02/01/2008 11:27:00

Memória da Folia: Morre o Rei do MIS

Coluna homenageia Cláudio Camunguelo, flautista, compositor e grande partideiro que faleceu esta semana. Considerado o Rei das rodas de samba do Museu da Imagem e do Som, ele se foi sem conseguir gravar seu próprio disco

Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)


_ “Ladies and gentlemannsss, How are you, I don’t speak English, I wonderful you very well, thank you my girls!”

Era mais ou menos assim que Camunguelo chegava nas rodas de samba e nos palcos ao se apresentar.

Ninguém precisava tê-lo conhecido para ficar sabendo que “... no campo do cajueiro em Madureira, tem pelada todo domingo de manhã...”, mas certamente precisava tê-lo conhecido, e minimamente ter com ele convivido, para reconhecer nele o mais original entre os sambistas de seu tempo. O mais singular.

Infelizmente agora não dá mais tempo...

Partideiro notável, compositor com disco quase pronto, Cláudio Camunguelo reinou em Irajá, mas sempre pedia desculpas para não humilhar a ninguém quando dizia que morava mesmo era em Vista Alegre, a Zona Sul de Irajá.

Quanto a seu apelido – que diabo será Camunguelo?! – ao que se sabe nem mesmo o mestre Ney Lopes, seu grande admirador/admirado, conseguiu saber que bicho ou que coisa era Camunguelo, de onde tinha saído aquele apelido e o que ele significava.

A primeira vez que o vi foi num dos vagões do “trem do samba” de 2001,no Pagode do Trem. O vagão estava meio jururu e ele sozinho fez a festa com sua flauta. Naquele ano levei comigo um amigo gaúcho. Reencontramos Camunguelo lá em Oswaldo Cruz num barzinho que nunca mais abriu na esquina da Rua João Vicente com a travessa Vicenza.

O samba comia solto com Camunguelo, Teresa Cristina e os meninos do Semente, ainda quase desconhecidos, e as damas da Velha Guarda, Tia Surica, Tia Eunice e Áurea Maria.

No bar não cabia mais ninguém. De repente uma televisão, que estava ligada lá no alto das prateleiras, despencou lá de cima quase atingindo Tia Eunice. A confusão foi instaurada já que o dono do bar queria saber quem iria pagar o prejuízo. No meio da confusão Camunguelo olhou pros músicos e pediu um “me dá um ré menor aí, se tu tiver coragem” e mandou um samba inventado ali na hora, no calor dos acontecimentos, narrando o desespero do dono do bar furioso ao ver sua TV espatifada.

Meu amigo gaúcho não acreditava no que via e muito menos no que ouvia; acreditava menos ainda quando eu lhe dizia que aquele samba era um improviso, que tinha sido feito naquele exato momento. Em vão... O tchê até hoje acha que eu estava inventando.

Passei então a encontrá-lo sempre aos sábados em Vila Isabel no bar do Costa, e sair de lá com ele para seu tour pelos bares e rodas de samba dos subúrbios. Eu fazia questão de acompanhá-lo sem rumo, “como seu segurança”, naquele seu velho Ford Del Rey azul que ele chamava de “caidinho”.

Nas inesquecíveis, e sempre lembradas, rodas de samba do Museu da Imagem e do Som, presidido então por Marília Barboza, em todas as pesquisas que fazíamos dois nomes pontificavam na preferência daquele público fidelíssimo de sextas-feiras alternadas: Efson e Camunguelo.

E olha que por ali passaram, cantando por cachês simbólicos, nada menos que Beth Carvalho, Paulinho da Viola, Elza Soares, Ivone Lara, Nei Lopes, Velha Guarda da Portela, Aldir Blanc, Moacir Luz, Martinho da Vila, Arlindo Cruz e muitos outros bambas.

Camunguelo pontificou como rei absoluto ao concorrer e conquistar o 2º lugar no Concurso Nacional de Choro do MIS, realizado na sala Cecília Meireles em 2001, batendo-se com 300 competidores vindos de todo o país, enfrentando Hamilton de Holanda, Guinga, Mário Seve, Zé da Velha e outras feras: virou nosso rei.

Nas rodas de samba dominava o público, fazia brincadeiras, contava mentiras, falava seu inglês aprendido no cais do porto e cantava seus – sempre mesmos – sambas, com seu jeito único, seu traje branco, sua flauta e seu boné.

Ganhava a vida mais na estiva, no cais do porto, do que com o samba. Há quem diga, e Nei Lopes é um, que Camunguelo era armador-amador. Andou construindo barcos. E quem quiser ver, não precisa nem subir o morro. O arcabouço – quase pronto - continua lá, em exposição ao lado de sua garagem – residência.

Ali mesmo onde anualmente, como o maior divulgador de São Jorge dessas bandas, realizava sua lendária festa para o santo guerreiro freqüentada por toda gente do samba, ali no mesmo conjunto habitacional onde morava, em Vista Alegre, Zona Sul de Irajá.

Membro da ala de compositores da Portela tinha dois orgulhos. Ter tirado o 2º lugar do MIS, mesmo sendo autodidata na flauta, e ter levado Zeca Pagodinho para integrar ala de compositores de sua escola.

Tive com ele o orgulho de ter ressuscitado após 10 anos de ausência, o bloco carnavalesco Bohêmios de Irajá. Às vésperas do carnaval de 2001, fui por ele conduzido à residência dos últimos diretores do bloco até formar uma nova diretoria jovem que levaria o Bohêmios, com verba de um projeto do Governo do Estado, novamente para o Rio Branco onde desfila até hoje com grande destaque.

Elo da corrente, destacado partideiro, freqüentador da festa da Penha, Camunguelo vai embora levando com ele mais um tipo carioca; mais um que a cidade perde deixando-nos aqui cada vez mais homogeneizados, mais iguais, mais globalizados, mais pop, enfim.

No dia de Natal passei pelo campo do Cajueiro, em Madureira, quando fui ao cemitério de Irajá. Não tinha nem pelada; também não era domingo nem era de manhã.

No cemitério não quis vê-lo, assim.

Preferi ficar me lembrando dele.

Fui embora, olhei para cima e imaginei vê-lo subindo...

Com sua roupa branca, com sua flauta, com seu passo largo e seu boné branco, com sua ginga, sorrindo... Igualzinho a um Camunguelo.

*****************************

Em Tempo: Como conseqüência das manifestações e comentários aos artigos publicados na Coluna do O Dia na Folia “Memória da Folia”, fui convidado pelo Instituto do Carnaval da Universidade Estácio de Sá a ministrar o curso de férias chamado “Figura e Coisas do Carnaval Carioca”. O curso é gratuito, sendo cobrada apenas uma taxa de inscrição de R$ 15. Serão abordados temas da coluna além das influências das migrações urbanas, das reformas urbanísticas e o comportamento do carioca na formação de sua cultura, com ênfase no carnaval.


Inscrições já abertas:
http://www.estacio.br/ferias/detalhes.asp?cd=38950&ano_turma=01/2008


Dias: Terças e Quintas-feiras
Horário: 18 às 22h
Duração 16 horas
Local: Campus da Praça XI – Avenida Presidente Vargas

• E-mail para contato (não para comentários) lcciata@hotmail.com
• Comentários sobre cada tema no local próprio indicado.

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