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Memória da Folia: O Dia em que o Carnaval acabou... (No tempo em que o 'Simpatia' era todo amor) Luis Carlos Magalhães
Mais do que nunca o carnaval era muito importante para mim. Todo mundo sabia do quanto eu gostava de ficar "pra lá e pra cá" na Rio Branco, atrás de um bloco, de um cordão. Depois ir encontrar velhos amigos, velhos foliões no Bar Simpatia. O "Simpatia", para os mais jovens, que não conheceram, era o máximo durante o ano. Ficava ali na esquina da Rio Branco com a rua do Rosário.
Tinha um certo ar europeu-tupiniquim com suas mesinhas redondas na calçada e cadeiras de vime. Sentávamos ali, bebíamos chopp ou "Frappé" de côco. O sabor do refresco de Tamarindo era indescritível. Seu marrom-forte contrastava com a cor do suco de laranja que se tomava ali com o remanescente ar chic de então naquela avenida. No carnaval o Simpatia cerrava as “portas de correr” e improvisava um balcão com táboas. Assim vendia chopp com bolinhos de bacalhau para nós que ficávamos ali curtindo o carnaval, mantendo a tradição dos antigos. Afinal, era ali, na Rio Branco que “... passaram e brincaram nossos ancestrais”, como disse o Buarque... Até aí, tudo bem... ma-ra-vi-lha ! Ocorre que a cada ano o movimento dos blocos, dos foliões, diminuía. Só o que aumentava era meu desespero de ver, a cada ano, o carnaval, o meu carnaval, minguando. Cada vez menos blocos, cada vez menos gente... Eu voltava pra casa de cabeça baixa. Minha família ficava com pena, dava a maior força e me incentivava prevendo que no próximo ano ia tudo ser mais animado, e que o povo voltaria para as ruas e tudo...
Só o Cacique resistia, heroicamente. O Sambódromo foi inaugurado, o desfile explodiu. Com ele a TV, a cores, o super som, super-stars, bundas de fora. Muito folião “das antigas” não resistia e ia para casa ver o desfile pela televisão. Só o que salvava era o Cacique e o chopp com bolinho de bacalhau no Simpatia, com meu pequeno filho assistindo a tudo do alto de minha garupa.
Não sei bem o ano. Anos 80. Lá surge o sambódromo explodindo em cores e peitos nus. Cá, a Rio Branco à “meia-bomba”. Olhei aquilo já meio desolado. Eu já me preparava para, mais uma vez, ouvir aquelas coisas que tentavam me animar diante daquela avenida esvaziada. Foi então que vimos aquilo. Eu não podia acreditar. A esquina estava quase morta. O movimento era tão pequeno que o “Simpatia” não abriu. Não abriu e não abriria mais nos carnavais seguintes. Fiquei olhando. Olhando lembrei uma passagem de minha infância na Rua Cabuçu quando um carro passou por cima e estourou uma bola de borracha que eu tinha ganhado de minha mãe onde nela escrevi um dia: “Eu sou SAMARONE – O DIABO LOURO”.
Eu já sabia o que iam falar. Mas naquele dia não disseram nada. Apenas me olhavam querendo, talvez, me colocar no colo. O Simpatia logo depois fechou de vez, deu lugar a uma loja de roupas masculinas. Está lá: Lojas Borelli. Já faz muito tempo. Não vou esquecer aquele olhar piedoso de meu pequeno filho. Se fosse hoje estaria me dizendo: - É, pai ! caiu a ficha ??? ou quem sabe ? – Perdeu, mané !!! Hoje os blocos voltaram para a Rio Branco e inundam toda cidade de foliões. Sempre que passo por lá fico um pouco ali. Loja Borelli, ou melhor no “Simpatia”. Fico ali sentindo ainda o aroma do bolinho de bacalhau, o sabor gelado do chopp, como a procurar por velhos amigos-foliões que já se foram. Já partiram ou estão em casa com o controle remoto na mão.
Foto 2: O Cacique resistindo heroicamente. Foto 3: Desfile do Bola Preta na Rio Branco em 2002 Sugestão para ouvir: Amor, amor, amor – Samba da década de 60 do Bafo da Onça (em versão não carnavalesca do disco comemorativo do cinqüentenário do Bloco). Autor: Mistura Voz: Áurea Martins
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