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Memória da Folia: O dia em que Oscar Niemeyer não morreu na Sapucaí Luis Carlos Magalhães analisa a troca de Paulo Barros por Milton Cunha na Viradouro e lembra, com orgulho, do desfile de 2006 da escola de Niterói Luis Carlos Magalhães É verdade, o carnaval começou... Como sabemos o carnaval não é como o outono, não é como o verão, não há uma data certa para que comece. Aquela data certa lá de fevereiro, o chamado tríduo momesco, para nós é apenas o período em que o carnaval acontece. Para nós que vivemos o carnaval em sua intensidade, submetendo tantas vezes a beleza à paixão, um ou mais fatos marcam o ponto de partida. O anúncio dos enredos hoje, o conhecimento das sinopses amanhã, tudo isso pode ser. Acho, no entanto, que o que marcou o início do carnaval desta vez foi a troca de Paulo Barros por Milton Cunha. E por assim considerar é que considero que há algo torto no ar além do cheiro de lança-perfume. Só para ativar a memória, a memória da folia, podemos lembrar as palavras de Laíla ao repórter Fred Soares pouco antes do carnaval de 2005. Naquele momento era sugerido que o som fosse desligado por quinze minutos durante o desfile, e que o desfile não passasse de sete horas: o desfile estava chato, dizia Laíla. Todos sabemos, ouvimos, escrevemos e pedimos “algo mais” no carnaval. Um pouco mais de emoção, de ousadia, de novidade, de “carnavalice”, de irreverência, enfim. Menos marcialidade, menos geografização, menos mineralização dos temas. Não que o carnaval não possa mostrar o seu lado barroco, seu lado hi-tec e suas outras faces, nada disso. Não que o impacto visual de uma alegoria humanizada supere todo um conjunto de quesitos submetidos à avaliação técnica. Não que os carnavais vencedores representem caretice ou cafonice, como já se ouviu. Nada, nada, nada, disso. O que se vem pedindo é que seja isso tudo que vem sendo mostrado e algo mais. Chega a doer de saudade um tempo memorável da Caprichosos, na primeira metade dos anos 1980, em que a escola se transformou na porta-voz da melhor mensagem carnavalesca aliando a verve de Luiz Fernando Reis com o talento de sua ala de compositores, sendo destaques desse grande momento o samba 'Moça Bonita Não Paga' do agora consagrado Ratinho, então de Pilares, que hoje assina grande parte dos sucessos de Zeca Pagodinho. Saudades de uma Ilha que a todos encantava com os inesquecíveis carnavais de Maria Augusta da segunda metade dos anos 1970, de uma fantástica ala de compositores e um puxador inesquecível, tão inesquecível como 'Domingo' e 'O Amanhã'. Aqueles foram carnavais que por mais carnavalizados, por menos marcializados que foram correram o risco de não estarem atendendo aos padrões-possibilitadores-de-vitória daquela época. Afinal, todos também sabemos que a cada julgamento, a cada ano soa como 'jurisprudência firmada', com perdão do 'juridiquês'. Traduzindo: cada resultado encerra um recado: Inove! Não inove! Arrisque! Não petisque! Passe sem errar e serás campeão! (Ainda bem que nem tudo pega. Já pensou se tivesse pegado a 'jurisprudência' da 'mudança da tonicidade'...? e a cacofonia...?, ou já esquecemos isto?) Se existe ainda hoje algum resquício daqueles carnavais podemos tentar localizá-lo nas intenções de Milton Cunha. Digo intenções porque sabemos também que muitas vezes tais intenções ficam mais na prancheta do que no desfile, não por seu desejo, mas pelas limitações-de-estilo-de-desfile impostas pela escola a exemplo do que agora acontece com Paulo Barros. Paulo Barros é hoje o maior exemplo daquele risco acima referido. Daquele conflito entre o novo, entre a inovação e o medo da apuração. Seu estilo, seu manancial de idéias, seu atrevimento, na mesma medida que enche olhos no dia, tira sono das vésperas de dirigentes temerosos de um julgamento mais conservador. A relação custo/benefício entre impacto/resultado, de atrevimento/ realização. A alegoria do DNA é um belíssimo exemplo da relação positiva criatividade/resultado; ou seja: arrepiou...A Tijuca fez um belíssimo desfile, encantou a cidade e levou um segundo lugar sendo considerada injustiçada por muita gente boa. A abertura dos esquiadores de 2008 é algo cuja complexidade de montagem e ousadia representa para mim algo nunca visto no carnaval. A pergunta: Será que o esforço, o mérito criativo final foi proporcionalmente significativo para o resultado? Não estou discutindo nem questionando o efeito e o impacto, indiscutivelmente inesquecíveis. A ousadia da concepção do “arrepiamento”, problemas judiciais decorrentes de “ousadias inéditas”, acabaram por produzir um desfile meio torto que levou a escola a um sétimo lugar, frustrando sua a direção após um quinto lugar no ano anterior também de muita ousadia. Com tudo isto, não consigo deixar de achar “meio torto” o fato de Milton Cunha ter sido chamado para fazer um desfile “clássico”. Mesmo que clássico tenha sido o último bom resultado da escola, em 2006, conquistando um terceiro lugar, “mordendo os calcanhares” da Vila e da Grande Rio que ficaram a sua frente. Naquele ano a vitória da Vila salvava a honra carioca. Foi a única classificada entre as três primeiras, adiando (ATÉ QUANDO????) o dia em que as três primeiras serão escolas da periferia da cidade. Que soa torto chamar Milton Cunha, como bombeiro, para fazer algo “clássico”, Ah! isto soa... Na verdade muito mais torto é Paulo Barros de fora; sua presença hoje no carnaval carioca, ainda que controvertida, e com diversos detratores de seu trabalho, é a garantia de “algo mais” além da persecução do vitória. É o compromisso com o novo, com a criação que tanto acrescenta ao espetáculo. Milton Cunha na Viradouro, como vimos, foi uma bela experiência ainda que com o luxuosíssimo auxílio de Mauro Monteiro e Cacá Monteiro. Será que em vôo solo será tão clássico quanto a escola espera? Em 2006 foi show foi um grande momento seu e da escola. Para mim, muito mais. Primeiro em razão de ter vivido meu melhor momento profissional bem perto de Niemeyer, como já contei, e pela admiração que tenho por esse grande brasileiro. Depois, e principalmente, por uma razão que nunca me senti à vontade para contar tal o grau de insanidade mental de que fui acometido naquele desfile, para mim inesquecível. Agora vou contar: Só para lembrar o tema era “Arquitetando Folias”. Contava duas histórias em um único enredo: Em alegorias, os diversos estilos arquitetônicos de cada época; em alas e fantasias mostrava as modas, os costumes e a folia desses períodos.. Niemeyer, à beira dos cem anos, seria homenageado e até o carnaval havia dúvidas se desfilaria ou não sobre um carro alegórico. Até hoje não sei se foi intencional ou não. A verdade é que quem “baixou” na Avenida foi Niemeyer. Ele, orgulho da raça, de quem Darcy Ribeiro dissera ser o único brasileiro a ser lembrado no ano 3000. E foi isso que se deu. Eu estava lá e vi tudo. O samba, antes por mim considerado medíocre, cresceu de tal forma às vésperas do carnaval que aconteceu de verdade na avenida, na hora certa. A escola cantou forte, com o público, como em uma prece de agradecimento: “Obrigado meu Senhor, por ter iluminado, E passava à minha frente a alegoria do Museu de Niterói: “ ... que fez cidade sem igual Naquele momento se fazia o carnaval pra mim. O carnaval com todos os ingredientes da minha aspiração: o encontro com nossa história, através de um gênio da raça, a beleza, a carnavalização e um samba que “pega na veia”. E emoção, muita emoção... Pois foi o que senti. Tanta emoção, tanto arrebatamento, que naquele momento desejei que Niemeyer estivesse ali na Passarela sobre uma alegoria diante da multidão; desejei que visse o povo a homenageá-lo cantando bem alto aqueles versos do samba; desejei que se emocionasse, que se emocionasse muito e que vivesse intensamente aquele momento. E num momento de absoluto desvario desejei que Niemeyer não resistisse e morresse de emoção em plena Sapucaí, na sua Passarela, louvado diante do povo brasileiro na maior festa de sua gente ao completar cem anos de uma vida tão bonita. “De vermelho e branco, amor, vou sambar
De vermelho e branco amor, vou sambar
* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval
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