20/6/2008 04:35:00

Memória da Folia: 'Juliana Paes, num some, não!'

Luis Carlos Magalhães aproveita a saída de Juliana Paes da Viradouro para já marcar com ela um encontro para o próximo carnaval

Por Luis Carlos Magalhães

 
Li a notícia de que Juliana Paes se despediu do carnaval.

Fiquei por alguns instantes pensando, sentido, achando que ia sentir sua falta na avenida.

Não me lembro de ter visto mais de cinco ou seis cenas dela na TV. Pude, entretanto, vê-la algumas vezes em ensaios técnicos e em desfiles da Viradouro.
 
Acho até que posso chamar de tristeza o que senti ao ler a notícia.

Posso até afirmar que não sou o único, mesmo entre aqueles mais radicais que preferem o carnaval só para as comunidades.E fiquei pensando se a presença não dela especificamente mas daquelas de sempre é tão negativa, assim, no carnaval a ponto de nos irritar tanto.

Já fui assim, confesso. Ainda sou assim, um pouco, confesso.

Sim, é verdade que sempre nos irritou a todos ver alguém distante do samba se valer daquele momento, daquelas luzes, daquelas cores para se promover. E muito mais quando acabavam por ofuscar passistas, pastoras, componentes, isso tudo...nada nos irritava tanto.

Hoje, com o carnaval espetáculo, com as escolas correndo atrás de cada “merrés”, adquiri uma outra compreensão. Acho que as artistas, ou modelos, fazem um contrato com as escolas. Você me promove, agita minha carreira e eu entro com uma contra-partida para ajudar a escola, certo?

Será que com Juliana foi assim? Será que ela precisou da Viradouro para agitar sua carreira? Será que a Viradouro queria dela algo mais que seu encanto?

No último carnaval pude ver o fenômeno mais de perto.

(Eu falei “fenômeno”?... é falei... tá escrito “fenômeno”.)

Eu estava bem junto à cerca de arame do setor 1. Meninos, eu vi!

'...o show da bateria... alucina' Juliana. Juliana por sua vez alucina a bateria. Ambas alucinando o setor 1.

Não pude deixar de lembrar as cenas de um tele-jornal de cinema dos anos 60, quando as câmeras mostravam a primeira vez que os Beatles desembarcaram em Nova York.

Calma, calma... sei que os mais antigos já estão me deletando. Não estou dizendo que foi igual ou que foi parecido.

Mas então o quê estou querendo comparar com quê? Juliana com Pinah? Com Narcisa?

Na verdade estou querendo dizer é que em nenhum outro momento do carnaval, ou em qualquer outro momento da vida presenciei o tipo de relação, de comunicação humana que se formava entre aqueles populares e aquele sorriso imenso, separados pela grade de arame do setor 1.

Acho que é isto. No cinema eu também nunca tinha visto nada como a chegada dos Beatles no aeroporto John Kennedy naquele início de 1964.

Com todo respeito às outras moças da televisão, é como se perguntássemos se qualquer uma delas faria falta ao se despedir.

Estou tentando dizer é que quando a Viradouro entrar no setor 1, vai ser lindo como sempre foi. Ciça, Robson e Ana Paula, as fantasias lindas e acima de tudo estará lá aquela energia incomparável do setor 1. Mas acho que estará faltando alguma coisa, uma luz talvez.

Lembro como meu pai gostava de ver Gigi a cada ano na Mangueira. Acho até que depois ele ia dormir.

Lembro da magia de Paula, a presença luminosa de Narcisa, aquela cor morena, aquela boca sensual, Maria Lata d”água e Nêga Pelé.

Claro que não dá para comparar ninguém com ninguém.

A moça pobre, sem nenhuma produção, com uma lata d’água na cabeça com u’a moça-atriz hiper-produzida e mais ainda hiper-midiatizada.

Cada uma, uma beleza; Juliana trazia consigo seu sorriso, seus cabelos esvoaçando, sua simpatia, seu encanto e sobretudo a força de sua-imagem-tantas-vezes-repetida, a força de seus personagens.

As outras, além de suas próprias belezas, traziam, e aí superavam Juliana, a força dos personagens-de-si-mesmas. De suas vidas, de seus morros, de suas escolas...da ancestralidade que as fez resistir com sua gente e que nos deu esta festa tão mágica, de trajetória tão difícil e heróica, tão glamourosa a ponto de servir de palco para Juliana brilhar e nos encantar a todos.

Gostaria muito que Juliana voltasse “para o ano”. Nem como rainha de bateria. Uma qualquer, vestida de lantejoulas, de sandália de prata, surgindo por trás de uma ala, se encontrando com o povo, trazendo a ele a luz do seu sorriso.

E fico aqui querendo achar algo em comum entre ela, Paula, Narcisa, Maria, Nega Pelé. Será que há algo em comum? E vejo que o time de Juliana está escalado mais para Luma, Brunet, Galisteu, Gimenez, Viviane, algumas até sem ficar a lhe dever nada em brilho.

Muito difícil ficar teorizando sobre situações tão parecidas
e tão diferentes. Estabelecer algo em comum quando as meninas hoje contam com um verdadeiro arsenal midiático, Tv’s, revistas, cinema, algumas com milhares
de horas/vídeo, enquanto as meninas de ontem mal tinham o rádio, menos ainda a televisão.

Ao me lembrar dos Beatles ao ver Juliana, me encanto ao tentar encontrar explicação para a permanência por tantos e tantos carnavais daqueles personagens cuja glória na avenida é contada oralmente por gerações e gerações, como as que são aqui lembradas.

Quando a Viradouro entrar, vou estar lá bem perto. Se Juliana não vier sei que estará faltando algo. Uma luz talvez. Uma lembrança.

Paula, Narcisa, Maria Lata D’água, Gigi, Nega Pelé estarão lá, e todas as que não lembro agora; São parte do carnaval, são lendas do carnaval.

Juliana se apagará com o tempo; um dia, agora ou amanhã, voltará para seu glamouroso mundo.

Que podemos fazer então além de torcer para que enquanto isto ela esteja lá, vestida de lantejoulas, de sandálias de prata, fantasiada de menina simples, como tantas por aí que fizeram a história de uma história tão bonita.

***********************************

Sugestão para e ouvir:

É de Arrepiar: samba da Viradouro de 2007
Compositores: Paulo César Portugal, Evaldo, Tamiro e Lima Andrade

E-mail para contatos: lcciata@hotmail.com


* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval

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