02/02/2009 13:59:00

Memória da Folia: O momento maior de um sambista

Nesta data de homenagens a Paulo da Portela nada mais apropriado do que mostrar esta que é sua melhor, mais altiva foto: a minha preferida

Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A intenção aqui é mostrar que este momento da foto é o momento que representa o ápice, o ponto maior de sua carreira. Um comportamento, um exercício de liderança, uma “atitude” que fizeram com que José Ramos Tinhorão, o crítico mais rigoroso da cultura musical brasileira, 'carimbasse' tão significativa marca na pagina 296 de seu livro História Social da Música Brasileira: 'o legendário
Paulo da Portela'.

Como podemos ver, Paulo na foto traja uma calça preta com uma blusa branca em cujo bolso, abaixo de uma barra preta, podemos visualizar duas letras que parecem ser “C” e “C”, ou “E” e “C”. Acima de seu ombro direito vemos uma pastora com seu vestido estampado e torço na cabeça.

Podemos ver também Heitor dos Prazeres segurando o violão com sua mão esquerda, com roupa diferente da de seu companheiro. Ao lado esquerdo de Heitor, com tamborim nas mãos, parece estar o sambista Rubens Campos.

Que farra!

Como sabemos, o desentendimento que levou Paulo a deixar sua Portela se deu instantes antes do desfile de 21 de fevereiro de 1941, na Praça Onze.

Sabemos também que, nas proximidades daquele carnaval, Paulo, Cartola e Heitor dos Prazeres participaram do evento denominado 'Carnaval do Povo' promovido pelos cronistas carnavalescos de S.Paulo e pela rádio Cosmos da capital paulista; era a promoção de um ‘enfrentamento’ para saber “quais os bambas da música do morro, cariocas ou paulistas”, segundo o jornal Folha da Manhã.

Com eles foram algumas pastoras compondo um grupo cujo nome era “Conjunto Escola de Samba”, segundo consta do contrato.

Ou teria sido”Grupo Carioca”, como indicam Candeia e Isnard na monografia sobre Paulo(pg. 27)?Ou terá sido “Conjunto Carioca”, como consta em um diálogo reproduzido no livro de Marília Barboza e Lygia Santos (pg.124-1ª ed.)

No termo de compromisso firmado com Heitor dos Prazeres consta a participação dos sambistas Paulo, Rubens Campos, Baptista de Souza, Edison dos Santos, Jorge Santiago e Cartola.

Na foto do grupo aparecem todos estes artistas agachados e, por traz, em pé, seis pastoras. Trata-se aqui do grupo que foi contratado para o “Carnaval do Povo” e para permanecer em São Paulo, segundo o contrato, “por 28 dias consecutivos”, ou seja “a partir do dia 25 de janeiro do corrente ano, ao dia 21 de fevereiro”.

Heitorzinho também me disse, desta vez por telefone, que uma das pastoras era, nada mais nada menos, que a jovem D. Neuma da Mangueira.

 

 

 

 

 

 

 

 

E que há uma outra ali na foto que está lá por Oswaldo Cruz até hoje. Qual será a D. Neuma na foto? Qual será a de Oswaldo Cruz?

Vale identificar na foto as vestimentas das pastoras e a dos sambistas, idênticas àquelas que vestem Paulo e a pastora na primeira foto.

Percebe-se agora que as letras do bolso da blusa de Paulo eram “E” e “C” tal como podem ser identificadas, agora claramente, no bolso do sambista Baptista da Costa que posa ao lado de Heitor,o segundo da direita para esquerda.

Cabe aqui registrar, como vimos acima, que 21 de fevereiro era o dia do desfile da Praça Onze. Mais isto veremos lá adiante...

Vale observar também que o contrato firmado previa o valor a ser pago pela temporada, “ (...) inclusive passagem de ida e volta por via férrea (...)”.

Sucesso total: nossos bambas incendiaram S.Paulo.

Finda a festa paulista, começaria a outra: das ruas de São Paulo para a Estação da Luz e depois o trem; da Central para a Praça Onze, direto. Agora a festa carioca.

Enfim, a Praça Onze, enfim sua Portela querida. Paulo não poderia jamais imaginar o que estava para acontecer.

Heitorzinho dos Prazeres me contou, na exposição do centenário de seu pai, que aquela foto primeira, lá em cima, foi tirada já na Praça Onze, já aqui no Rio de Janeiro.Uma informação que teria sido prestada em vida por seu pai.

Eu que imaginava aquela cena ainda em S.Paulo, confesso que gostei muito de ouvir isto. Tal versão aproxima ainda mais o momento da foto com o momento da ruptura com BamBamBam, tornando minha tese mais atraente.

Tanto numa versão quanto noutra, o fato é que, como conhecemos o incidente havido, sabemos que aquele momento da foto antecede o tal desentendimento com BamBamBam; antecede ou em dias, em horas ou em instantes.

Ou lá ou cá, depois daquele 'flash' a história de Paulo, a história da Portela e _ quem saberá? _ a história do samba estaria tomando outro rumo

Ah! Mas blusa usada por Paulo no momento da ruptura era listrada, como consta no diálogo reproduzido no livro da Marília e da Lygia. Esta que está na foto é toda branca.

Mas em compensação a roupa é a mesma da foto do grupo, de calça preta de cetim e blusa branca, tal como costa da monografia de Candeia e Isnard, sem qualquer referência a listras.

E o que Heitor estava fazendo naquela foto sem a calça preta, vestido diferente de Paulo? A roupa dos três não era igual? Onde estava Cartola? Teria Heitor trocado de roupa no trem? Teria Paulo viajado sem trocar a roupa que usava no carnaval paulista?

O nome do grupo, segundo Heitorzinho, seria “Embaixada do Samba Carioca”, e não Conjunto Carioca ou Grupo Carioca. E que eles mesmos chamavam o grupo de “Embaixada Carioca”. As letras visíveis da blusa de Baptista de Souza parecem confirmar tal informação.

Dali para frente, sabemos como tudo aconteceu.

BamBamBam aproveitou para acertar velhas contas com Heitor e impediu que ele e Cartola desfilassem sem a roupa azul da Portela. Paulo, solidário, acabou por não desfilar também.

E nunca mais desfilaria...

Bem, estou aqui contando esta história toda com um único objetivo. Fixar aquela foto primeira, aquele momento, como o símbolo do sambista maior, o sambista realizado, no melhor momento de sua vida, no momento de sua maior glória como ser humano.

Vestia ali o traje da Embaixada Carioca marcando sua participação profissional _ não mais como ‘ante-projeto de artista’ _ em São Paulo, junto a Heitor e Cartola, lado a lado de um grupo de ponta da música brasileira: Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Carmem Costa. Todos já artistas muito famosos; gente de quem Paulo, até bem pouco tempo, só ouvira falar pelo rádio. Tudo isto se passava em um momento em que o samba alcançava todo o país pelas ondas potentes da Rádio Nacional.

Havia exatos dois anos Paulo encantara a todos na Praça Onze levando sua querida Portela ao segundo título, fazendo-se onipresente em todos os segmentos da escola: escolha do tecido, desenho de fantasias, concepção do enredo, determinação da forma narrativa, da forma e da representação das alegorias além do comando das evolução e da harmonia do desfile.

Muito mais do que isto, Paulo compunha então um samba completo, com segunda parte, “de acordo com o tema” do desfile _ Teste ao Samba _ , vestido de professor, evoluindo por todo o conjunto tomando a tabuada de seus ‘alunos’, os componentes da Portela fantasiados de estudantes:

“Cem divididos por mil
Cada um com quanto fica?
Não pergunte à caixa surda
Não peça cola à cuíca”

Ali, ao entendimento de tantos estudiosos, Paulo criava o samba que é o que mais se parece com aquilo que depois chamaríamos de samba-enredo: Viga mestra dos desfiles.

A Portela sairia daquele carnaval de 1939 vitoriosa, estruturada, consolidada, e orgulhosa.

A partir dali se transformaria na potência que a sustenta até os nossos dias e que nos faz, com tão imenso orgulho, dizer dela: a Majestade do Samba.

 

 

 

 

 

 

 

 

Naqueles dias que se sucederam, naqueles meses, até aquela noite do carnaval de 1941 Paulo da Portela reinou absoluto na Praça Onze, em Oswaldo Cruz e Madureira, e em todos os redutos do samba.

Respeitado, admirado e reverenciado por onde quer que andasse.

Naquela noite de carnaval de 1941 Paulo era o homem mais feliz e realizado da terra do samba. Aquela foto mostra isto muito bem, pelo menos para mim.

A melhor entre todas as suas fotos, a mais eloqüente, mais significativa de sua importância na criação de tudo isto que está aí.

E pensar que logo depois ... tudo se acabaria.
_____________________________________________________________________

SUGESTÃO PARA OUVIR:
Samba: Passado de Glória
Autor: Monarco
Disco: Portela Passado de Glória
Vozes: Velha Guarda da Portela.

FOTOS:
Todas do acervo da família de Heitor dos Prazeres, gentilmente cedidas por Heitorzinho dos Prazeres.

Fontes de Consulta:

Silva, Marilia Trindade Barboza da e Maciel , Lygia Santos. Paulo da Portela: traço de união entre duas culturas. Rio de Janeiro, Funarte, 1979.

Prazeres Filho, Heitor dos e Lírio, Alba. Heitor dos Prazeres: sua arte e seu tempo. Rio de Janeiro, ND Comunicação, 2003.

Candeia e Isnard. Monografia não publicada. Rio de Janeiro, 1979.

 

* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval


Email para contato: lcciata@hotmail.com

Inclua esta matéria no Del.icio.us Inclua esta matéria no Google Inclua esta matéria no Digg Inclua esta matéria no StumbleUpon



Mais notícias...

 MATÉRIAS RELACIONADAS
Artigo: Para Paulo da Portela II (29/01/2009 17:03:00)

Artigo: Para Paulo da Portela I (29/01/2009 15:03:00)

Artigo: Duas ou três coisas que sei de Paulo da Portela (28/01/2009 11:44:00)

Artigo: 'Tia Doca, nosso abraço em todos aí...' (25/01/2009 17:32:00)


Escolas de Samba
Enquete

Na sua opinião, qual desfile pode ser considerado o
mais importante da
história do Sambódromo?


'Braguinha' (Mangueira, 84)

'Kizomba' (Vila Isabel, 88)

'Liberdade, liberdade' (Imperatriz, 89)

'Ratos e Urubus'
(Beija-Flor, 89)

'Vira, Virou...a Mocidade chegou' (Mocidade, 90)

'Vou cair na gandaia', (Viradouro, 97)


 



Grupos Especial CamarotesGrupo AGrupo B Galerias Foto do Leitor Fale Conosco Notícias, bastidores, fotos e tudo mais relacionado ao maior espetáculo da Terra.
O Dia na Folia: Carnaval o ano inteiro, do Grupo Especial ao Grupo de Acesso E, passando por todos blocos e bandas da cidade. O Dia na Folia é um produto do Dia Online

Todos os direitos reservados