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Memória da Folia: O Jequitibá envergado Colunista avalia a crise que a Mangueira vive, critica a postura de alguns veículos de comunicação na cobertura do assunto e afirma que a escola resistirá Luis Carlos Magalhães Na vida... cada um tem seu papel. Nesta tormenta em verde-e-rosa não é diferente. A imprensa fez seu papel: expôs a ferida. Ninguém inventou nada... os fatos estão aí; alguns mal contados, outros mal interpretados, mas a imprensa não inventou nada. Alguns jornais tiveram outro papel. Agiram como agentes comerciais de suas empresas. Tal como um vendedor de uma loja do Ponto Frio Bonzão. Usaram seus mais talentosos 'mancheteiros' e, muito mais que expor a ferida, enfiaram nela o punhal e o torceram, bem lá no fundo... Machucaram mais ainda, sangraram tudo que puderam. A verdade hoje é que o Jequitibá sangra... Mais que expor fatos, para algumas empresas o mais importante é o resultado no balanço. As padarias também são assim. Será que se a Mangueira fosse de Recife, Salvador, São Paulo ou Porto Alegre estaria sendo ferida dessa forma? Como sempre, não sei responder a essa pergunta. Sei, isto sim, é fazer muitas outras. A verdade é que os fatos se sucederam em impressionante progressão à medida que o carnaval se aproximava. Terá uma única pessoa tanta força assim, a ponto de ser sempre o núcleo propulsor de todo esse vendaval? Em todos os episódios? Ou a escola abusou de errar nessa novela sem fim? É como se fosse um bolo com vários ingredientes: o primeiro, a parceria do samba escolhido; o segundo ingrediente do bolo foi a foto do presidente naquele casamento, com bandeira da escola e tudo; o terceiro aquele foguete na quadra; a briga do Ivo na Sapucaí; o camarote VIP atrás da bateria. Cada um desses ingredientes, por si, se estivesse solitariamente na composição do bolo até passava; raspando, arranhando, mas passava. Mas não foi assim, foram misturados na massa todos juntos. Depois veio a tal fortaleza no morro estampada em todos os jornais. A notícia de que Alcione gravou um samba de Francisco do Pagode e a notícia de que ele mesmo venceu os sambas do Tuiutí e da Lins Imperial. A declaração do Prefeito; tola, se não fosse oportunista, como se fosse dado às escolas escolher entre o tráfico e a contravenção; ele sabe que não é assim. Aí surge uma viagem e o Chico Buarque não vai mais ao Show da escola no Canecão. _ O Jequitibá tem que ser mesmo muito forte! Que coisas terríveis já aconteceram no Borel, além do atentado ao jovem médico, agora paraplégico? Que outras aconteceram nas proximidades do Morro do Macaco? Sem falar no Salgueiro, no Alemão... Será que é a competência de seus dirigentes, ou a timidez dos traficantes daqueles morros que excluem a Tijuca, o Salgueiro, a Vila e a Imperatriz dos episódios policias tirando-as das manchetes dos jornais? Não por sorte, ou por qualquer acaso, a Tijuca ensaia, tem sua quadra, a muitos quilômetros do centro de comercialização de drogas do Borel. O Salgueiro a alguns quilômetros, a Vila a poucos quilômetros e a Imperatriz bem perto. Todas as quadras “descarimbadas”. A Mangueira, não! A Mangueira está encravada no Morro, ao lado do 'Buraco Quente', em cima do olho da comercialização, dos ataques policias, mostrando sua cara nas manchetes dos jornais de todo o país. É ilusão pensar que essa relação, mesmo que indesejada, vá ter final feliz no curto prazo. Terá chegado a hora de a quadra da Mangueira ir para a Praça XI, com todas as perdas e danos previsíveis? Terão as coisas chegado a esse ponto? A escola, penso, vive o momento mais difícil de sua bela história. Que jurado dará dez a um samba assinado por Francisco do Pagode? Há dois meses até daria; hoje dará? A nova direção da escola teme pelo patrocínio. Qual? Esse agora ou os futuros. E seus vitoriosos programas sociais e esportivos? Com que imagem a Mangueira sairá disto tudo? E Chico Buarque, estará mesmo viajando ou está tirando desde já o seu corpo fora do show do Canecão? Algumas empresas de jornais jogaram pesado. A imprensa, não; fez seu papel. Quanta gente hoje associa os fatos e imagina o tráfico, a fortaleza, as armas dentro do barracão da cidade do Samba. Raciocinando historicamente, que resultado faria melhor para a Mangueira e para a história do samba? Uma vitória retumbante, mostrando a todos a força da garra de seus componentes e a força de suas tradições, ou uma derrota retumbante que marcasse como cicatriz este passado recente? Uma cicatriz enorme e funda que para sempre seja vista por seus sambistas e por seus dirigentes para que tais fatos nunca mais voltassem a acontecer? De minha parte, não estou aqui para fazer história. O carnaval está chegando e a história... é para nossos netos. Deles para frente. Um dia, quando a história se fizer, não estaremos mais aqui, nem aqueles que tanto mal fizeram à escola. E o Jequitibá estará mais frondoso ainda. Estou interessado e na defesa do samba. Aqui, agora, hoje, para sempre, em defesa do carnaval. O capítulo mais importante dessa novela será jogado na hora do desfile. Somente a Mangueira, somente ela, com a autoridade, a força e o peso de sua história estará credenciada para sua própria defesa. Como sabemos cada um tem seu papel. Esse é o seu, Mangueira! Quando chegar o carnaval não vou querer saber da História. Quero mais é estar ao lado da Presidente Chininha, do Delegado, do Jamelão distante, do Luizito, do Marquinhos e da Geovana, da Comissão de Frente, dos Diretores de Harmonia, do Max Lopes, dos Passistas, do Mestre Taranta, da Velha Guarda, dos compositores e de todos os Mangueirenses de verdade que não vão pular fora nessa hora tão difícil. Quero estar ao lado de todos os baluartes, os vivos e os mortos, como Cartola e Seu Zé Ramos que este ano estarão mais vivos do que nunca. Seu Zé Ramos porque, nestes tempos difíceis, fico lembrando de seus sambas tão singulares. Principalmente um samba em que ele esculpi a metáfora da força das tradições da Mangueira: o Jequitibá do Samba. Este samba que tanto... tanto me impressionou, deixando marcas verde-e-rosa na minha então jovem alma que - depois de velho - com o passar do tempo se descobriu portelense. Eu estarei lá! Todos nós ouviremos, vindo lá de trás do primeiro Box da bateria, a voz frágil, doce e serena de Seu Zé Ramos: '... veio o fogo, queimou... ****************************** Sugestão para ouvir: ****************************** • E-mail para contato (não para comentários) lcciata@hotmail.com
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