis Carlos Magalhães Era um “pagode” tipicamente de fundo de quintal em Arraial do Cabo, lá pelos anos oitenta, logo depois da Copa da Espanha. Batizado, coisa e tal; de tardinha já rolava a segunda rodada do peixe; a roda de samba ia longe. Eu lembro que foi a primeira vez que ouvi o samba “Testamento de Partideiro” do Candeia. Quem cantou foi um “cara” que disse que havia sido quarto-zagueiro do São Cristóvão. O cabelo dele era igualzinho ao do Nunes. Lá pelas tantas alguém pediu “Os sertões”, da Em Cima da Hora. O samba estava ainda bem fresco na memória de todos. Aí, o “do cavaco” mandou: - “Sol escaldante, terra poeirenta, dias e dias, noites e noites sem chover...”; e foi embora, todo mundo cantou. Percebi o equívoco, mas... fiquei na “minha”. Depois alguém pediu outro, outro e outro e o samba foi em frente, foi embora. Já quase no final, ao me despedir, o dono da casa, gentil, me disse que pedisse um samba de saideira. Não conversei... pedi pra tocarem “Seca do Nordeste”, da Tupy de Brás de Pina, só para ver o que ia acontecer. Aí o “do cavaco” demorou um pouco, deu uma beliscada na corvina-de-linha, e pediu para alguém cantar o comecinho do samba pra ele lembrar. Não deu outra, o mesmo cantor mandou: _ “Marcados pela própria natureza, o Nordeste do meu Brasil (...)”. Todo mundo cantou, direto. Como vimos, o samba “Os Sertões” de Edeor de Paula, da Em Cima da Hora de 1976, foi cantado integralmente como se fosse o “Seca do Nordeste”, de Gilberto de Andrade e Valdir de Oliveira, da Tupy de Brás de Pina de 1961. O mesmo sucedeu a “Seca do Nordeste”, cantado como se fosse Os sertões. Ninguém morreu por causa disso; muita gente boa confunde até hoje. O curioso é que ambos os sambas têm como temática, direta um e indireta outro, a seca do nordeste. Mais curiosamente ainda, ambos os acontecimentos se deram no quarto final do século XIX, e na mesma região nordestina do Brasil. Seca do Nordeste, de 1961, trata do horror ocorrido no sertão cearense no período que vai de 1877 a 1879. A pior seca já ocorrida no país, vitimando em torno de 500 mil sertanejos. Os sertões, de 1976, trata do conflito ocorrido no sertão baiano, em Monte Santo, Arraial de Canudos, nos anos de 1896 e 1897. Como sabemos, o episódio, dos mais dramáticos de nossa história, com cerca de 30.000 mortes de ambos os lados, foi imortalizado por Euclides da Cunha, em sua monumental obra “os sertões” escrita em 1902, nunca igualada tanto do ponto de vista jornalístico como histórico e social. Qual dos dois sambas terá sido o mais bonito? Qual dos dois sambas terá propiciado desfile mais bonito? Curioso lembrar, agora neste pós-carnaval de 2008, que não estaríamos exagerando se inventássemos que se Paulo Barros tivesse escolhido um ou outro tema, não faltaria gente pra dizer que enredos tão dramáticos, com tanta gente morta, não seriam carnavalizáveis, certo? Mas, deixa isso pra lá... O samba mais bonito, deixo pra depois. Quanto ao melhor desfile, vamos lá, Como vimos, foi o carnaval de 1961. Na Rio Branco deu Mangueira: “Reminiscências do Rio Antigo”, sambaço de Helio Turco, Pelado e Cícero. Já com Jamelão. Menino ainda, vi o desfile da Mangueira lá no Posto Seis. Vi Neide e Delegado, passaram pertinho de mim. A segunda porta-bandeira era Mocinha,pode? Mestre Valdomiro...
No grupo principal as quatro grandes, até então sempre nos quatro primeiros lugares; e ainda a Capela, Aprendizes de Lucas, Mocidade, Caprichosos e até uma Acadêmicos de Bento Ribeiro que depois sumiu. Eu estava lá porque passava férias sempre em Copacabana, com meus tios. Naquele ano a minha escola, Unidos do Cabuçu, havia vencido o grupo de acesso com um dos sambas mais bonitos que já ouvi. O enredo era “Relíquias do Rio Antigo”, mas nós chamávamos o samba de “O velho Rio”.
Ah! Esqueci de dizer que o sábado das campeãs era no Posto Seis. Mas o que importa mesmo é que a Tupy de Brás de Pina tirou em segundo no desfile da Praça Onze e subiu junto com a Cabuçu. Curioso que, neste ano, no Grupo de Acesso ocorreu algo absolutamente inédito na história dos desfiles: um único bairro – o meu bairro, Lins de Vasconcelos – foi garbosa e brilhantemente representado por nada menos que quatro escolas. Vou repetir: quatro escolas, todas do mesmo – e tão pequeno - bairro: Unidos do Cabuçu (1º), Filhos do Deserto (5º), Flor do Lins (10º) e Aprendizes da Boca do Mato (13º), modéstina à parte é claro! A Filhos do Deserto e a Flor do Lins, dois carnavais depois, já unificadas, desfilavam com o novo nome de Lins Imperial. A Aprendizes da Boca do Mato era nessa época a escola de Martinho, o mesmo que depois seria da Vila. Não duvido que o samba daquele ano já tivesse sido feito por ele. No Grupo de Acesso tinha ainda a Vila, as duas Tijucas, a Beija-Flor, Tuiuti, a União de Vaz Lobo, além da lendária Cartolinha de Caxias.
E pra quem estiver sentindo falta da Imperatriz, da Ilha e do Estácio, saibam que estavam todas na “poeira”, no grupo 3, desfilando junto com a “Paraíso da Floresta”, “Boa União de Coelho da Rocha” e “Unidos de Morro Azul”. Já com a Em Cima da Hora, no desfile de 1976, deu tudo errado. No grupo especial as quatro grandes já não eram tão maiores assim, muito menos eram as únicas vencedoras. A Imperatriz e a Mocidade não tardariam a entrar na festa que a Beija-Flor naquele ano acabava de entrar.
Só tinha “gente grande”. Império tirou em sétimo, com Fernando Pinto e tudo. A Ilha de Maria Augusta, em 9º, logo depois Estácio.
Dali para baixo, um massacre. Caiu a já então Lins Imperial, a Unidos de Lucas, a Em Cima da Hora, com todo aquele samba, e aquela mesma Tupy de Brás de Pina de “Seca do Nordeste”. Quanto ao melhor dos dois sambas... muito difícil responder. Ambos antológicos. Muito difícil, mas não tenho a menor vacilação em optar por “os sertões”. Trata-se aqui, além de um samba inesquecível, de um samba que representa um formidável exemplo daquilo que é a qualidade maior na arte da literatura: A síntese. Sabemos que o tema de “Os sertões” foi escrito em dois volumes, descrevendo o conflito sob três óticas: o homem, a terra e o conflito propriamente dito. Um calhamaço! Fico imaginando se tivesse havido um concurso, reunindo os maiores escritores do país, pra demonstrar capacidade de síntese, no menor texto possível, de modo a dar uma imagem, uma fotografia, digamos, daquele conflito.
Não tenho dúvidas em afirmar: Edeor de Paula, com seus vinte e quatro versos, teria superado naquele quesito Carlos Drummond de Andrade, Castro Alves, Cecília Meireles e tantos outros maiorais com todo seu único e absoluto poder de síntese. Fico pensando, imaginando o grau de dedicação, de obstinação que Euclides da Cunha empenhou, quantas noites insones escrevendo... escrevendo, voltando, corrigindo, refletindo,relendo e depois chegar um poeta popular e jogar tudo, traduzir aquilo tudo, reduzir tanto trabalho a vinte e quatro versos. Ainda bem que Euclides da Cunha morreu sem saber que Edeor de Paula conseguiu fazer tudo isso, provavelmente, sem nunca ter lido "Os Sertões". Ou será que leu? Sugestões para ouvir: - Seca do Nordeste Sol escaldante, terra poeirenta
Marcados pela própria natureza Foi no século passado Os jagunços lutaram Referências: SITE: www.galeriadosamba.com.br Foto 1: Mestre Sala e Porta Bandeira da Mangueira, em 1961, durante os ensaios; Foto 2: Mocinha segunda Porta Bandeira da Mangueira do desfile de 1961; Foto 3: Clóvis Bornay: destaque da Em Cima da Hora fantasiado de Dom Sebastião ressurgido em Canudos; Foto 4: Irene e Bagdá MS / PB da Portela no desfile de 1976. Ela sucessora de Wilma; Foto 5: Neide Porta Bandeira da Mangueira no desfile 1976; Foto 6: Elza Soares, grávida, cantando Menininha do Gantois, com Ney Viana. Foto 7: Edeor de Paula. Crédito: Wellington Lopes / Site www.obatuque.com • E-mail para contatos: lcciata@hotmail.com
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