31/12/2008 01:00:00

Memória da Folia: Feliz Ano Novo, Dona História...

Colunista Luis Carlos Magalhães conversa com especialista e faz passeio no tempo para mostrar os caminhos que o Carnaval pode seguir

Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)
 


 

Cedinho o telefone tocou...

_ Alô, aqui é a dona História, como vai ?

_ Ô Dona História, que maravilha...   a senhora sumiu ....

_ Não, não sumi, não. Estou só olhando, acompanhando, e estou muito animada...

_ Animada como que, Dona História?

_ Ora, com o carnaval, claro....

- Que que a senhora está achando. Por que tão animada?

_ Algumas coisas estão me cheirando bem...

_ Por exemplo?

_ Em primeiro lugar a Mangueira em paz, isto é o melhor de tudo. Independente do resultado; cheguei a achar que aquele terremoto ia durar muito tempo, agora vejo tudo muito mais calmo.

_ Mais, Dona História... Quero mais...

_ O Salgueiro está vivo, vermelho forte, o Império vivendo um bom momento... A Portela a cada dia mais altiva.. 

_ E as outras, Dona História?

_ As outras não sei direito, não dá para acompanhar tudo. Há muito tempo não sinto uma presença tão equilibrada das quatro grandes, há muito tempo mesmo. Nos últimos anos pelo menos uma, às vezes até duas e até três em baixa. Isto que está me animando.

_ Mas por que isto é tão importante para a senhora? E a Beija-Flor, e a Imperatriz, a Mocidade... todas?

_ Meu filho, lá vem você me interpretando mal. Acho que todas são importantes: todas, sem exceção. Mas acho que cada uma delas será ainda maior, será ainda mais forte, sempre e cada vez mais bonita se fizerem parte de um carnaval em que as quatro grandes estiverem fortes, grandes, sempre e cada vez mais bonitas.

_ Explica melhor aí....

_ Se a Viradouro ganhar, ou a Vila, ou Tijuca a vitória de cada uma delas será tanto maior quanto mais belas estiverem a Mangueira, o Salgueiro e o Império, principalmente a Portela. Quando assim acontece a vitória delas é também a vitória do carnaval.
 
_ Eh! Eh! Dona História... porque principalmente a Portela ?

_ Tá vendo, lá vem você de novo. Da outra vez você disse que eu era Mangueira, agora deve estar achando que sou Portela.

_ Tá bom, dona História, desculpe....já não está mais aqui quem falou, mas eu achei que a senhora ta botando um peso a mais na Portela....

_ Ó, vou desligar, hein !

_ Não, não, não desliga, não... eu paro, juro....

_ Eu sei que para você e para seus leitores fica difícil imaginar que para mim, ou melhor, para a história, não tem nenhuma importância quem vai ganhar este ano. Isto é apenas um detalhe, um grãozinho de areia nesta história tão bonita dos desfiles que o povo brasileiro construiu.

_ Pôxa, Dona História, eu fico emocionado ao saber como a senhora gosta de escolas de samba.

_ Meu filho, eu ando por aí há mais de cinco milhões de anos. Já vi de tudo. Vi a Grécia marcar as bases desta civilização, os fundamentos... já vi o Império Romano durar mil anos, já vi os árabes ficarem 800 anos na Espanha e Portugal, o Império Persa, até ver este imperiozinho americano aí, que só existe há pouco mais de cinquentinha anos e tem essa marra toda.

_ Vi a treva da idade média, a exuberância do renascimento, a luz da revolução francesa. o horror das duas guerras. 

_ Caramba, dona história, sua vida não é fácil...

- Pois é, meu filho... e os desfiles só começaram na década de 30 do século passado. Até hoje são o meu maior prazer, minha maior alegria. Às vezes eu fico me perguntando como pude agüentar tanto tempo sem as escolas... tantos séculos...tantos milênios....

_ Fico imaginando, dona História, quando vai chegando janeiro, fevereiro...

_ Eu gosto mais do carnaval mesmo; o imediatamente antes e o imediatamente depois. São os momentos em que mais me divirto, que fico mais despreocupada... mais livre...

_ Mas e antes, a senhora se preocupa com o quê?

_ Ah! Me preocupo mais com a Portela. Se está tudo bem, se o samba é bonito, cadenciado, sincopado, se a bateria está envolvente, se os passistas estão livres para sambar, se as baianas estão felizes e se bandeira será conduzida com graça e altivez.

_ Desculpe, Dona História, não fique brava comigo, mas será que eu ouvi direito? A senhora só citou a Portela, pelo menos foi isto que eu ouvi....

_ Não, não é só a Portela...é mais a Portela... o resto são minhocas da sua cabeça. Agora vou desligar, quero preparar umas flores para Iemanjá. Feliz ano novo para você e para todos os sambistas do Brasil.

_ Tá bom, Dona História, p’ra senhora também, foi um prazer ouvi-la novamente, mas ....

_ Mas... o quê ... você que me dizer mais alguma coisa?

_ Não, não, Dona História... n’é nada não...

_ Desembucha, menino: fala!

- Não, Dona História, é que eu fico curioso com essa coisa que a senhora tem com a Portela, sabendo que a senhora nem é Portelense. Eu fico curiosíssimo, sabe? E as outras, dona História? E as outras escolas?

- Ah! Meu filho é tudo tão simples; é como te falei, para mim não importa quem vai vencer hoje. Deixa-me tentar explicar melhor...

_ Por favor, Dona História, eu só quero entender isso direito.

_ Eu não quero saber qual é a árvore que vai dar o melhor fruto, ou a flor mais bonita este ano. Eu me encanto com todas as flores e saboreio todas as frutas deste pomar. O importante para mim é a raiz destas árvores, que sejam fortes, grandes e fundas; que seus troncos sejam robustos e seus galhos fartos.

_ Ah! Sei ...pode crer!?!

_ Eu entendo, meu filho, que as quatro grandes são o solo fértil, a terra fecunda em tradições que estão permitindo e permitirão que todas  trilhem seus próprios caminhos e nos encantem cada vez mais. Cada uma a seu modo, cada uma com suas cores, com seus próprios heróis, com suas próprias tradições. Entendeu Agora?

_ Hum! È ... quer dizer ...claro; entendi, claro... mas ....

_ Mas... o que...já vou desligar ....

_ Dona História... só mais uma coisinha, pode ?

_ Claro...

_ Por que a Portela agora?

_ Pensei que você já tivesse entendido. Lembra que te falei da Grécia, de Roma, do renascimento, da França? Pois é cada povo, cada nação, em cada momento da minha vida, ou melhor, em cada momento da história, tem um papel a desempenhar. O da Grécia  foi ter sido a base de tudo. Roma teve outro papel, A França revolucionária outro. Como a história julgará o papel da América hoje, dos norte americanos? E da China amanhã?

_ Mas e a Portela, Dona História...por que a Portela?

_ A Portela, meu filho...A Portela é a Grécia, meu filho...

_ Pode crer!?!?


* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de Carnaval

* E-mail: lcciata@hotmail.com

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Na sua opinião, qual desfile pode ser considerado o
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'Braguinha' (Mangueira, 84)

'Kizomba' (Vila Isabel, 88)

'Liberdade, liberdade' (Imperatriz, 89)

'Ratos e Urubus'
(Beija-Flor, 89)

'Vira, Virou...a Mocidade chegou' (Mocidade, 90)

'Vou cair na gandaia', (Viradouro, 97)


 



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